Bobbio no mundo ibero-americano

Livro de Celso Lafer e Alberto Filippi discute repercussão das idéias do filósofo italiano

“Cada vez sabemos menos.” Esta frase do filósofo Norberto Bobbio (1909-2004), além de evocar a sabedoria socrática (“Só sei que nada sei”), enfatiza a valorização que o intelectual italiano dava ao indivíduo em todas as questões. Ele, que considerava o século XX um período marcado pela violência e se definia como um militante da razão, acreditava que vivia num mundo em que a realidade resultava cada vez mais incompreensível e menos transparente.

Estudiosos das múltiplas facetas do pensamento de Bobbio, Celso Lafer e Alberto Filippi, respectivamente professores da Faculdade de Direito da USP e da Universidade de Camerino, Itália, lançaram, em março, pela Editora UNESP, A presença de Bobbio: América espanhola, Brasil e Península Ibérica. O evento ocorreu durante o seminário “Sobre a importância de Bobbio no Brasil e na América Latina”, realizado no auditório da Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), em São Paulo (SP) e marcou a inauguração do Centro de Estudos Norberto Bobbio.

Os autores ministraram palestras e, após o debate, que incluiu o docente italiano Michelangelo Bovero, da Faculdade de Ciências Políticas da Universidade de Turim, e Andrea Bobbio, filho do pensador italiano e professor de Informática na Universidade de Piemonte Oriental, Itália, foi inaugurado o Centro de Estudos Norberto Bobbio.

Durante o seminário – coordenado por Ruy Altenfelder, presidente do Centro de Estudos Estratégicos e Avançados do Ciesp e que contou com a presença do vice-governador do Estado, Cláudio Lembo, e do senador Marco Maciel –, os conferencistas ressaltaram o papel de Bobbio como um dos maiores pensadores do século XX e um jurista que conseguiu aliar a moderna Filosofia do Direito à Teoria Geral Política e à defesa dos direitos fundamentais.

Para Raymundo Magliano Filho, presidente da Bovespa, os livros de Bobbio, como Estado, governo e sociedade e O futuro da democracia, foram essenciais para o estágio da instituição que ele hoje dirige. “Aprendemos com o filósofo italiano a colocar em prática três tópicos que ele define como as bases da democracia: a transparência, a visibilidade e o amplo acesso”, afirmou Magliano na abertura do evento.

No seminário, Bovero, representante do Centro de Estudos Piero Gobetti, abordou as idéias de Bobbio à luz da análise conceitual, método desenvolvido pelo próprio filósofo italiano. Concluiu que ele era, ao mesmo tempo e sem ser contraditório, realista e idealista, porque lutava pela construção racional e realista de um mundo idealmente mais humano. “Para ele, sem direitos humanos não havia democracia e, sem esta, não existiria solução pacífica para os conflitos, já que, sem paz, os direitos podem ser violados livremente”, explicou.

No livro, Celso Lafer discute essas questões e aponta a contribuição de Bobbio ao debate jurídico e político no Brasil. Para o ex-ministro das Relações Exteriores e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e embaixador do Brasil em Genebra junto à ONU e à OMC, as idéias do filósofo são, por vocação, multidisciplinares. Introduzidas entre nós, na USP, com Miguel Reale, em 1953, mostrariam que o Direito não significa apenas permitir ou proibir, mas também promover e estimular a troca de idéias. Nessa direção, verifica que Bobbio é citado tanto por líderes do PT, como do PSDB e do PFL.

Filippi, por sua vez, enfatiza, na publicação, a importância do pensamento social liberal de Bobbio, num mundo em que o liberalismo se volta cada vez mais para os problemas sociais e o socialismo se torna cada vez mais liberal. Lembra ainda que um dos grandes temas do intelectual era a tensão entre a democracia real e a ideal, sempre tendo em vista a constitucionalização do direito à vida, pois a paz seria impossível num mundo marcado pelas desigualdades.

Outro tema de grande interesse para Bobbio é o papel dos intelectuais na política, já que ele os via como mediadores que deviam ter a calma para analisar situações e a honestidade para propor melhorias. Por essa óptica, Lafer e Filippi, ao verificar como as idéias do pensador foram absorvidas na Itália e na América Latina, demonstram que o pensamento de Bobbio ultrapassava – e continua a superar – fronteiras, pelo seu profundo humanismo, que conduz necessariamente à reflexão e ao debate.

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A presença de Bobbio: América espanhola, Brasil e Península Ibérica – Celso Lafer e Alberto Filippi; Editora UNESP; 176 páginas; Informações: (11) 3242-7171, www.editoraunesp.com.br e feu@editora.unesp.br

Fonte: http://www.unesp.br/aci/jornal/200/bobbio.php

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