L’Italia di Norberto Bobbio: Seminário sobre Cinema Italiano

L’Italia di Norberto Bobbio

Para fazer o download do convite para o Seminário sobre Cinema Italiano “L’Italia di Norberto Bobbio”, clique aqui.                                                  

“A tarefa dos homens de cultura é mais do que nunca  hoje aquela de semear dúvidas, não a de reunir  certezas” ( Norberto Bobbio, Politica e Cultura, 1955).

Este foi o ideal de intelectual que Bobbio perseguiu na sua vida e que testemunhou com a sua atividade de atento observador partícipe da vida política e cultural italiana. Política e Cultura, dois aspectos que na experiência de Bobbio representam elementos fundantes do compromisso do intelectual, do político e do cidadão que quer ser participante da construção da sociedade em que vive.

Envolvido, como todos os italianos da década de vinte, na experiência fascista, Bobbio amadurece uma importantissima reflexão sobre a necessidade da construção democrática, sobre a procura da democracia como aspecto fundamental do estado contemporâneo. O seu antifascismo nasce de viver a experiência do fascismo, do compreender, também no nível existencial, como aqueles anos foram pesados para a Itália, e quais os tremendos estragos a ditadura comportou para a sociedade italiana e européia. Mas também como o fascismo encontrou no intimo de cada um uma adesão constante e cotidiana a um modelo cultural profundamente antidemocrático e liberticida.

Bobbio viveu a adesão ao fascismo (um fascismo patriótico) no âmbito familiar, e conheceu e aprendeu a apreciar os valores do antifascismo nos anos da escola, através de frequentações intensas com fortes personalidades antifascistas : teve como professores notórios antifascistas Umberto Cosmo e Zino Zini; encontrou e frequentou Vittorio Foa, Leone Ginzburg, Cesare Pavese.

“ Eu que vivi a juventude fascista entre os antifascistas, me envergonhava antes de tudo diante de mim mesmo do depois, e diante de quem ficara preso por oito anos, me envergonhava diante daqueles que diferentemente de mim não conseguiram  sair impune dessa situaçao”.

 Inscrito em 1928 (como muitíssimos jovens italianos) no PNF (Partido Nacional Fascista) e chegando em 1942, através de seu amadurecimento ideológico político, ao movimento liberal socialista de Guido Calogero e Aldo Capitini, e ao clandestino Partido da Ação, Bobbio colaborou, depois da liberação, no jornal Justiça e Liberdade.

 Crescido no clima cultural e político da Torino da década de vinte, do antifascismo e da resistência, mas também do pós-guerra e do boom, Bobbio permaneceu sempre profundamente vinculado a esta cidade particular e fascinante, fechada e esquiva, mas densa de cultura e de história, daquela ressurgimental  àquela das duas guerras, daquela dos anos da constituinte, àquela da migração do pós-guerra. Nos anos ’70, na época do protesto estudantil, o Norberto Bobbio docente não foge do diálogo com os estudantes torineses.

Os grandes momentos da história italiana do pós-guerra encontraram em Bobbio um atento observador, um intelectual dedicado à reflexão crítica, participante dos temas e dos debates contemporâneos. Como em 1971, quando Bobbio esteve entre os subscritores da carta aberta ao semanal L’Espresso sobre o caso Pinelli, também conhecida como manifesto contra o comissario Calabresi. O delegado Calabresi foi acusado de ser responsável pela morte do anarquista Pinelli ocorrida durante um interrogatório na delegacia de polícia. Sobre este episódio obscuro da vida pública italiana realizaram um famoso longa metragem Elio Petri e Nelo Risi, com o título Documentos sobre Giuseppe Pinelli, com Gian Maria Volonté, distribuido pelo PCI e pelo Movimento Estudantil. Nos anos setenta, durante a vigília do sequestro Moro, Bobbio desenvolve uma importante reflexão sobre cultura fascista, e suas relações entre democracia e socialismo.

 Em um artigo surgido no Corriere della Sera, em 16 de maio de 1984, Bobbio criticou abertamente a “democracia do aplauso” e a deriva plebiscitária do PSI de Bettino Craxi, denunciando o risco para a democracia que representava este novo “culto do chefe carismático” que introduzia a prática proprietária do “ patrão” no âmbito de um partido do arco constitucional italiano. Não foi por acaso que Bobbio, junto com o melhor da tradição socialista (Lombardi, Giolitti, Codignola, Enriquez, apenas para citar alguns nomes) abandonaram o PSI de Craxi. E não foi por acaso que não apenas Bobbio mas todo um grupo que provinha do Partido da Ação, Galante Garrone, Vittorio Foa, Giorgio Agosti, Giulio Einaudi, fizeram seus  justamente os temas da “questão moral”, que se tornariam  centrais na estação dos “ maõs limpas” e da queda do sistema craxiano.  

   “A eleição por aclamação não é democrática, é a mais radical antítese da eleição democrática. É a forma, que após Max Weber, não deveria ter mais segredos, com a qual os sequazes legitimam o chefe carismático; um chefe que justamente por ser eleito por aclamação não é responsável diante dos seus eleitores. A aclamação, em outras palavras, não é uma eleição, é uma investidura. O chefe que recebe uma investidura, no momento mesmo que a recebe, está desvinculado de todo mandato e responde apenas diante de si próprio e à sua emissão”.

O cinema italiano que com os seus gêneros (do neorealismo à comédia à italiana), os seus protagonistas (como Mastroianni, Gassman, Volonté etc.), os seus diretores (Fellini, Pasolini, Petri, Moretti…) deu uma leitura/interpretação da Italia de Bobbio e dos períodos históricos com os quais este grande intelectual se defrontou.

Rever a história da Italia dos fascismo até hoje, refletindo sobre temas que foram caros a Bobbio, sobre questões que atravessaram o debate público que o fez protagonista, sobre fibrilações sociais e políticas que caracterizaram os anos da Itália de Bobbio.

Este é o objetivo deste seminário. Utilizando para esta finalidade, o ponto de vista de outros intelectual críticos que foram contemporâneos de Bobbio, e que caracterizam a historia do cinema italiano. Muitos deles foram, com Bobbio, subscritores do famoso manifesto publicado no Expresso em 1971. Um documento que manifestava uma vivacidade cultural e um sentido do intelectual como olhar vigilante e crítico sobre o poder e seus abusos, que hoje faz muita falta.

Primeiro ciclo: A Itália entre a guerra e o pós-guerra, do Neorealismo ao cinema de autor

Quatro filmes para reviver os anos do fascismo e do pós-guerra na interpretação de Roberto Rosselini, Dino Risi, Vittorio De Sica, Ettore Scola.

1)       Roberto Rossellini.

Personalidade difícil de interpretar, grande diretor suspenso entre o humanismo,a didática pós-guerra e o enciclopedismo documentarista, Rossellini sofreu na Itália uma curiosa parábola pessoal e intelectual. Foi inicialmente visto com desconfiança devido ao seu passado vinculado à militância fascista também do ponto de vista profissional com a famosa trilogia da guerra fascista: La nave bianca de 1941, Pilota ritorna de 1942 e L’uomo della croce de 1943. Aclamado nos Estados Unidos onde, através dos filmes de Rosselini, a mesma Itália pós-fascista readquiriu crédito artístico-intelectual, o diretor foi então reconhecido e apreciado também na sua pátria. O seu percurso político pessoal lembra em certos aspectos aquele de Bobbio, mas sobretudo aquele de milhões de Italianos que, de fascistas mais ou menos convictos durante o regime, se tornaram  antifascistas após a liberação. É o problema da adesão ao regime e de quanto e como foi espontânea ou imposta  entre o povo italiano, nos seus mais diversos setores.

Rosselini mestre do cinema italiano lutou, se poderia dizer, contra a sintaxe do cinema porque rejeitou nela o aspecto espetacular, o formalismo, a expressão artística que não fossem destinados ao esclarecimento da verdade das coisas. A primeira rebelião acontece com a obra que lhe vale o título de pai do neorealismo: Roma città aperta de 1945. O filme em que, Rossellini,acerta em parte as contas com o seu passado.  “Roma città aperta é o filme do “medo”: do medo de todos, mas sobretudo do meu. Também eu precisei me esconder, também eu fugi, também eu tive amigos que foram capturados e mortos. Medo verdadeiro: com trinta e quatro quilos a menos, talvez por fome, talvez por terror que em Cidade aberta descrevi.”  (Roberto Rossellini)

Roma cidade aberta ( 1945) de Roberto Rossellini, com Anna Magnani, Aldo Fabrizi, Maria Michi, Marcello Pagliero.

Obra prima e manifesto do Neorealismo Roma cidade aberta contém em si uma força programática e didática que sintetiza o cinema de Rossellini, e desenha, sobre o fundo de uma Itália destruída pelos bombardeios, os problemas do imediato pós-guerra.

Em Roma o regime fascista caiu, os Aliados invadiram a Itália mas ainda não chegaram à capital, onde a resistência é mais ativa que nunca. Manfredi, militante comunista e homem de ponta da resistência, foge a uma batida da polícia e se refugia junto a um tipógrafo antifascista, Francesco. No dia seguinte, Francesco deveria casar-se com Pina, uma viúva mãe de um menino. Os nazistas irrompem na cidade, a Resistência combate, a Liberação está próxima. Sobre tudo prevalecem a destruição, a fome, o medo. É o absurdo da guerra e da loucura ditatorial. Realizado durante os primeiros meses de 1945, o filme retrata as mazelas físicas e morais da Itália pós-bélica, sem que sejam necessárias reconstruções ou estúdio para tomadas. Os rostos das pessoas devem falar por si próprios. As ruínas dos edifícios descrever, sem mostrá-las , os estragos da guerra, a destruição dos bombardeios. As ruas invadidas pela poeira e pela desordem dos primeiros meses após a cessação da guerra prenunciam as dificuldades da reconstrução. O olho da câmara acompanha “aparentemente” as vicissitudes dos personagens. É o Neorealismo.

Prêmios

Gran premio, conjunto (ex aequo), no Festival de Cannes 1946.

Nastro d’argento (1946) melhor diretor em conjunto (ex aequo), melhor cenário e melhor interpretação feminina de tipo para Anna Magnani.

New York Film Critics 1946:melhor filme estrangeiro

National Board of Review Awards 1946: melhor atriz (Anna Magnani)

Texto de autoria de Maurizio Russo. Tradução: Luci Buff (Instituto Norberto Bobbio)

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