Um pouco da revisão técnica de “O terceiro ausente”

Quando se definiu que traduziríamos para o português “O terceiro ausente”, nós do Centro de Estudos Norberto Bobbio (CENB) ficamos muito contentes. Em primeiro lugar, porque o texto já era alvo de debates em nossos grupos de estudos já havia mais de um ano, depois porque entendíamos que muito do que a obra trazia, embora composta de muitos textos feitos no calor do momento, eram argumentos importantes para pensar temas que estavam na ordem do dia.

A tradutora escolhida foi a Daniela Versiani, de reconhecida competência e que já traduzira outras obras de Bobbio. Ficou a nosso cargo, pesquisadores do CENB, a revisão técnica da tradução e tomar alguns cuidados com a edição.

A tradução em si já  é sempre algo complicado. Ela deve ser fiel, mas há sempre expressões e palavras que possuem efeitos numa língua não repetíveis em outra, há o problema que a língua está associada a uma forma de pensar e nem sempre é possível passar tudo de uma forma de pensar para outra… Mas enquanto a tradução tem um problema, o texto original, a revisão técnica tem dois, o original e o traduzido. Somos responsáveis por manter o sentido original do texto, preservando o vocabulário específico (no caso de Bobbio, a Filosofia do Direito e a Filosofia Política) na sua correspondência com o português, mas devemos respeitar também as opções da tradutora.

A revisão técnica não é feita palavra por palavra, como um corretor automatizado. Partimos sempre de uma leitura da obra. E nesse ponto, o fato do texto ser alvo de nossos grupos de estudos há mais de uma temporada ajudou muito. A leitura da obra estava sedimentada, já havíamos ouvido uma enormidade de argumentos dos membros do grupo, já havíamos refletido bastante sobre os temas, de forma que era possível ter uma visão global da obra que deveria ser preservada em cada um de seus trechos.

Alguém poderia perguntar: mas eu não poderia ler os originais em italiano e fazer uma leitura diferente, sugerindo formas diferentes de tradução? A nossa resposta é direta: sim. A partir disso poderiam pensar, então, que a tradução é fruto de apenas uma das leituras possíveis. Isso é verdade, mas só em certo sentido.

A leitura feita pelos membros do grupo de estudos não foi um exercício de talento individual. Todos nós utilizamos um mesmo método, que é a leitura estrutural. Desta forma, compartilhamos um mesmo caminho para formular uma compreensão do texto e o fato deste caminho ser compartilhado contribuiu para manter o rigor no método.

E embora a leitura estrutural não seja o único instrumento utilizado na abordagem da obra, certamente foi o principal. Ela deixou clara a trajetória argumentativa de Bobbio permitindo dirimir equívocos e disputas sobre as suas asserções ao inseri-las no movimento do texto.

Uma boa revisão técnica, a nosso ver, não pode ser realizada com o objetivo de preservar o vocabulário técnico, entendo este como um bem em si. Preservamos o sentido dos termos técnicos porque eles são importantes para compreender os argumentos do autor. A análise desses argumentos deve levar em consideração a totalidade da obra e partir de uma leitura regrada dela, feita segundo um método e não por impressões pessoais.

Lemos a obra para revisá-la, não a revisamos ao lê-la.

Como dissemos, Bobbio é  um autor de filosofia do direito, um dos grandes nomes do século XX na área. Temos motivos de sobra para acreditar que, para ele, a escolha entre as palavras “dovere” e “obbligo” é mais criteriosa do que para a maioria dos falantes do italiano. Tivemos a preocupação em manter a correspondência exata dos termos, pois isso serve como uma garantia ao leitor de língua portuguesa de que o texto que chega a ele permite interpretação análoga ao original italiano, sendo que, na pior das hipóteses, a nossa atitude consistiria num excesso de zelo. Dever é dever, obrigação é obrigação. Além disso, tomamos uma cautela com os falsos cognatos: não dá pra traduzir automaticamente “giurisprudenza” por jurisprudência, p. ex. “Giurisprudenza” é freqüentemente usada para designar o estudo do direito, enquanto que para nós, falantes do português, o termo é geralmente entendido como o costume dos tribunais julgarem em certo sentido.

Houve necessidade também de adaptar o vocabulário da filosofia política. P. ex., seguimos a tradição ibérica de manter o nome da organização política em maiúscula: “Estado”.

Encontramos no texto de Bobbio expressões latinas com alguma freqüência. Nos originais elas não são traduzidas para o italiano, mas na nossa edição elas geralmente estão acompanhadas da tradução entre parênteses.

O uso de expressões latinas é mais comum para os falantes do italiano (os estudantes italianos aprendem latim nos anos escolares iniciais) e para os juristas de modo geral. Bobbio se inclui nas duas categorias.

Ora, como o objetivo do livro, disseminar uma cultura de paz, pressupõe a sua compreensão por um grande público, tivemos como princípio de que, para o leitor entender a nossa edição basta que ele seja competente na língua portuguesa, de modo que as expressões latinas foram mantidas, mas as não cognatas foram traduzidas ainda no corpo do texto.

Tivemos também um cuidado com a edição do livro. Um exemplo disso é a datação dos textos. Nos nossos debates no grupo sentíamos a necessidade, para bem interpretar algumas passagens, saber a data de publicação. Afinal, Bobbio foi sempre um intelectual no sentido kantiano do termo, estava sempre disposto a debater publicamente os temas para os quais se sentia competente. Para compreender suas posições muitas vezes era preciso, além de uma leitura estrutural, um conhecimento do contexto histórico que só poderia vir com o conhecimento do tempo em que foram expostas. A edição original apresenta essas datas em meio às notas do organizador, localizadas ao final da obra e em meio a algumas observações, o que trazia alguma dificuldade à busca. Com o intuito de facilitar a vida do leitor, na nossa edição elas estão logo abaixo de cada título.

O Prof. Lafer entregou o seu prefácio após a conclusão dos trabalhos da tradução e da revisão técnica. Como cuidávamos da edição da obra, a editora nos remeteu para revisão. Declinamos na mesma hora, sem sequer lermos, afinal o Prof. Lafer possui conhecimento notório sobre a filosofia de Bobbio, além de ser integrante da Academia Brasileira de Letras, de modo que perdia completamente o sentido revisarmos o seu texto. Por isso fizemos questão que na apresentação do livro constasse “Revisão técnica do texto de Bobbio”.

Valdemar Junqueira e Frederico Diehl – Centro de Estudos Norberto Bobbio

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