Raymundo Magliano Filho, um discípulo bobbiano

Ex-presidente da Bovespa (2001-2007), fundador e atual presidente do Instituto Norberto Bobbio – Democracia e Direitos Humanos, Magliano estuda filosofia há 37 anos e é um entusiasta das ideias do pensador italiano. Foram elas que orientaram o administrador de empresas e neto de italianos a buscar a popularização do mercado de capitais e a aproximar a instituição financeira da sociedade civil. Pouco antes desta entrevista, Magliano esteve na Universidade de Turim, onde, por ocasião das homenagens a Norberto Bobbio, palestrou sobre a influência do filósofo na América Latina.

Dante Cultural – Quais ideias bobbianas fomentaram a criação do Instituto Bovespa, do qual surgiu pouco depois o Centro de Estudos Norberto Bobbio?

Magliano – Bobbio dizia que era preciso haver equilíbrio entre igualdade e liberdade. Muitas empresas cuidam do próprio negócio e esquecem a comunidade e a responsabilidade social que tem perante a sociedade. Como a Bolsa privilegia a liberdade, justamente por causa de seu caráter empreendedor, ela também deve se preocupar com a igualdade. Para isso, criamos o Instituto Bovespa, em 2007, cujos projetos voltam-se para o social e o meio ambiente, como o Centro de Estudos Norberto Bobbio, que foca na democracia e nos direitos humanos.

DC – Por que em alguns países da América Latina temos a impressão de que a democracia não é tão efetiva como deveria ser?

M – A democracia formal, mas não real, infelizmente é muito frágil. Apesar de todos os defeitos, ela é ainda o melhor regime político. As democracias estão engatinhando. Daí nossa preocupação com o Instituto Norberto Bobbio para que ele trabalhe para uma educação popular de cidadania para crianças. É o que Bobbio diz nos livros dele. Queremos “democratizar” a democracia e os direitos humanos, levando às comunidades carentes esses ensinamentos. Fizemos isso na comemoração dos 60 anos [da declaração dos] Direitos Humanos, em 2008, levando a Bolsa de Valores para [a favela de] Paraisópolis: contratamos um professor para motivar os professores de lá a desenvolverem o tema com os alunos. Foi uma experiência excepcional. Recebemos 133 desenhos que demonstravam a violação de direitos ou a falta de acesso a eles nas áreas da saúde e da educação.

DC – De que modo Bobbio ajudou a Bolsa de Valores a popularizar o mercado de capitais?

M – Era preciso desmistificar a Bolsa diante da sociedade. Queríamos transformar o mercado de capitais, elitista, em um mercado democrático. Para isso nos baseamos nos três pilares fundamentais da democracia, segundo Bobbio: transparência, visibilidade e acesso. Foi colocado um mediador na Bovespa para facilitar a solução de problemas entre a sociedade corretora e os clientes. A Bolsa é transparente porque mostra a cotação todos os dias. Mas ela não era visível. E para Bobbio, visibilidade é a menor distância entre governante e governado. Usamos o Bovmóvel, um furgão, uma espécie de bolsa de valores ambulante, para levar conhecimentos do mercado de capitais à população, em shoppings, praias e outros lugares do Brasil. Funcionou muito bem. Por último, trouxemos para a Bolsa de Valores sindicalistas e explicamos a eles como funcionava o mercado de capitais. Isso facilitou o acesso dos trabalhadores àquele universo. Por último, convidamos um sindicalista a participar do Conselho da Bolsa, tendo poderes iguais aos dos demais conselheiros. Foi a primeira bolsa de valores no mundo a fazer isso. Foi excelente. Aprendemos muito com ele, e ele conosco.

DC – Por que Bobbio continua atual?

M – Quase todos os artigos que saem no jornal citam os clássicos, porque eles pensaram profundamente os temas fundamentais do ser humano. Os clássicos nunca desaparecem. Bobbio é um homem que trabalha com isso, discutindo os assuntos com muita profundidade. Ele fala de algo que sempre desejamos, mas não temos: a paz.

Fonte: Revista DanteCultural, Ano V, No 13, Novembro/2009 por Fernanda Quinta.

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2 respostas para Raymundo Magliano Filho, um discípulo bobbiano

  1. Maria Dantas disse:

    Ótima matéria! Raymundo Magliano é um ser humano inspirador.
    Parabéns pelo trabalho com a Bolsa!!

  2. Carmen Lopes disse:

    Bom dia,Sr. Magliano (Maglianinho como chamavamos na década de 70)

    Trabalhei na Magliano lá pelos idos de 1970, no primeiro computador que a corretora adquiriu. Nesse tempo o Sr. Raimundo pai era diretor, juntamente com Sr. Odone.
    Quero recomendar uma pessoa especial, minha amiga de muitos anos, que está se candidatando a uma vaga na Bovespa, o nome dela é: Ana Lúcia Pereira,a mesma já encaminhou o curriculum para o Depto. de recursos humanos da Bovespa.

    Em nome do respeito que sempre tive pela corretora numero 1 da Bolsa de Valores de São Paulo, e do apreço pelos membros da diretoria, rogo uma atenção especial pela pessoa indicada. Não tão somente pelos motivos citados, mas por tratar-se de pessoa muito qualificada, honesta e de excelente índole.

    Fico imensamente grata pela atenção que me possa ser dispensada.

    Abraços afetuosos
    Carmen Lopes
    CIC 089.233378-20
    RG. 6.312.680
    Endereço Rua Dr. Nestor Goulart Reis, 666 – Araraquara-sp
    Fone (16) 3357-5842
    Cel: (16) 9733-6061

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