Lafer fala sobre “O terceiro ausente”

Por Fábio de Castro (Agência FAPESP)

Lançada nesta segunda-feira à noite (24/8), em São Paulo, a tradução do livro O Terceiro Ausente – Ensaios e discursos sobre a paz e a guerra, do pensador italiano Norberto Bobbio (1909-2004), faz parte das comemorações do centenário do autor.

O lançamento da obra publicada em 1989 na Itália foi marcado pela mesa-redonda “Bobbio e as relações internacionais”, que reuniu Celso Lafer, presidente da FAPESP e professor titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) – responsável pelo prefácio da edição –, Rubens Ricupero, secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) de 1995 a 2004 e atualmente diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado e presidente do Instituto Fernand Braudel, e Cláudia Perrone-Moisés, professora da Faculdade de Direito da USP e pesquisadora do Centro de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP, também conhecido como Núcleo de Estudos da Violência (NEV).

De acordo com Lafer, um dos maiores especialistas na obra de Bobbio no Brasil, o tema do qual trata o livro – as relações internacionais – não corresponde à faceta mais conhecida do autor.

“Bobbio é um grande pensador que trabalhou muito bem em várias áreas, como a teoria do direito e a teoria geral da política, além de ter feito análises muito importantes sobre a vida intelectual italiana. Seu trabalho como estudioso das relações internacionais se concentrou em duas obras: O problema da guerra e as vias da paz e no livro que lhe dá continuidade, O Terceiro ausente”, disse à Agência FAPESP.

Lafer explica que, nessa segunda obra, o italiano trabalhou em especial uma ideia que já vinha do texto anterior: a noção de que a presença das armas atômicas representou uma mudança qualitativa na vida internacional.

“Com o advento das armas atômicas, a reflexão da filosofia da história sofreu mudanças. Todos aqueles argumentos que, bem ou mal, defendiam a hipótese da guerra, viram-se postos em questão diante do risco da própria destruição da humanidade que comporta as armas nucleares”, afirmou.

Na obra, a discussão também se encaminha, segundo Lafer, para um exame das possibilidades de ação diante desse tipo de desafio. “Ele faz uma profunda discussão – que em parte é a análise de um estudioso da política e em parte é a análise de um jurista – sobre as maneiras pelas quais o conflito pode ser administrado pela existência de um terceiro independente e imparcial. O ponto central, portanto, é a importância da construção de um terceiro, na vida internacional, como forma da solução pacífica dos conflitos”, explicou.

Até certo ponto, segundo Lafer, a reflexão de Bobbio parte das ideias do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) sobre a construção do Estado como uma instituição capaz de evitar a “guerra de todos contra todos”, característica do estado de natureza. Bobbio discute, no livro, a possibilidade da construção, no plano internacional, de um terceiro capaz de impedir a guerra nuclear.

“Ao mesmo tempo, ele discute as formas de terceiros que existem no plano internacional. A Organização das Nações Unidas, por exemplo, é um terceiro. Mas trata-se de um terceiro fraco, porque está entre as partes e não acima delas. A ausência desse terceiro é o que preocupava Bobbio, com muita razão”, disse Lafer.

Bobbio chega a discutir qual é o papel da razão no contexto da administração e solução de conflitos internacionais. “Alguns acham que ela não tem papel algum, que sua impotência é semelhante à do peixe colhido em uma rede: pode debater-se, mas seu fim é inexorável”, disse Lafer.

Outros utilizam, para descrever o papel da razão, uma imagem proposta pelo filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951): o homem está na condição de uma mosca dentro de uma garrafa e cabe à razão, por ser operativa, explicar à mosca qual é a saída.

“Há, finalmente, a imagem preferida de Bobbio: o labirinto. O papel da razão seria o de mostrar que existem passagens bloqueadas, becos sem saída na convivência coletiva. Ela não ensina com clareza qual é o caminho, mas mostra que algumas das saídas não levam a nada. O argumento dele é que, com a inovação tecnológica e as bombas atômicas, a guerra é um caminho bloqueado”, disse o presidente da FAPESP.

O livro mantém sua atualidade, já que o fim da Guerra Fria não significou o fim do potencial emprego da violência no plano internacional. “Não houve uma renúncia às armas nucleares. O século 21 carrega em seu bojo a continuidade desse potencial inédito do emprego da violência adquirido pela humanidade durante o século 20 – que teve como uma de suas características a escalada da violência, como foi demonstrado pelas bombas atômicas lançadas sobre o Japão em 1945”, afirmou Lafer.

Prof. Celso Lafer, um dos maiores estudiosos de Bobbio, redigiu o prefácio da edição brasileira de "O terceiro ausente".

Prof. Celso Lafer, um dos maiores estudiosos de Bobbio, redigiu o prefácio da edição brasileira de "O terceiro ausente".

Disponível em: http://cev.org.br/comunidade/sociologia/debate/livro-o-terceiro-ausente-ensaios-discursos-sobre-paz-e-guerra-norberto-bobbio

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