À memória de Norberto Bobbio, por Arnaldo Gonçalves (jan./2004)

Norberto Bobbio morreu recentemente no hospital universitário de Molinette, em Turim. Tinha 94 anos. Parece que morreu tranquilo, sereno. Como sempre esteve na política italiana, no debate intelectual, no ensino do direito e da filosofia, na escrita, no comentário de opinião, na defesa da Europa, em cujo legado cultural e histórico se revia, como italiano e homem do mundo.

Disse Carlo Ciampi, o presidente italiano, na sua mensagem de condolências, que a Itália perdeu um homem rigoroso e justo, uma personalidade extraordinária, rigorosa e sensível, atenta e sagaz. Senador vitalício, mestre da liberdade, modelo de um empenhado e tenaz combate pela democracia, foi testemunha lúcida e coerente dos valores da liberdade e da justiça que são fundamentais à República. Nascido em 18 de Outubro de 1909, Bobbio tornar-se-ia, em 1973, professor de filosofia política na faculdade de ciência políticas, depois de ter ensinado filosofia do direito em Siena, Pádua e também Turim. À sua carreira académica junta-se uma obra que abre caminhos novos na reflexão sobre o direito, o poder, as relações entre o direito positivo e a moral, as relações internacionais. Com uma produção abundante — mais de 40 livros e para cima de um milhar de artigos, recensões e textos de análise — Norberto Bobbio contribuiu para franquear novos caminhos.

Rompendo nos anos 50 com o neo-idealismo propôs-se repensar as ligações entre empirismo e democracia, à luz dos ensinamentos de Kelsen e da filosofia analítica. Mais tarde, transferirá o sentido de rigor e diálogo inter-disciplinar para a filosofia política (1972), relendo os grandes clássicos da filosofia — Kant, Hobbes, Locke, Hegel — mas confrontando-o com a tradição italiana de autores como Maquiavel, Croce, Gramsci ou Rosseli.

Participara, em 1942, com Calogero, Rosseli, Capitini e outros na criação do Partito d’Ázione (Partido de Acção), grupo liberal-socialista que não sobreviverá à libertação, em 25 de Abril de 1945. Recusa, então, qualquer envolvimento partidário e regressa à vida académica. Opõe-se ao comunismo dogmático de Togliatti e assume-se como defensor da unidade do centro-esquerda, envolvendo-se, episodicamente, com o Partido Socialista, durante a década de 80, no debate da renovação da esquerda. Mas assume-se como liberal incapaz de se ajustar a “grupos e grupúsculos” que dominam o PSI. Rompe com o PS e com Bettino Craxi. Entrará no Senado, em 1987, a convite de Sandro Bertini, inserindo-se, como independente, no grupo parlamentar “Democracia da Esquerda – a Oliveira”, até à última legislatura.

Norberto Bobbio foi um dos últimos grandes vultos do pensamento intelectual e da cultura europeia do século XX. Professor emérito, grande comunicador, escritor inquieto, homem das letras, praticava a dúvida sistemática como instrumento prioritário do intelectual responsável e adogmático.

Esteve nos grandes debates intelectuais do século XX, contra os totalitarismos de esquerda e direita, com elevação, desprendimento, sobriedade e muito rigor. Lembrava, muitas vezes, que o papel do intelectual é de semear dúvidas mais do que recolher certezas. Por isso o intelectual não deve ser um militante engajado. Deve estar atento aos “rumores do tempo” mas não comprometido a um ponto, de perder o sentido crítico. Reafirmou-o vezes sem conta em “La Stampa”

O meu contacto com a obra e o pensamento do grande jurista e filósofo italiano foi profundo e impressivo. Tomei-o como tema do mestrado na Universidade Católica. A ele regresso sempre, com enorme deleite, revendo-me em grande parte do que aprendi. Retenho do seu pensamento uma grande inquietude intelectual, um contínuo “linguajar”, como diz o Carlos Henrique Cardim da Universidade de Brasília, com os clássicos, com os seus contemporâneos, questionando o sentido de justiça dos homens, das nações, a falta de sentido ético da vida moderna.

No último capítulo da sua “Autobiografia” recolhida por Alberto Papuzzi (publicada em Portugal pela Bizâncio) e intitulado “Despedida” regista: temos de perceber, mais uma vez, que o nosso sentido moral avança, admitindo que avança, muito mais lentamente que o poder económico, o político e o tecnológico. Todas as nossas proclamações de direitos pertencem ao mundo do ideal, ao mundo do que deveria ser, do que é bom que seja. Mas olhemos à nossa volta, vemos manchadas de sangue as nossas ruas, montões de cadáveres abandonados, populações inteiras expulsas das suas casas, míseras e famintas (…) É bonito, e talvez também animador chamar uma grande invenção da nossa civilização aos direitos do homem, mas em relação às invenções técnicas são uma invenção que continua a ser mais anunciada que realizada (…) Incerto é se será benéfica a influência que sobre a democracia pode exercer o progresso técnico. De resto, como tenho dito tantas vezes, a história humana, entre a salvação e a perdição é ambígua. Nem sequer sabemos se somos nós os senhores do nosso destino”.

Texto: O filósofo politico italiano Norberto Bobbio, em foto de maio de 1996, em Milão (Itália)

Arnaldo Gonçalves: especialista em Relações Internacionais. Escreve neste espaço às quintas-feiras
Jornal Tribuna de Macau 13.01.2004

Fonte: http://www.storm-magazine.com/novodb/arqmais.php?id=210&sec=&secn=

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