Bobbio, Bono e o Brasil

Roseli Fischmann*

Andava pensando, em relação ao show do U2 [ocorrido no Brasil em 2006], se não viria a ser um fenômeno para se viver ao vivo, quando a explosão das vendas dos ingressos e as confusões das filas responderam na prática que não teria jeito. Sobrou a alternativa de assistir a transmissão pela tevê, ainda que trechos, enquanto me ocupava de outras coisas. Perde-se quanto à possibilidade de partilhar a vibração da massa, mas ganha-se em detalhes.

Mas por que invoco o nome do mestre italiano, no título deste comentário? É que o célebre livro A Era dos Direitos, de Bobbio, é desses trabalhos indispensáveis, que devem ser lidos por todos que pretendem compreender melhor quais os caminhos que se abrem como possibilidades para a humanidade, estejamos ou não desperdiçando eventuais oportunidades de coloca-las em prática.

Testemunhamos, então, ontem, os que acompanhamos o show do U2, Bono tentando trazer na adaptação de Miss Sarajevo um pouco de Bobbio: “This is the time for human rights?” “Este é o tempo dos direitos humanos” enxertou na letra, puxando um menino ao palco que, extasiado, não fez o jogo que Bono pretendia. O roqueiro cantava “This is the time…” tentando passar a bola para o menino fazer o que seria o gol “… for human rights”, até porque já começava a projeção da Declaração Universal dos Direitos Humanos no telão ao fundo. Mas o menino só fazia repetir o que Bono entoava: “This is the time?”.

O momento de certa forma sintetizou o fenômeno que ali ocorria. Um cantor (e seu grupo?) com uma pauta ideológica que atrela a sua imagem, mas que veio ao Brasil sem os devidos esclarecimentos que precisaria ter recebido. Por exemplo, que uma parte considerável do público estaria ali pela música que fazem, sem outras motivações, sem necessariamente identificar-se com suas mensagens e pautas nas conseqüências de atitude que acarretariam. Trouxe a proposta de louvar a América Latina, clamando por Peru, Chile, México a fãs que ficaram sem a reação esperada, tentando entender o que aquilo significava, enquanto palavras em espanhol eram projetadas ao fundo (ah, que saudades da autenticidade bruta de Reagan nos chamando de “povo da Bolívia”!).

Os mesmos fãs que o deixaram estupefato ao desabar uma vaia monumental quando aos sorrisos ele mencionou a Argentina. Sem dúvida ninguém havia dito a ele que o público no Morumbi não era o público do Fórum Social Mundial, mas ele se recuperou rápido aos brados de “Brasil, Brasil”. No “timing” do show aquele seria o momento de identidade com o público, que ou supostamente teria vindo dos demais países irmãos latino-americanos para vê-los (como se fôssemos uma Europa, que algumas horas de trem levam de um país a outro, atravessando alguns no meio), ou como se houvesse uma solidariedade latino-americana vivida no Brasil, comumente, por todos os brasileiros. Confundiu a pauta do presidente Lula, a quem admira, com um povo que desconhece, embora compre seus discos e pague caro para ver seu show.

Embora meu coração militante tenha se enchido de satisfação ao ver a projeção da Declaração dos Direitos Humanos em português, embora recitada depois em inglês – e bem que podiam ter usado só um pouquinho de todo o dinheiro que faturaram em cima dos brasileiros para gravar uma criança brasileira lendo a declaração, remunerando-a para isso aliás – quando ele tentava provocar a “resposta certa” do menino que puxou da platéia, havia ali mais um hiato enorme que se mostrava. O que se coloca entre o bom-mocismo que Bono, excelente músico e líder da banda, procura promover e a efetiva consciência que tem acerca da vida das pessoas a quem e sobre quem prega.

O momento é muito importante para os direitos humanos no Brasil, mas não no genérico abstrato, embora paradoxalmente o cantor não tenha obtido a reação que talvez esperasse do público brasileiro. É que a descrença anda forte, com os escândalos todos, corrupção vestida de novos trajes lingüísticos que apenas a falta de civismo e o excesso de cinismo explicam – tudo magnanimamente englobado num “errar é humano” que jamais poderia ter se permitido o presidente Lula, a quem Bono admira (mas isso não lhe contaram também).

Absolvições de políticos por políticos, que ao final se abraçam e se emocionam, um “nós com nós” que deixa ao largo toda a cidadania, sob o olhar complacente de políticos que se dizem corretos mas calam, omissos. Ou a anulação da condenação de um dos principais responsáveis pelo massacre do Carandiru, como se o júri fosse ignorante do que fazia e que pudesse ser desqualificado e anulado, relembrando os tempos das afirmações de que “o povo não sabe votar”. Se a vontade do povo (e o júri representa o povo, se não me engano) pode ser anulada, o que fazer com os direitos que advêm da soberania desse povo?

Como a “coroa surreal” de Miss Sarajevo, surreal e animalesco (como magistralmente caracteriza Clóvis Rossi na Folha de São Paulo de 21 de fevereiro) foi o ocorrido em Engenho de Dentro, no Rio, enquanto rolava o show dos Stones, como narrado por Elvira Lobato http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u118501.shtml. Dois jovens negros assassinados, esquartejados, a cabeça de um deles colocada sobre o capô do carro como anúncio pelos traficantes do que pode acontecer a quem falha nos seus tratos. Como se fosse insuficiente, a reação dos circundantes descrita pelos jornalistas choca tanto quanto o fato. Riram, disseram ser “normal”. Isso, dias depois dos jornais estamparem fotos dos moradores da Rocinha caminhando e desviando o passo de corpos, bem no plural, jogados no chão. Beirando o absurdo indagado na bela música “Beatriz” de Chico Buarque e Edu Lobo, “Se ela um dia despencar do céu/ E se os pagantes exigirem bis?” Esse o ponto a que chegamos de brutalidade em nosso país, em que não será um menino a saber completar, nem em português, quanto mais em inglês, o refrão que Bono tanto desejava ouvi-lo cantar.

Os ensinamentos de Bobbio são mais necessários que nunca, como a sabedoria bíblica do Eclesiastes “Há tempo para todo propósito debaixo do céu…”. Que tempo é este nosso, no Brasil, tempo de quê, venham as autoridades e políticos nos dizer o que pensam, para além de administrar suas mesquinhas motivações.

Faria bem a assessoria de Bono se traduzisse para ele esse momento brasileiro, essa insensibilidade que há entre classes dirigentes quanto aos que sofrem, nas camadas médias que só pensam em seus itens de consumo, entre os quais talvez até haja brecha no orçamento para um show magnífico do U2. Poderiam traduzir pelo menos o trecho do célebre “O Bêbado e o Equilibrista”, de João Bosco e imortalizado pela Elis Regina, hino da anistia que bem pode fazer compreender melhor o que andamos vivendo e sentindo, e porque apesar de tudo é muito bom que possamos partilhar sua arte:

“ (…) Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar”

*Roseli Fischmann é pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da USP.

Fonte: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=bobbio-bono-o-brasil&cod_Post=33581&a=112

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