O filósofo que popularizou a Bolsa

O ex-presidente da Bovespa conta como as ideias do pensador italiano Norberto Bobbio ajudaram a popularizar a Bolsa de Valores no Brasil e diz que a filosofia auxilia na hora da ação

Por: Eugênio Esber / Redação de AMANHÃ

Quem não conhecesse Raymundo Magliano Filho poderia imaginar que, em 2001, a Bolsa de Valores de São Paulo empossava um presidente comprometido com a tradição. Afinal, aquela mesma cadeira já havia sido ocupada por Raymundo Magliano, pai, criador da primeira corretora a ser inscrita na Bovespa, a Magliano, fundada em 1927. Embora lógico, o prognóstico se revelaria um equívoco. Entre o ano de estreia, quando já liderou uma insólita greve de protesto contra a CPMF, até sua saída, em 2008, a Bovespa se tornou uma bolsa mais transparente e principalmente popular – hoje, mais de meio milhão de brasileiros participam do mercado de ações. Agora, aos 67 anos, o presidente da Corretora Magliano coloca sua energia na implantação do Instituto Bobbio, que difundirá as ideias do pensador italiano que inspiraram as mudanças na bolsa brasileira, como o próprio Magliano explica na entrevista a seguir.

O que as ideias de Norberto Bobbio, cuja obra gira em torno da ciência política, têm a ver com bolsa de valores?
Logo que eu terminei meu curso de Administração na FGV, passei a ter aulas particulares de filosofia com o professor Tércio Sampaio Ferraz Júnior, da USP.  Foi ele quem me introduziu na área das ciências humanas. Isso durou 19 anos. Quando eu comecei a atuar no mercado de capitais, já estava incorporada, em mim, a visão de que a bolsa deveria ser mais popular. E quando cheguei à presidência da Bovespa, em 2001, achava que já não cabia, mais, um pensamento elitista em relação ao mercado de capitais. Inclusive, em meu discurso de posse, eu propus exatamente isso. Nós tínhamos de fazer a transformação de uma bolsa elitista para uma bolsa popular. Do contrário, ela não se sustentaria no tempo e nem no espaço, ela não encontraria legitimidade entre a população. E, nesse processo de mudança, eu tentei aplicar os conceitos de Bobbio.

Que conceitos, exatamente?
Bobbio nunca falou nada a respeito de economia ou mercado. Mas refletiu muito sobre democracia. E entre tantas coisas importantes que escreveu em seus diversos livros, ele sustentou que a democracia possui três pilares importantes. O primeiro é a transparência. O segundo é a visibilidade. O terceiro é o acesso.

Comecemos pela transparência…
Muito bem: eu estive na Espanha e vi que lá havia um instrumento importante de transparência que é ombudsman. Há mais de 15 anos que essa figura existe, por lá, e os resultados são altamente positivos. Mas o que há de bom nisso? Para responder, é preciso ter em conta que, antigamente, o mercado de capitais produzia 20 mil operações por dia. Hoje são 250 mil. Se o cliente deu uma ordem errada, ou o operador…  isso vai criar um problema. Se não houvesse o ombudsman, o que ocorreria? O problema poderia ir para a Justiça. Logo depois, para a mídia. E isso repercutiria negativamente na credibilidade da Bolsa de Valores.

Credibilidade que, no caso da bolsa brasileira, andava em baixa a partir das crises dos anos 70 e 80.
Não há dúvida. A ideia de bolsa de valores era associada a uma casa de jogos, um cassino. Essa era a visão da população, infelizmente. Então, o que podia ser feito? A gente implantou este sistema de ombudsman aqui na bolsa brasileira e foi muito bom. Hoje, há muita facilidade para dirimir as dúvidas entre investidor e uma corretora. Em dois, três dias, resolve o problema. No Judiciário, além de levar seis, sete anos, nem sempre o juiz tem conhecimento específico sobre mercado de capitais. Outra vantagem do sistema de ombudsman fica evidente quando se leva em conta que o Brasil é um país continental e que você não tem bolsa em lugar nenhum a não ser em São Paulo. E corretora também não há em todos os lugares. Imagine que uma senhora que more lá perto de Manaus descubra que o marido, que faleceu, tinha um número expressivo de ações. Ela pode nem saber direito o que fazer com isso. Mas, se a dúvida for levada à bolsa, o ombudsman tem 48 horas para responder a ela. Esse mecanismo facilitou muito a desmistificação do mercado de capitais. Outro passo fundamental, no quesito transparência, foi o Novo Mercado, que estava criado e precisava ser implementado.

Qual o mito que o Novo Mercado combatia?
A visão que as pessoas tinham no Brasil é de que comprariam uma ação e não teriam direito a quase nada. “Ah, eu sou acionista minoritário, o acionista controlador nunca me dará satisfação.” Isso começa a mudar com a implantação do Novo Mercado, onde só se negociam ações ordinárias, que dão direito a voto. Isso tem um peso significativo nas assembleias. E no Novo Mercado há novos direitos para os acionistas minoritários e um número expressivo de obrigações do administrador da empresa perante eles e o conjunto dos acionistas no campo da transparência. Isso fortaleceu muito a credibilidade da bolsa.

E quanto à visibilidade, o segundo pilar da democracia que você mencionou?
Bobbio diz que visibilidade é a menor distância entre o governante e o governado. A nossa bolsa, como é que ela se comportava? Ela ficava no décimo andar de um prédio na cidade e não se comunicava com a sociedade. Então precisávamos nos aproximar da sociedade. Para isso, nós criamos algo no campo simbólico – e nisso a antropologia nos ajuda muito. Porque somos uma sociedade de símbolos. Paletó, gravata, semáforo, tudo é simbólico na sociedade. Então criamos na bolsa um Bovemóvel. O que é isso? É uma Bovespa móvel, um furgão que representava a possibilidade de a bolsa ir a todos os lugares do Brasil. Começamos a ir a fábricas, aeroportos, depois fizemos até uma grande excursão pelas praias brasileiras…

A ideia era tornar a bolsa próxima, tangível?
Sim. E o programa “Bovespa vai até você”  deu muita visibilidade à bolsa. Porque chegando perto da pessoa, ficando frente a frente com ela, colocando monitores para explicar tudo, você desmistifica, você mostra que a bolsa não é uma casa de jogos e sim um instrumento  de inclusão econômica e social. Tudo isso foi muito importante. Fomos até a Vale do Rio Doce. Rodamos 35 dias de carro e chegamos lá em Carajás para explicar o mercado de ações. Os trabalhadores se motivaram mesmo. Naquela região, foram formados quatro ou cinco clubes de investimento. Foi um programa excepcional. Mas, aí, começamos a nos preocupar com a questão do acesso, que é o terceiro pilar de democracia que o Bobbio referiu.

Qual era o problema da Bovespa em relação a acesso?
Bobbio diz que não adianta saber quantas pessoas votam. Que o importante é saber onde se vota, o centro de poder. Por exemplo, nós, brasileiros, não temos acesso ao Conselho Monetário Nacional. Nas questões econômicas votadas pelo Conselho, o brasileiro não tem acesso, não tem a oportunidade de estar no centro do poder. No campo da política, é uma discussão que remete à divisão entre democracia formal e democracia real. No campo do mercado de capitais, percebemos que era preciso dar acesso a dois segmentos importantíssimos da vida brasileira que até então estavam excluídos: as mulheres e os trabalhadores.

A bolsa era território de marmanjos?
Era um mercado altamente machista, entende? Só homens participavam. Entre os operadores, só homens, também. Em certo momento, porém, fizemos uma pesquisa e constatamos que as pessoas mais determinantes para a constituição de clubes de investimento seriam as mulheres. A pesquisa mostrou que elas são altamente transformadoras e exercem liderança dentro de casa. Além disso, é a mulher quem tem uma visão de longo prazo, na família, no sentido de poupar para a faculdade dos filhos, por exemplo. A mulher aguarda o nascimento do filho durante nove meses. Por isso, ela tem algo que é muito importante no mercado de ações: ela sabe esperar. O homem, não. Quando entendemos que são as mulheres que transmitem essa cultura para casa, para os filhos, investimos fortemente nelas com o “Mulheres em ação”, que percorreu o Brasil inteiro. Hoje, elas têm grande participação no mercado de capitais e nos ajudaram  em algumas outras mudanças.

Quais, por exemplo?
Elas nos disseram que não adiantava ficar só fazendo programas do tipo “Bovespa vai até você” se as pessoas não tivessem uma educação financeira. E sugeriram que a bolsa fizesse algo nessa direção. Foi quando começamos ações de educação financeira. O “Bolsa aberta”, por exemplo, ocorre todos os dias, de segunda a sábado, oferecendo cursos em faculdades, escolas, universidades. E então se passou a disseminar uma cultura da poupança. Como vamos viver mais, precisamos nos preocupar ainda mais com poupança – e não tanto com consumo, como é da cultura da maioria das pessoas. Foi, então, que percebemos a importância de estabelecer uma parceria com trabalhadores. Não existe capitalismo sem trabalhador.

Como se deu essa “parceria” com trabalhadores?
Estabelecemos uma ligação com sindicatos e colocamos, lá dentro, escritórios com o objetivo de divulgar o mercado de ações para trabalhadores. Não era para vender ações. Era para esclarecer, explicar. O resultado foi excelente. Na Força Sindical foi criado um clube de investimentos de quase 100 trabalhadores. Cada um deles dava  R$ 30 por mês. O Paulinho da Força teve essa ideia: um real por dia de poupança. Isso foi se disseminando muito. E os trabalhadores foram verificando que, se realmente querem ter empregos e investimentos, precisam ter uma bolsa forte. E para culminar essa parceria, fizemos uma coisa inédita no mundo. Colocamos dentro do Conselho da Bolsa de Valores um sindicalista. É a tese do Bobbio: não adianta sabermos quantos votam, mas sim onde se vota. Então o sindicalista tinha poder de votação igual ao dos conselheiros da Bovespa. E aí a idéia de caixa-preta sumiu. O sindicalista votando, está vendo tudo. Isso deu uma credibilidade muito grande e a bolsa realmente foi se desenvolvendo nesse sentido, com esses pilares básicos.

Esta nova bolsa, com mais mulheres  e mais trabalhadores, passou bem pelo teste de 2008, quando o mercado de capitais desabou no mundo inteiro?
De fato, o perfil da bolsa mudou bastante. O número de investidores pessoas físicas passou de 84 mil, em 2001, para 570 mil em 2009. Os clubes de investimento também cresceram muito: de cerca de 400 para quase 3 mil. E, na crise do ano passado, a bolsa brasileira deu uma demonstração de maturidade.  Nós tivemos retiradas grandes, mas de investidores estrangeiros. Do investidor nacional, não. Como havia influência das mulheres, como os investidores estavam esclarecidos de que bolsa é um investimento de risco, e de longo prazo, a crise não alterou o raciocínio das pessoas. A avaliação predominante foi de que não interessa, tanto assim, se o mercado caiu ou subiu em ano, mas ter em conta um horizonte de vários anos.

Você teve aulas particulares de filosofia e aplicou conceitos de um pensador contemporâneo no mercado de capitais. Por que a filosofia e os homens de negócios não são mais próximos?
Não sei bem a razão. Talvez o conhecimento filosófico não seja muito difundido. Talvez a filosofia sempre tenha sido levada somente ao nível da reflexão. A filósofa Hanna Arendt diz que não adianta ficar apenas no plano da reflexão, que é preciso partir para a ação. Se não agir, não funciona. Eu creio que as pessoas ficaram muito no nível da reflexão e esqueceram que a filosofia auxilia muito na hora da ação. Por exemplo, quando fizemos a greve da CPMF na bolsa (em 2001, Magliano liderou uma greve de operadores do pregão contra a incidência da CPMF sobre operações em bolsa), nós utilizamos muito a filosofia de Hanna Arendt. Ela diz que o poder é um agir conjunto. Eis um problema seriíssimo que nós temos. O ser humano é muito vaidoso, individualista. Quer fazer tudo sozinho. Nós fomos para Brasília, falamos com 460 deputados, fizemos a greve. Quando você faz um agir conjunto, você cria laços de lealdade política. As pessoas se esquecem disso e ficam apenas no plano da reflexão. A pessoa que tem conhecimento de filosofia pode aplicar isso na realidade. É só tentar fazer essa transposição.

Disponivel em: http://www.amanha.com.br/Noticia.aspx?CanalID=a57f2f11-080a-4fbc-8c56-6e52451a5200

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