As mudanças no mundo do trabalho

‘Já saímos da sociedade salarial. Mas isso não tem nada a ver com o fim do trabalho, nem com o fim do emprego’.

Entrevista especial com Giuseppe Cocco para o IHU On-Line.

Para o professor Giuseppe Cocco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, já saímos, sim, da sociedade salarial. Mas, explica ele, “essa saída é processada e emoldurada pelas instituições e a ideologia oriundas da relação salarial. Isso não tem nada a ver com o fim do trabalho, nem com o fim do emprego”. Cocco possui graduação em Ciências Políticas pela Université de Paris VIII, graduação em Ciência Política pela Università degli Studi di Padova, mestrado em Ciências Tecnológicas e Sociedade pelo Conservatoire National des Arts et Metiers, e mestrado e doutorado em História Social pela Université de Paris I (Pantheon-Sorbonne). É também editor das revistas Global Brasil, Lugar comum e Multitudes (Paris).

IHU On-Line – O novo modo capitalista de organizar a produção deu origem ao que hoje se denomina ‘trabalho imaterial’. Como o senhor descreveria esse conceito?

Giuseppe Cocco – Para definir o conceito, podemos começar reformulando um pouco a questão. Na passagem do regime de acumulação fordista (baseado no paradigma da grande indústria) ao pós-fordismo (baseado no conhecimento), assistimos a uma profunda transformação do trabalho. Justamente, podemos definir essa transformação como deslocamento da centralidade do trabalho material para o que o próprio Marx definia como “trabalho imaterial”. Nesse novo regime de acumulação (globalizado e organizado em redes integradas de produção e circulação), o conceito de trabalho imaterial constituiu um caminho consistente diante da multiplicação das análises que apostavam na emergência de um modelo neo-industrial: o toyotismo (Piore e Sabel, Coriat, entre muitos outros). Hoje em dia ninguém coloca a trajetória japonesa como paradigma do pós-fordismo. Mas, e isso é muito mais importante, a abordagem em termos de trabalho imaterial permitiu ir além do impasse determinado pelas teorias do “adeus ao proletariado” (Gorz ), do “fim do trabalho” (J. Rifkin), do “deslocamento do trabalho para o consumo” (Canclini, mas bem antes dele A.O. Hirschman). Dizer que o trabalho se tornou imaterial significa afirmar que, no pós-fordismo, são as dimensões intersubjetivas do trabalho que determinam aquelas objetivas (da relação sujeito/objeto) típicas do processo de trabalho industrial. Isso não significa dizer que o trabalho material desapareceu, ainda menos identificar o trabalho imaterial com as meras funções “intelectuais”. Pelo contrário, trata-se de dar conta do fato que, como o próprio Marx antecipava, “o produto deixa de ser criado pelo trabalhador individual imediato para ser o resultado mais de uma combinação de atividade social que da simples atividade do produtor”. A transformação da matéria pelo trabalhador individual (inclusive quando ele continua no chão de fábrica) depende das dinâmicas imateriais: comunicativas, lingüísticas, afetivas, ou seja, as atividades da mente e da mão de um trabalhador de carne e osso!

IHU On-Line – O senhor atribui o conceito de ‘trabalho imaterial’ aos autores Maurizio Lazzarato e Antonio Negri . Qual é a contribuição específica desses autores para pensar a nova realidade do trabalho?

Giuseppe Cocco – Com efeito, foram Toni e Maurizio que, em um artigo publicado na revista francesa Futur Anterieur (em 1991), começaram a usar o conceito marxiano de “trabalho imaterial” para dar conta da nova realidade do capitalismo pós-fordista. De maneira complementar e no mesmo momento, Paolo Virno , em artigo da revista italiana Luogo Comune, atualizava um outro conceito marxiano, o de General Intellect (vide a entrevista que vocês realizaram com ele. O conceito de “trabalho imaterial” dá conta das dimensões subjetivas de um trabalho que se alimenta e alimenta uma dinâmica de conhecimento que não mais é controlada pelo capital e fixada em suas maquinarias, mas afere a rede social dos cérebros: o General Intellect. Agora, pois que estamos falando um pouco de “genealogia” do conceito, cabe frisar que essas reflexões se desenvolveram em marco bem especifico: a prisão! Negri e Virno passaram bastante tempo na mesma prisão (entre 1979 e 1983) e, com certeza, refletiram longamente sobre a derrota do ciclo de movimento aberto pelo Maio de 68. Por um lado, a derrota política tinha se traduzido na vivência e na dor da prisão. Por outro, a dor da prisão tornou-se o ponto de partida para uma reflexão inovadora sobre as razões teóricas e sociais da derrota. O quebra-cabeça da derrota se apresentava nas formas da fragmentação do movimento entre os setores tradicionais do operariado de fábrica e os sujeitos mais inovadores: os jovens oriundos das universidades massificadas que ingressavam no trabalho de forma paradoxal, sem mais integrar o estatuto do “trabalho assalariado” fordista. Emblematicamente, os primeiros contingentes do trabalho precário metropolitano eram compostos pelos segmentos mais qualificados de trabalhadores. Em um dos livros que escreveu na prisão (Il lavoro di Giobbe – a tradução está sendo publicada pela Record com o título Jó, a força do escravo), Negri formulava o enigma nesses termos: ”O trabalho mais produtivo e mais sofisticado parece assim repetir a experiência da escravidão”. A dor bíblica de Jó em sua revolta contra o absurdo da transcendência inervava o esforço negriano de transformar a dor da prisão em um novo e mais avançado patamar de reflexão sobre a crise do trabalho assalariado determinada pelo desaparecimento de qualquer unidade de medida: – da organização disciplinar do chão de fábrica. O esforço era de, por trás da dor insuportável, ou seja, de uma dominação capitalista que parecia desmedida, continuar a ver o homem livre, a livre atividade.

IHU On-Line – O senhor verifica no Brasil uma resistência à categoria ‘trabalho imaterial’. Por quê?

Giuseppe Cocco – Com certeza, há um certo numero de sociólogos que ocupam posições importantes no campo da teoria crítica que, paradoxalmente, apreendem o novo de maneira conservadora. Às vezes, se trata de leituras sociológicas que se contentam em repetir liturgicamente – quase como se fosse o dogma de uma fé inquebrantável – que o trabalho continua sendo “industrial”, aquele mesmo descrito por Marx no Livro 1 de O Capital.

Não é um fenômeno somente brasileiro. Muito pelo contrário, trata-se do reflexo (aliás, secundário) da maior característica desse deslocamento: a saída da sociedade salarial se realiza no marco institucional e conceitual da sociedade salarial. No caso brasileiro há, porém, um determinante específico: mais ou menos todo o mundo – na esquerda brasileira – tinha, como perspectiva de reforma, a “integração” social pelo “pleno emprego”, ao passo que esse devia ser alcançado por meio de políticas “estatais” de regulação do mercado (de cunho fundamentalmente keynesiano). Por incrível que possa parecer, para esses “teóricos”, a clivagem fundamental é aquela que separa emprego e desemprego e, em seguida, os direitos conquistados dentro da relação de emprego. Se deve haver emancipação, é dentro desse percurso linear. Uma linearidade, claro, matizada pelas cambalhotas do pensamento dialético e binário. Aí a armadilha se fecha, fechando o horizonte do trabalho dentro de sua inevitável relação com o capital. Assim, para boa parte da sociologia crítica, a exaltação retórica do movimento operário (da “classe dos que vivem do trabalho”) é incapaz de pensar a autonomia do trabalho e fica presa no “determinismo” do capital. A “classe” da qual eles falam é na realidade uma categoria socioeconômica, ou seja, o que Marx chamava “força de trabalho”, trabalho subordinado. Nem apreenderam os aportes da historiografia do movimento operário inglês. Quando E.P. Thompson escrevia – ainda em 1963 – que a classe operária se “constitui” e não “emerge”, ele afirmava que a classe é um evento: ela existe porque luta (e não o contrário) e isso significa que classe luta – em primeiro lugar – contra sua condição objetiva e subordinada de força de trabalho. A crise do trabalho assalariado é, pois, uma determinação das lutas e dessa afirmação teórica e metodológica que precisamos avançar.

O discurso sobre a exclusão

Um outro elemento de inadequação da sociologia crítica (o que, aliás, implicou em uma análise completamente inadequada do neoliberalismo) é o discurso sobre a exclusão. Repete-se que o neoliberalismo aumenta a exclusão e, na realidade, pensa-se à exclusão do emprego. Ora, o que acontece é exatamente o contrário. Se nós temos a sensação superficial de que a exclusão aumenta, isso é porque – na realidade – ela não existe mais. Em que sentido? No sentido em que o capitalismo contemporâneo inclui – controla – todo o mundo sem integrá-lo na relação salarial. É a vida enquanto tal que é posta para trabalhar. Quando no capitalismo industrial a exclusão (Marx a chamava de “proletarização”) era uma função da inclusão (subordinação) dentro da relação salarial, no capitalismo cognitivo inclui-se – coloca-se a trabalhar – os excluídos enquanto tais: por exemplo, colocando um telefone celular no bolso de todo o mundo. E quando o emprego mantém algum estatuto, esse é objeto sistemático de precarização. O que chamamos de “exclusão” na realidade é o controle social exercido por essa nova forma de capitalismo da mesma maneira que o que chamamos de “financeirização” é na realidade um indicador da crise do valor. Com outras palavras, tudo se torna político, a própria organização da produção é biopolítica (o contrário da “irrelevância da política” da qual fala Francisco de Oliveira ). No capitalismo industrial, o momento político da exclusão (a expropriação dos camponeses e dos artesões bem como a libertação dos servos) era função do momento “técnico” e “econômico” da transação que levava à mobilização assalariada do trabalho. Hoje em dia, no capitalismo pós-industrial (cognitivo) o momento político da exclusão (por exemplo, o copyright) é função imediata também de um controle das formas de vida postas a trabalhar que continua sendo político: poder sobre a vida, biopoder!

IHU On-Line – Marx hoje é insuficiente para “dar conta” da nova realidade do mundo do trabalho?

Giuseppe Cocco – Com certeza, é insuficiente. Seria absurdo, do ponto de vista do próprio método marxiano, dizer o contrário. Quando Marx desenvolvia sua crítica à economia política, ele tinha como referência não a situação mediana da Europa (nem falamos do mundo), mas a tendência material apontada pelo ponto mais avançado: a Inglaterra! Precisamos – para sermos marxistas, ou seja, materialistas – ir além de Marx! Em particular, precisamos apreender por onde passa o antagonismo, uma vez que a teoria da exploração (a teoria da mais valia), que Marx formulou, não funciona mais. Em outros termos, temos que responder à questão de saber como funciona a exploração quando suas regras e medidas (o tempo de trabalho e sua articulação entre necessário e excedente) se tornam desmedidas e envolvem a vida como um todo: não mais a apropriação do tempo de trabalho excedente, mas a apropriação das formas de vida, dos excedentes de ser! Não mais a ontologia do trabalho, mas a ontologia tout court.

IHU On-Line – Muitos pesquisadores da sociologia do trabalho pesquisam hoje o tema da subjetividade operária. Em sua opinião, qual o porquê do interesse nesse tema? De fato, há indícios que se possa falar de uma nova subjetividade operária?

Giuseppe Cocco – Claro que tudo que dissemos sobre o trabalho imaterial tem como base empírica as pesquisas sobre subjetivação do trabalho. Os métodos gerenciais pós-fordistas demandam uma forma de implicação paradoxal dos trabalhadores. O “patrão” precisa mobilizar até a alma do trabalhador: sua capacidade comunicativa, seus afetos, suas redes sociais. As pesquisas de Philippe Zarifian são extremamente interessantes nesse sentido, do mesmo jeito que o vasto trabalho de reconstituição da retórica do capitalismo pós-fordista realizado por Boltanski e Chiapello (Le nouvel esprit du capitalisme, 1999), em particular quando eles apontam para o fato de que o “novo espírito” do capitalismo se nutre de sua capacidade de “integrar a crítica”. Ora, essa subjetividade do trabalho é completamente paradoxal. Por um lado, ela se apresenta como instabilidade permanente das formas de vida postas a trabalhar, ou seja, com crise dos valores e crescente incerteza das expectativas: poder desmedido. Pelo outro, a práxis produtiva se confundindo com as formas de vida, o trabalho pode tornar-se produtivo sem passar pela relação salarial e afirmar-se como atividade social e livre: desmedida da resistência. É na organização e manutenção dessa clivagem que o controle (o biopoder) se organiza. Seu mecanismo fundamental é a multiplicação das regulamentações do trabalho, dos trabalhadores, das obras (vistos de trabalho contra os migrantes internacionais, leis trabalhistas corporativas, proteção da propriedade intelectual) para reduzir a multiplicidade em fragmentos que competem entre si (a sociologia apologética da pós-modernidade – F. Ewald – diria: que constituem um risco “um para o outro”!).

IHU On-Line – Como o senhor se posiciona em relação ao debate gorziano do “fim do emprego”? De fato caminhamos para a superação da sociedade salarial?

Giuseppe Cocco – Gorz é com certeza um autor interessante e inovador. Mas, precisamos tomar um certo cuidado: em Miséria do presente e riqueza do possível ele qualificava as abordagens em termos de trabalho imaterial de “delirantes”. Um ano ou dois depois, ele lançou um livro inteiro (O imaterial), cuja bibliografia é dos autores anteriormente acusados de serem delirantes (Negri , Virno, Lazzarato, Moulier Boutang , Marazzi etc.). De toda maneira, como já coloquei, já saímos da sociedade salarial. Mas essa saída é processada e emoldurada pelas instituições e a ideologia oriundas da relação salarial. Isso não tem nada a ver com o “fim do trabalho”, nem com o “fim do emprego”. Por um lado, porque o trabalho – ao invés de encolher – se expande à sociedade como um todo, investindo a vida em seu conjunto. Por outro, porque o controle da vida posta para trabalhar (o biopoder) passa, em parte, pelo “emprego” (só que esse é um emprego precário, intermitente, terceirizado, “autônomo” etc.) e quando o trabalho acontece fora da relação de emprego (por exemplo, na circulação, nas redes, no consumo), ele continua sendo regido pelas instituições da sociedade salarial (desde o seguro desemprego até as leis sobre o copyright).

IHU On-Line – Na perspectiva da crise da sociedade salarial, Gorz propõe um “mínimo vital”. O senhor fala em uma “renda universal”. Qual é a diferença?

Giuseppe Cocco – Muito além do Gorz, há uma vastíssima literatura internacional sobre o mínimo vital (basic income), que é – aliás – divulgada no Brasil pelo Senador Suplicy. O debate – e eventualmente as políticas – que essa proposta traz são relevantes e constituem um grande passo para frente: o fato de atrelar cidadania e distribuição de renda! Ao mesmo tempo, ela tem muito pouco a ver com nossa abordagem e a proposta de uma renda universal. Digamos até que ela se coloca numa perspectiva teórico-política oposta. Para os defensores do basic income trata-se de garantir a todo o mundo uma renda na medida em que na sociedade contemporânea cada vez mais gente encontrará um emprego. A proposta em termos de renda universal assume – ao contrário – a necessidade de reconhecer as dimensões produtivas da vida enquanto tal, ou seja de reconhecer o “devir mulher” do trabalho – como dizia Deleuze: a produção da vida é o paradigma da produção em geral. É porque o trabalho não pára de se difundir socialmente que precisamos encontrar uma outra modalidade de remunerá-lo. A diferença de perspectiva é fundamental. Não se trata de “compensar” o encolhimento do emprego, mas de remunerar a “vida activa” para, ao mesmo tempo, radicalizar o encolhimento do “emprego” e constituir a cidadania como base da mobilização produtiva, uma cidadania que diz respeito à noção de um comum a partir do qual as singularidades podem cooperar entre elas se mantendo tais. Para finalizar, as críticas ao Bolsa Família enquanto política assistencialista são absurdas, organizadas com base no paradigma do passado: por isso elas misturam paradoxalmente os diferentes campos político, juntando conservadores e esquerdistas, a Fiesp e o MST.

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