Latino-americanos emprestam ‘know-how’ em protestos ao moderado ‘Occupy Wall Street’

Por Federico Mastrogiovanni | Nova York

Manifestantes tiveram que apelar à criatividade para driblar rigor da polícia novaiorquina

Chegando a pé a Wall Street a partir da ponte do Brooklyn, é preciso caminhar umas poucas quadras cruzando um fluxo constante de pessoas. Os edifícios parecem monstros gigantes que desafiam o céu com seus olhos de cristal e no ar se percebe um barulho contínuo, um zumbido incessante, persistente. É o zumbido produzido pelas obras que funcionam 24 horas por dia na região de Manhattan onde está sendo contruindo o novo World Trade Center.

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Próximo a Zuccoti Park, a praça que nas últimas semanas se converteu no cenário de um dos movimentos sociais mais midiatizados dos últimos anos, o Occupy Wall Street, o zumbido dos martelos mecânicos pouco a pouco é substituído por um outro som que se repete e é constante, o dos tambores que alguns dos ocupantes tocam sem parar. A primeira sensação é alienante: barreiras de metal formam um cerco ao redor do pequeno espaço entre os edifícios. O NYPD (Departamento de Polícia de Nova York, na sigla em inglês) está presente com dezenas de agentes que vigiam os manifestantes e facilitam o trânsito. Entende-se desde o princípio que as forças policiais, em uma espécie de pacto silencioso com os que participam do protesto, concedem pequenos espaços dentro de limites muito bem definidos.

Uma transgressão ainda que mínima pode custar a detenção. E foi o que aconteceu na Ponte do Brooklyn há algumas semanas, a primeira de outubro, quando mais de 700 pessoas foram detidas por centenas de agentes da polícia de Nova York, por terem “invadido” a rua e saído das calçadas.

A ordem é uma prioridade absoluta na ocupação de Wall Street. As barreiras dividem o espaço ocupado do restante das vias de circulação. Os que passam por ali não podem parar e observar de fora o que se passa do outro lado da barreira, pois a polícia intervém imediatamente fazendo circular os transeuntes.

Os curiosos de ver o que acontece devem entrar no espaço delimitado pelas barreiras. Não se pode pendurar cobertores e nem nenhum tipo de material nas árvores, não se pode deixar lixo na rua, e isto fez com que se formassem pequenas equipes de limpeza que, com suas escovas, passam varrendo a sujeira, os cigarros, pratos e copos descartáveis. Além disso, está proibido utilizar megafones e microfones, com o objetivo de amplificar as vozes dos ocupantes. Decidiram então optar por formas mais criativas como a que desde o princípio se conhece como a “ola” ou “microfone humano”. Quem fala se coloca ao centro de um pequeno círculo de pessoas, e dizem qualquer coisa, sua opinião, um pensamento ou simplesmente um detalhe organizativo. Todos os que estão ao seu redor, gritando, repetem a mesma frase, que chega até as partes mais distantes da praça da praça em ondas concêntricas. Desta forma as regras não são quebradas, são contornadas.

“Tivemos que substituir a confrontação direta pela criatividade – diz Martín Cobian, ativista de Porto Rico e residente há três anos em Nova York, um dos 700 detidos – não podemos enfrentar a polícia cara-a-cara, porque senão nós seríamos expulsos em poucos minutos. Nosso objetivo é continuar aqui e seguir sendo visíveis. Então temos que inventar outras formas de resistir, sem cair em suas provocações”.

Cobian conta que durante a manifestação de 1º de outubro, enquanto os policiais os agarravam com cassetetes e os prendiam, um jovem estrangeiro loiro e sorridente começou a gritar aos policiais: ‘cada vez que nos agarram com pancadas na cabeça, o povo americano e a população mundial repudiam o que estão fazendo. Vocês, policiais, estão em nosso circuito midiático publicitário. Muito obrigado por participar!’. “Isto mostra que o movimento Occupy Wall Street não é como todos os movimentos que se viram até agora e a experiência que estamos desenvolvendo cresce junto com os limites que se impõem, e frente à criatividade não há barreiras”, argumenta o jovem portorriquenho.

Federico Mastrogiovanni
Protestos ganharam a adesão de varios estratos sociais nos EUA; imigrantes latino-americanos

Membro da associação de latino-americanos da Universidade de Nova York, Cobian, juntamente com dezenas de outros jovens, está agregando ao movimento Occupy Wall Street a tradição de reivindicações, que em países da América Latina são muito mais comuns.

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“O que as comunidades latino-americanas estão fazendo aqui – continua Martin – é trazer as nossas tradições de luta e de movimento, com a intenção de fortalecer os fundamentos desta iniciativa. Mas não vamos ensinar as pessoas a ocupar como o MST no Brasil”, brinca. Segundo o estudante, outra diferença é que as expectativas que vêm da América Latina são muito mais claras, definidas, estruturadas e sedimentadas ao longo das décadas. “Sabemos exatamente o que queremos e o que sabemos há muito tempo. O ponto é conseguir contaminar esse movimento, que tem um potencial enorme de mídia, para chamar as pessoas, com as demandas e as tradições de luta da América Latina para tentar opor-se os fortes poderes. É um desafio muito estimulante”.

Por esta razão, depois de um primeiro momento em que se fez a tradução ao espanhol do jornal que se difunde livremente em Zuccotty Park, The occupied Wall Street Journal, financiado com dinheiro do Kickstarter, os participantes latinos nas assembléias de Occupy Wall Street decidiram dar uma contribuição diferente, não se limitando à tradução, mas articulando o pensamento latino-americano em uma versão em língua espanhola, que é paralela à publicada em inglês.

“Pensamos que é necessário que nossos pontos de vista, como latinos, tenham um espaço e uma dignidade própria”, diz Paulo, porto-riquenho que está preparando a versão espanhola do Occupied Wall Street Journal. “Temos uma grande oportunidade aqui, no coração do império, de dar voz a questões que são centrais na agenda política do nosso continente, e, portanto, vamos usar este espaço tão importante”.

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E com o passar do tempo, esse movimento parece cada vez mais um símbolo para os espectadores/ocupantes do resto do mundo do que uma ameaça real para o establishment financiero de Wall Street.

Descoberta

Se por um lado, as demandas que são levadas adiante são questões que têm feito parte da agenda de todos os movimentos sociais das últimas décadas no sul do mundo e na Europa —como por exemplo a crítica da especulação financeira por parte das corporações , a injustiça e a insustentabilidade de um mercado de trabalho cada vez mais precário, a privatização dos serviços de saúde e educação, a dívida ambiental, a necessidade de repensar a exploração de recursos não renováveis como o petróleo, a política de guerra dos Estados Unidos, entre outros— o movimento Occupy Wall Street, em sua heterogeneidade parece descobrir estes temas como se fosse a primeira vez que os colocam sobre a mesa. A contingência da crise econômica e de emprego nos Estados Unidos, junto com o não cumprimento das promessas eleitorais e do programa do presidente Barack Obama, tornaram-se um poderoso catalisador para muitos setores da classe média americana, consentindo numa reflexão mais profunda sobre o insustentabilidade do sistema.

Os ocupantes sabem que estão cercados, e apesar dos flash mobs, das pequenas manifestações relâmpago que confundem a polícia que controla a praça 24 horas, apesar da indignação que toma fôlego nos discursos de diferentes personagens famosos, em nenhum momento esse movimento parece ser uma ameaça direta ao sistema que visa criticar. Mas poderia considerar-se uma referência simbólica para aqueles que estão fora, uma mensagem a todos os demais indignados no estilo da campanha de Barack Obama, um “sim, nós podemos” alternativo.

“Aos muitos jornalistas e meios de comunicação que vieram aqui acusando e exigindo de nós um objetivo comum, uma agenda clara, nós respondemos que este não é um protesto, é um processo – esclarece Maria, ativista argentina que trabalha na Universidade Estadual de Nova York -, o que o mundo considera uma fraqueza, uma falta de projeto, a extrema diferença entre os que participam do movimento, nós consideramos a nossa força, a horizontalidade, a diversidade, a variedade, o movimento que dá fôlego para os processos que ocorrem no mundo”.

Federico Mastrogiovanni
Máscara de Guy Fawkes, ou ‘V de Vingança’, é vista com frequência no OWS

Enquanto no mundo todo os movimentos de Occupy estão tomando visibilidade, especialmente após a manifestação global de 15 de outubro, em Nova York o foco continua sendo o pequeno espaço a poucos passos do World Trade Center, enfrentando o zumbido das obras com a alegria dos tambores.

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Todas as tardes, chega um homem de baixa estatura, com uma bandeira mexicana e o olhar irônico. Israel Galindo é um enfermeiro profissional, que está há 20 anos em Nova York e é muito ativo em sua comunidade e nas lutas pelos direitos dos imigrantes. Vendo a ocupação, ele pensa que é uma grande oportunidade para destacar os problemas globais que no México são conhecidos e vividos há muitos anos, e quando perguntado sobre o que diria para convencer a respeito da bondade desta causa, Galindo diz: “Se você acredita em Deus e na justiça, é fácil saber como é impossível que Cristo esteja nos palácios das finanças de Wall Street. Se você olhar atentamente, Cristo está na praça protestando contra este sistema tão injusto.”

No final do dia, é difícil identificar Cristo, mas a praça está cheia de pessoas que têm o desejo e a necessidade de falar, de discutir, confrontar e refletir em conjunto. E talvez este seja o mais revolucionário desse movimento, a capacidade de voltar a analisar coletivamente.

Fonte: Opera Mundi

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