Norberto Bobbio: a objetividade crítica

Ivo Lucchesi
Ensaísta, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular do curso de Comunicação das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro.

Diferentemente do quase absoluto descaso com que a chamada “grande imprensa” tratou, em tempos anteriores, os falecimentos de outras personalidades da esfera intelectual, a exemplo de Guy Debord, Gilles Deleuze e Pierre Bourdieu, pelo menos a morte de Norberto Bobbio, ocorrida em 9/1/2004, não ficou limitada ao registro dos obituários. Os jornais nacionais de maior expressão conferiram ao pensador italiano razoável destaque.

A trajetória de Bobbio, embora habitada por amplo leque temático, sempre procurou focar as possibilidades da sobrevivência do pensamento político e as suas possíveis parcerias com a tradição filosófica ocidental. Hobbes, Kant e Hegel costumeiramente desfilam pelas centenas de páginas da sua obra. Obviamente, a unanimidade jamais pode seguir os passos de nenhum intelectual, até porque a reatualização e a sobrevivência da obra dependem, em parte, da capacidade de agregarem-se em torno dela vozes de discordância e, até, de parciais incompreensões. Num ponto, todavia, a obra de Norberto Bobbio encontra o eco de uma voz de reconhecimento: o esforço de um pensador em entregar-se, como destinação de toda uma vida, ao projeto de refortalecimento do sentido e da aplicabilidade da democracia. Bobbio, sem dúvida, encarna a sentinela da liberdade, sem trair-se, no entanto, com a ingênua repetição de clichês que o tema, não raro, atrai.

A atitude intelectual de Bobbio distingue-o de muitos dos seus pares contemporâneos que, a despeito das boas intenções, tendem a cair na armadilha na qual há a perseguição pela conquista de platéias e seguidores, além de excessivas exposições à mídia, cuja conseqüência acaba por enfraquecer o vigor do pensamento para o qual se faz indispensável certo distanciamento. O perfil dessa atitude mais reservada – que não se confunde com alheamento – permitiu a construção de uma vasta obra que, em nenhum momento, teme contrariar expectativas, obrigando o pensamento dominante (ou da moda) a revisões e argumentações renovadas. Poderia afirmar que o conjunto da obra de Bobbio registra interessante dupla face: a mobilidade de um pensar atento às contínuas mudanças e o rigoroso centramento ético. A dupla face assim composta impede a presença de contradições ou posições que possam parecer duvidosas.

Não há como o leitor acompanhar a obra de Bobbio sem desarmar-se quanto às tentações em torno do sentido da “dúvida” e do “pessimismo”. Na raiz da “dúvida”, como categoria filosófica, reside a “mobilidade” à qual nos referimos, bem como no fundamento do pessimismo se aloja o centramento ético. Por saber que a vida exige a mobilidade, fruto de suas inevitáveis mutações, o pensador se ancora na dúvida. Por compreender as agruras armadas pela história como processo, em suas lutas e desigualdades contínuas, o pensador se afasta das convidativas adesões, oriundas muitas das vezes de enganosos pactos, firmando-se na rigidez de um pessimismo que, na verdade, é a arma contra a imobilidade dos desiludidos. Para harmonizar e perpetuar a dupla face de sua obra, Bobbio jamais se descartou de sua fiel e permanente companheira: a objetividade crítica.

Fonte: http://www.pfilosofia.xpg.com.br/geocities/mcrost13/oi102.htm

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