Desde que seja para trabalhar, toleramos quem fica “doidão”

O corte da cana é naturalmente penoso, atinge em cheio a saúde do trabalhador. Mesmo estando munido de todos os equipamentos de proteção individual, com pausas para descanso, remuneração e folgas semanais dignas, alimentação e alojamento dentro da lei e não sendo vítima de artimanhas para induzi-lo a cortar mais do que seu corpo aguenta. É atividade que, mais cedo ou mais tarde, terá que acabar – isto, é claro, se estivermos caminhando para um mundo mais justo.

Ao mesmo tempo, o avanço da mecanização não resulta apenas na demissão de pessoas, mas também na intensificação do desgaste físico dos que ficam. A cana crua (não queimada) e deitada acaba “sobrando” para os trabalhadores manuais. E os que perdem o emprego têm sido empurrados para serviços nem sempre de qualidade. Parte dos que cortavam cana no interior paulista hoje estão na construção civil de cidades como Campinas, arregimentados por “gatos” (contratadores de mão de obra) em outros Estados. Alguns já foram resgatados pelos grupos de fiscalização do governo federal, responsáveis por combater o trabalho análogo ao de escravo.

A solução passa por criar alternativas de emprego e renda para esses trabalhadores em substituição às condições precárias, insalubres ou degradantes de canaviais. Coisa que nós estamos devendo a eles, que enchem o nosso tanque de etanol com seu suor diariamente.

E já que o crack está no noticiário por conta da ação bizarra do poder público na cracolândia do Centro de São Paulo, gostaria de relembrar que foram registrados casos de cortadores de cana que se tornaram dependentes da droga no interior de São Paulo. Trabalhadores rurais chegam a derrubar mais de 12 toneladas de cana em um dia de serviço, incentivados pelo modelo de produção (o salário tem uma parte fixa, pequena, e uma variável – que depende de quanto se corta). De acordo com o diretor de um sindicato de trabalhadores rurais, há registro de um recordista com 30 toneladas em um único dia. O corpo vai ao limite em busca de ganhar mais para voltar para casa reconhecido como uma pessoa de valor e com dinheiro para ajudar a família.

E, ao final do expediente, o crack ajuda a tirar as dores do corpo.

Isso significa que muitos cortadores usam a droga? De maneira alguma, não há provas disso e mesmo as usinas fazem campanha contra. Mas é simbólico que um entorpecente que ficou relacionado ao cotidiano de pessoas que a sociedade jogou no lixo tenha apresentado incidência entre os cortadores de cana. Isto aumenta o contraste frente à pujança do etanol, vendido mundo afora por nossos governos como solução para os problemas do mundo. E enlouquece os usineiros, nossos “heróis” (nas palavras do ex-presidente Lula), que viram nas denúncias do uso de crack um complô internacional para atrapalhar os negócios do país. Como sempre a culpa é dos outros.

O que me lembra a miríade de “pessoas de bem” que tomam bolinhas para acordar, bolinhas para dormir, bolinhas para sorrir, bolinhas para se concentrar e trabalhar. Isto sem contar o “incentivo” para conseguir terminar aquele pescoção na redação ou o plantão médico. Drogas são toleradas, desde que tornem você uma pessoa produtiva.

Até porque, como se sabe, fumar um cachimbinho para dar uma relaxada após cortar o equivalente a 15 Fuscas por dia no braço é coisa normal. Ficar doidão e não produzir nada para a sociedade e, ainda por cima, estragar minha noite na Sala São Paulo é que é o ó.

* Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em Ciência Política. É coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo.

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