Mitos e seus significados: a mitologia grega

Por Ludmila Franca (Instituto Norberto Bobbio)

A mitologia grega corresponde a um conjunto de mitos, lendas e contos referidos a entidades divinas ou fantásticas, conhecidos como deuses, semideuses e heróis. Esses mitos compõem a religião praticada na Grécia Antiga e eram transmitidos oralmente com vistas a entender uma série de fenômenos, cujas explicações não eram evidentes.

Segundo Marilena Chauí, a palavra mito vem do grego mythos, derivando de dois verbos, a saber: mytheyo (contar, narrar) e mytheo (conversar, contar, anunciar, nomear, designar). Explica Chauí que, na Grécia Antiga, a narrativa mitológica era feita pelos poetas, entendidos como pessoas capazes de receber inspirações de natureza sobrenatural que os habilitavam a narrar tais fatos.

Os mitos gregos narram sobre a origem do mundo e de todas as coisas através de três formas:

 a)      estabelecendo o “pai” e a “mãe” das coisas, pois tudo o que existe decorre de relações sexuais entre forças divinas pessoais;

b)      explicando uma rivalidade ou uma aliança entre os deuses que faz surgir alguma coisa no mundo dos homens; e

c)      determinando as recompensas ou castigos que os deuses impingem a quem os desobedece ou a quem os obedece.

As narrativas mitológicas, portanto, referem-se à teogonia (origem dos deuses a partir de seus pais e antepassados) e à cosmogonia (nascimento e organização do mundo em função de forças geradoras divinas).

Os gregos antigos humanizavam seus deuses, criando uma mitologia inteira, que consubstanciou uma religião pautada na imperfeição, na essência humana como sendo um aspecto pungente também nos deuses, no divino: a mitologia e religião dos gregos colocavam-se no papel de interpretar o mundo a partir de uma tentativa de estabelecer o lugar do homem na Terra, daí a humanidade de seus deuses e daí também a imperfeição não como erro ou exclusividade do humano: a imperfeição e a perfeição não entram em jogo; o que entra em jogo é o sentido, contado através dos mitos, em que se busca o lugar do homem no mundo.

Como ensina Joseph Campbell, “O umbilical, a humanidade, aquilo que se faz humano e não sobrenatural e imortal – isso é adorável. É por essa razão que algumas pessoas têm dificuldade em amar a Deus; nele não há imperfeição alguma. Você pode sentir reverência, mas isso não é amor. É o Cristo na cruz que desperta nosso amor”.

A Mitologia Grega é composta de deuses com aparência quase humana, suscetíveis às paixões, mas imunes aos efeitos do tempo (imortais) e às intempéries do corpo (doenças e feridas). Os deuses gregos podiam comunicar-se com os homens e se envolviam com os mortais.

Os deuses eram divididos em duas categorias: os deuses olímpicos (que viviam no Olimpo, que eram os deuses que protegiam as leis da pólis) e os deuses ctonianos (os deuses de baixo, referidos à lei da terra e do Hades, o mundo dos mortos).

 Genealogia do mundo – Genealogia da Humanidade

A genealogia do mundo e da humanidade é explicada através dos mitos. Conforme o mito, o início era o vazio onde reinava o Caos. O Caos teve dois filhos: o primeiro, Érebus (a escuridão profunda próxima das trevas). Nix, segunda filha do Caos, era a noite, responsável por gerar os seres divinos (alguns ela gerava sozinha e eram personificações de conceitos e abstrações, como Hypnos (Sono), Thanatos (Morte), Moiras (Destino), Oniro (Sonhos), Limos (Fome) e etc.). Surge então Eros, o amor original, estabelecendo um princípio de ordenamento ao mundo. Com o nascimento de Gaia (a terra), Érebus (a escuridão; princípio vital masculino) copula com sua irmã Nix (a noite) e eles originam Éter, o ar e a luz celestial, e Hemera, o dia e a luz terrena. Gaia, por si mesma, gera Urano, o céu, e o desposa, passando este a recobri-la por inteiro. Dessa união entre Urano e Gaia surgem os Titãs, Ciclopes e Hecatonquiros. Além de Gaia, Urano, Nix, Érebus e Eros, temos também Tartarus, a personificação das trevas profundas, ou inferno.

Os Titãs eram doze filhos dos primitivos senhores do universo, Gaia e Urano. Como Urano não gostava dos Ciclopes e dos Hecatonquiros, os prendeu no Tartarus, para descontentamento de Gaia, que terminou por instigar os Titãs contra Urano. Cronos, o mais jovem deles, liderou a luta, subjugando o pai castrando-o, assumindo assim a condição de rei. Casou-se com sua irmã Réia, que será então a mãe dos deuses do Olimpo, mantendo, contudo, os Ciclopes e Hecatonquiros no Tartarus.

Cronos foi advertido de que teria a mesma sorte de seu pai, razão pela qual passou a devorar seus filhos quando estes nasciam, para que nenhum pudesse destroná-lo no futuro. Todavia, Réia, ao dar à luz seu sexto filho, Zeus, entregou no lugar do recém-nascido uma pedra para que Cronos devorasse, mantendo sua cria a salvo numa caverna na ilha de Creta. Adulto, Zeus cumpre a profecia e destrona Cronos, assumindo o controle do universo.

 Mitos e seus significados

 Os mitos são uma tentativa de entender a realidade a partir de explicações referidas a entidades sobrenaturais, como deuses, semideuses e heróis. A partir dos mitos nascem os ritos, que são formas de expressão através de cultos e cerimônias em que os mitos são postos em ação. Acontecimentos históricos, memórias políticas e outros fatos também podem se tornar mitos desde quando assumam uma determinada carga simbólica para determinando grupo social. Através dos mitos, a humanidade atribui valores ao mundo, interpretando-o. Não tem a preocupação precípua de explicar a realidade segundo perspectivas racionais, mas tão somente oferecer uma acomodação do homem ao mundo, a partir do estabelecimento de um sentido para sua existência em face da mundanidade.

Esses mitos da Grécia Antiga possuem essa função. Por intermédio deles, os gregos conferiram sentido ao mundo em que viviam, tal qual fizeram outros povos em seus códigos de crença e religiões: por exemplo, Adão e Eva é o mito abraâmico da gênese da humanidade; a origem dos homens como descendentes de Brahma é um mito no Hinduísmo, e assim sucessivamente. Quando Zeus subjuga Cronos (o tempo), controlando-o, nasce a noção de humanidade, de uma regência do universo não pela natureza (o império de Urano), nem pelo tempo (o reinado absoluto de Cronos), mas sim pela regência do pai dos deuses e dos homens, Zeus. Ou seja, a vitória de Zeus é a vitória do domínio do pai dos homens em face das forças inexoráveis da natureza e do tempo, que agora passam a ser regidas segundo suas leis.

O mito, como dissemos, não é, portanto, uma forma de explicar o mundo e suas relações de causalidade, mas sim de atribuir um sentido ao que nos é externo, determinando nosso lugar na Terra.

A explicação mitológica subsiste ainda hoje, mas, a partir do nascimento da Filosofia por volta do século VI – VII a.C., busca-se uma forma de conhecimento racional acerca das coisas do mundo. Entretanto, mesmo diante do surgimento da Filosofia e da Ciência, como já foi mencionado, os mitos não se referem somente a narrativas fabulosas, mas também a fatos históricos que ganham determinada carga simbólica e se agregam à memória coletiva não como um fato em si, mas como um sentido, um valor, uma interpretação de mundo que orienta os sujeitos na avaliação das situações passadas e presentes (é o que chamamos de “atualização da memória”, quando referimos a um sentido do passado para entendermos e valorarmos uma situação vigente).

É certo, portanto, que os mitos gregos buscaram oferecer uma explicação, mesmo que fantástica, às nossas origens e às origens do mundo. Mas, e isso é o mais importante, ao fazê-lo, a mitologia estabeleceu o lugar do homem no mundo a partir da fixação de valores e interpretações da mundanidade consubstanciados e transmitidos nessas histórias. Não podemos desprezar nem menosprezar a carga axiológica dos mitos e seu poder de consagrar os sentidos que o homem atribui ao mundo e a si mesmo. Os mitos são uma forma de transmitir, através de gerações, valores, sentidos, interpretações, a compreensão de nossa existência e daquilo que nos cerca. Seu compromisso, portanto, não é com a verdade subjacente às relações de causa e efeito, apreendidas racionalmente (ao menos assim pensamos: tudo pode ser apreendido racionalmente; a ciência nos oferece todas as repostas em caráter inexorável e absoluto. Será?). O compromisso do mito é com a consagração de um lugar para o homem no mundo que ele constrói em vista dos sentidos e das interpretações feitos por este.

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4 respostas para Mitos e seus significados: a mitologia grega

  1. emmely disse:

    é muito importante a historia dos deuses?

  2. O post é muito interessante e está à altura das necessidades. De 1 à 10, dou nota máxima!

  3. charlene disse:

    e muito legal eles terem botado sobre mitos e seus significados e bem estranho mas tbm aprendemos coisas q n existe

  4. michele disse:

    nossa gstei da respostav

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