Quando o diabo bate à porta (1)

Quando em 1933, através de mil intrigas e manipulações políticas, Franz Von Papen (2), velho político do Partido do Centro Católico, aliado a industriais e banqueiros alemães, convenceu o velho Marechal Von Hindenburg, presidente da Alemanha e empedernido militarista e oligarca, a nomear Adolf Hitler chefe do governo alemão encerrava-se um ciclo na história alemã. Era o Kampfszeit, os tempos de luta dos nazistas pelo poder. Desde 1920, o DNSAP (partido nazista alemão) promovera atentados, tentativas de golpe de Estado, arruaças de rua e homicídios políticos.

Contudo, a elite política alemã – homens “respeitáveis” como Von Papen e Hjalmar Schacht (3), o chamado “mago das finanças” – acreditavam que poderiam controlar o nazismo visando atingir seus próprios objetivos: a derrubada da democracia e a instauração de um regime reacionário estável e duradouro.

Os nazistas, por mais desagradáveis que fossem, seriam apenas uma ferramenta para atingir seus fins. O resultado foi a maior catástrofe da história alemã e a maior tragédia bélica da história da humanidade.

A direita tradicional  em face dos fascismos

Ao longo da história dos fascismos históricos (isso mesmo, fascismos, no plural: conjunto de movimentos antidemocráticos, ultranacionalistas e racistas surgidos desde os anos de 1920, incluindo aí o nazismo, o franquismo, o salazarismo e, claro, o fascismo italiano. Este, por ser o primeiro a fazer sua estreia no cenário europeu, acabará por denominar o conjunto dos movimentos de extrema-direita) podemos reconhecer um padrão de relacionamento entre os partidos de direita (4) tradicionais e constitucionais e as organizações fascistas.

Os grandes partidos da direita constitucional hoje – como no exemplo clássico dos católicos, dos conservadores e dos liberais em 1933 – assumem uma postura comum: negação de identificação direta e unilateral com os movimentos fascistas.

Contudo, mantém uma relação ambígua e “compreensiva” da agenda extremista de cunho fascista. Assumem vários dos temas da agenda fascista – xenofobia, anti-multiculturalismo, anti-Estado Social, luta contra os impostos que incidem sobre ricos e empresas, identificação entre criminalidade e estrangeiros e entre desemprego e imigrantes. Da mesma forma, apoiam uma crítica violenta, cheia de ódio, aos quadros intelectuais e políticos da esquerda, apontados como traidores da civilização e da raça branca. Por fim, permitem nos seus quadros de base e associações um amplo “intercâmbio” de pessoal com a (sub)cultura política fascista, em especial no ciberespaço e nas suas associações juvenis.

Embora partidos estabelecidos, constitucionais, como os Republicanos, nos EUA; o Likud, em Israel; a CSU/CDU, na Alemanha; o Partido Progressista, na Noruega; a Liga Norte na Itália entre outros, mantenham-se na esfera constitucional, aproveitam-se da pregação de ódio das entidades fascistas para enfraquecer e encurralar os partidos trabalhistas e socialistas. Estes ficaram caracterizados como fracos e antinacionais, no limite traidores, como no caso do assassinato de Yitzhak Rabin em 1995 por um extremista de direita (no bojo de uma violenta campanha do direitista Likud contra o ex-premiê israelense).

Da mesma forma, a violenta campanha do Tea Party nos EUA, endossada pelo Partido Republicano, não é estranha a matança de janeiro de 2011 de seis pessoas numa reunião em Tucson do Partido Democrata local. Notem bem: embora a imprensa internacional queira sempre caracterizar tais ataques como produto da “loucura” de um desequilibrado isolado, os ataques são sempre dirigidos a um alvo político que se opõe à direita local: contra o líder trabalhista em Israel, contra os democratas em Tucson ou os trabalhistas na Noruega. Até a loucura possui um sentido.

Os fascistas em face da direita tradicional

As entidades fascistas, por sua vez, aproveitam-se do oportunismo dos grandes partidos da direita constitucional, para ampliar seu “auditório” e para por em debate suas ideias generalistas e equivocadas sobre, por exemplo, desemprego versus imigração ou criminalidade versus estrangeiros.

A crise econômica, desde 2008, teve um papel relevante no acirramento das tensões internas e no debate sobre a distribuição social do ônus das medidas de “salvação”. A maioria dos países avançados – EUA, Reino Unido, Espanha, Itália – e os chamados “novos” países capitalistas do leste europeu optaram, após uma paralisia inicial, em “investir” grandes somas de dinheiro público em bancos, seguradoras e montadoras de automóveis para debelar a crise. Assumiam, assim, a responsabilidade do passivo gerado pela má gestão dos negócios, pela especulação e pelas consequências da “bolha imobiliária” (o chamado “subprime”).

Seguiu-se, então, um abandono seletivo do fundamentalismo liberal: intervenções salvadoras em empresas irresponsáveis e o abandono de inúmeros programas sociais (como educação e saúde na Inglaterra ) e corte nas políticas de crescimento e de emprego (como na Espanha, Portugal e Grécia).

Para a grande parte da população, na maioria das vezes sem quaisquer iniciação ou militância política, os estados surgiam como arrecadadores vorazes, injustos e perdulários dos impostos públicos. Haveria uma maior sensibilidade para salvar as grandes empresas e os empregos milionários de gerentes irresponsáveis do que com a garantia do emprego dos trabalhadores contribuintes.

Assim, não é de estranhar que uma parcela importante das populações nos países avançados – em especial pequenos empresários, fazendeiros, lojistas e funcionários das empresas privadas (todos eles contribuintes diretos e indiretos) se rebelassem contra o Estado “devorador e insensível”. Estes mesmos segmentos sociais voltam sua frustração diretamente contra estrangeiros, muitos deles concorrentes no pequeno comércio ou em empregos menos remunerados, abrindo caminho para a xenofobia e o ódio racial, estopim do processo de fascistização.

Campanhas anti-impostos e pelo Estado mínimo – cortando programas das classes trabalhadoras, vistas como privilegiadas nas suas relações com o Estado e ações afirmativas voltadas para minorias – são abraçadas com fervor, em especial pelo Tea Party, a Liga Norte, Fronte Nacional, na França, e o Partido Progressista, na Noruega.

A luta contra o Estado Social

Os partidos da direita constitucional, no mais das vezes profundamente imbricados com o mundo dos negócios, acabam por ver na crise uma oportunidade para desinvestimentos, cortes de programas sociais e de ajuda humanitária, configurando forte convergência com as associações fascistas. Tais medidas, para além de serem um programa de aprofundamento da recessão – como na Grécia, Espanha e Portugal – implicam em legitimar a plataforma fascista, gerando ainda mais desemprego e mal-estar social.

Os partidos da esquerda constitucional, por sua vez, emparedados entre a crise e as acusações de fraqueza perante a “invasão de estrangeiros” e de ações de antinacionais, vacilam e abrem mão de plataformas progressistas e reformistas, aceitando vergonhosamente (como em Portugal, Grécia, França) a distribuição socialmente injusta do ônus da crise econômica gerada pelo fundamentalismo neoliberal.

As preocupações com a inflação e o equilíbrio fiscal sobrepõem-se às políticas de emprego e de crescimento econômico.

Neste contexto, os partidos de esquerda ficam incapazes de apresentar alternativas nas áreas sociais, mantendo-se exclusivamente no âmbito do debate sobre quem seria o melhor gerente da crise. Da mesma forma, a esquerda falhou miseravelmente em assumir um papel de condutor, esclarecedor, das razões da crise e dos interesses da sociedade.

No momento em que o neoliberalismo entrava em crise, a esquerda assumiu a sua gerência. A população revoltada, os “indignados”, em Atenas, Madri ou Lisboa, em especial os jovens, não enxergam alternativas viáveis nos grandes partidos socialistas. Numa linguagem gramsciniana, a esquerda estabelecida renunciou ao seu papel de “Príncipe moderno”.

Foi desta forma, que os pequenos grupos fascistas – imbuídos de raiva, frustração e inveja – emergiram com respostas tão fáceis e diretas quanto incorretas. Apontar para os imigrantes, para os estrangeiros ou para uma conspiração judia mundial era fácil. E, além disso, de grande capacidade de aderência popular.

A maré neonazi

Desemprego= imigração; crise econômica= estrangeiros; recessão= dirigismo estatal; carestia= euro.

Tudo simples, direto e sem questionamentos muito complicados. Foi neste contexto que se desenvolveu uma ampla (sub)cultura política fascicizante: ocupou o ciberespaço (são 12 sites eletrônicos na Noruega fazendo propaganda nazista!), as rádios e os temas televisivos cotidianos. Bandas de rock, do estilo “Black Metal”, desenvolveram signos, canções e atitudes neonazis na Alemanha, Reino Unido, Suécia e Noruega. Alusões ao satanismo e ao ocultismo proliferaram, com o uso de runas e de ícones nazistas, como a suástica e a runa “SS” em pretensos cultos que vandalizam cemitérios e antigas igrejas.

Em outros casos emergiu um forte neopaganismo, como nos grupos “Viking” sueco e “Vigrid” norueguês, ambos intimamente associado ao grupo de supremacia branca norte-americano “National Alliance”. Na própria Noruega emergiu uma sociedade “Aasatru” (denominação da mitologia nórdica), de culto pagão e adoração a runas nazistas.

Tais organizações negam a existência histórica do genocídio dos judeus na Segunda Guerra Mundial, falando odiosamente de um “Holocash” – uma impostura judia para arrancar dinheiro dos países germânicos. Ao lado disso, uma velha mentira, como o livro “Protocolos dos Sábios de Sião” foi reeditado e vendido publicamente na Noruega. Em outros casos, como é o caso do atirador Anders Behring Breivik, desenvolveu-se um forte e intolerante fundamentalismo cristão, profundamente anti-muçulmano e anti-socialista. Estes são elementos comuns da cena fascista contemporânea.

Uma temática especial mereceu a atenção dos novos fascistas: a revisão positivada dos fascismos históricos, recuperando uma memória construída sobre os imaginados “bons tempos” dos anos de 1930 e da própria ocupação nazista durante a guerra. Ao lado do revisionismo histórico, desenvolveu-se também o negacionismo, a recusa em aceitar o genocídio de judeus, ciganos, doentes mentais, testemunhas de Jeová e gays pelos nazistas.

Isso já havia acontecido entre 1991 e 1996, numa primeira vaga revisionista/negacionista. Agora ressurge uma segunda vaga visando passar a Segunda Guerra Mundial a limpo. Na França, Itália, Alemanha, Espanha, Noruega e Suécia vários grupos buscam negar a realidade histórica do holocausto e reabilitar os velhos fascistas nacionais, como é o objetivo do pretenso “Norwegian Occupation History Institute”.

Ao mesmo tempo políticos, intelectuais e celebridades – como Jorg Haider (5), Gianfranco Fini (6), o estilista John Galliano e o cineasta Lars von Trier – fazem declarações desculpando e “entendendo” personagens como Mussolini e Hitler, numa clara banalização da maior tragédia da história contemporânea.

Os governos europeus, e os EUA, por sua vez, fecham os olhos frente à contínua fascistização das instituições do estado liberal, em especial da polícia e das autoridades aeroportuárias. A promiscuidade da grande imprensa, como o império Murdoch (na Inglaterra, EUA e Austrália), com as lideranças conservadoras, como o Tea Party nos EUA e a polícia, oculta o montante da maré neonazi. A polícia, sob instigação da “luta antiterrorista” mata inocentes e brutaliza oponentes antifascistas, como na Inglaterra, França e Espanha.

Nos estádios de futebol multiplicam-se as manifestações abertamente racistas contra atletas negros e árabes, tudo isso em face da leniência das autoridades e das instituições ditas culturais e esportivas.

É a multiplicação dos microfascismos no interior do próprio estado liberal.

Mais uma vez, a sociedade e o Estado comportam-se como Franz von Papen e seus seguidores católicos, conservadores e liberais. Negam-se a ver a ameaça nazista que bate à porta.

Com estrondo.

Notas:

[1] Devo a inspiração desse título ao livro “Lúcifer ante portas”, de Rudolf Dihls (Interverlag, Zurique, 1950), “Oberführer” da Gestapo entre 1933 e 1934, quando então se afasta do nazismo.

[2] Franz von Papen (1879-1969 ) político reacionário alemão, membro do primeiro gabinete de Hitler e político que viabilizou aquele governo junto aos empresários e militares alemães.

[3] Hjalmar Schacht (1877-1970) político, banqueiro e empresário alemão responsável pela administração financeira no gabinete de Hitler.

[4] Embora se fale muito no fim das oposições “direita versus esquerda” continuo achando válida, e mesmo imprescindível, a díade. Utilizo aqui as noções de “esquerda” e de “direita” conforme proposta de Norberto Bobbio no livro “Direita e esquerda: razões de uma diferença” (São Paulo, Edusp, 1999).

[5] Jorg Haider (1950-2008), líder do abertamente fascista partido FPÖ (Partido Austríaco da Liberdade).

[6] Gianfranco Fini (1952), líder do partido dito pós-fascista italiano Aliança Nacional e depois ministro de Berlusconi no Partido Povo da Liberdade.

(*) Francisco Carlos Teixeira é professor de Relações Internacionais/UFRJ. Artigo publicado originalmente na Carta Maior

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Uma resposta para Quando o diabo bate à porta (1)

  1. Regina disse:

    Gosto muito das idéias do autor, porém discordo no item relacionado ao Black Metal. As bandas nórdicas são anteriores aos anos 90.E as atuais moldam pela estética do satanismo como crítica direta ao catolicismo, que sempre predominou hegemonicamente naqueles países. Não são manifestações neo-nazistas. Bandas neo-nazistas existem, porém são restritas a um público determinado.

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