Os últimos cinco anos na França: o governo de Sarkozy

por Camila Perruso | de Paris, para o INB

Após a vitória nas eleições presidenciais na França, amanhã, dia 15 de maio de 2012, o novo presidente François Hollande tomará posse e anunciará o nome do seu primeiro ministro. No mesmo dia ele tem um jantar marcado com a primeira ministra alemã, Angela Merkel, encontro que certamente evocará as possibilidades da renegociação do pacto europeu de estabilidade orçamentária. Em seguida, após o anúncio da composição dos ministros de seu governo, partirá para os Estados Unidos no final da semana onde participará da reunião do G8 e em seguida da OTAN. Na volta, a pauta da comunidade européia, em Bruxelas, será a situação da crise na Grécia e as possibilidades de crescimento.

Ao mesmo tempo em que o movimento da posse e dos diversos encontros que já marcam a agenda do novo presidente tomam conta da imprensa francesa, diversos dossiês de balanço são feitos em relação aos últimos cinco anos da gestão de Sarkozy. Os problemas concernentes à periferia parisiense, a crise econômica que se instaurou desde 2008, a lei de reforma das aposentadorias, o tratamento dado aos imigrantes, a queda do regime de Kadhafi e a perda do triplo A, são os pontos em destaque do quinquenato de Sarkozy.

Logo no fim do ano de 2007 houve uma revolta na periferia de Paris após a morte de dois jovens por policiais. Esse episódio lançou os olhares para uma política repressiva face àqueles que vivem nesses pólos urbanos afastados do centro, gerando uma tensão entre a polícia e os habitantes das chamadas cités. Após a extinção, por Sarkozy, da polícia de proximidade (algo a polícia comunitária, que participa e trabalha como mediadora dos problemas da comunidade), essas regiões periféricas foram e continuam isoladas de uma integração social, tendo aumentado as taxas de pobreza, a falta de confiança nas instituições públicas, a criminalidade, a repressão arbitrária. Essa questão da periferia abandonada pelo governo vai completamente de encontro às lições mais básicas da Escola de Chicago, revelando seu desprezo pela problemática social mais evidente da pobreza e da falta de oportunidades que enseja a violência, a falta de pertencimento.

Essa “crise” social não teve seu campo de discussão ofuscada pela crise econômica de impactos gigantescos na economia mundial, repercutindo na adoção de uma política da austeridade (contrariando o anúncio do então presidente à época, que negava impor aos franceses um rigor no controle dos gastos e sobretudo na redução do padrão de vida da população). Seguindo os passos de Merkel e sempre fazendo alusão ao modelo alemão, firmando com a Alemanha um verdadeiro pacto de estabilidade e de luta contra os déficites oriundos da crise, Sarkozy, em aliança com Merkel, afinou seu discurso e sua gestão com Berlim. Ele e Merkel  decidiram reformar a governança da zona euro, em 2011, pela modificação de tratados europeus. Não é à toa que a Angela Merkel apresentou, no início de 2012, seu apoio político a Sarkozy para sua reeleição.

Nesse bojo das contenções em razão da crise econômica, Sarkozy adotou medidas sociais denunciadas de autoritárias e arbitrárias, na medida em que não se apoiou na opinião pública, e numa perspectiva de ser sempre mais condescendente com os empresários que com os empregados. A lei de reforma da aposentadoria, de 2010, foi alvo de protestos notadamente porque a mudança feita relativa à flexibilização das garantias dos direito dos trabalhadores não teve a contrapartida da reforma das empresas: estas continuaram a obter as vantagens fiscais e a demitir seus funcionários, apesar dos incentivos públicos para a manutenção das condições mínimas dos direitos dos trabalhadores.

Ainda no ensejo de redução e cortes, o então presidente Sarkozy passou a determinar, desde 2010, a expulsão dos imigrantes da França. Para tanto, desmantelou acampamentos de Roms (ciganos), aproximando-se das intolerâncias naturais à extrema direita. Assim, pela política do número (chifre), foram estipuladas metas de expulsão dos estrangeiros; em 2011 a meta era 30.000 não-franceses fora da França.

É interessante observar que ao longo dos últimos cinco anos um presidente tenha agido de maneira tão inesperada para uma figura pública e política. Além dos diversos atropelos e impulsos, guiados pelo interesse econômico – sobretudo da classe alta francesa –, como por exemplo a visita oficial de Kadhafi ao país em 2007 (pelos contratos de petróleo e também depois do evento de libertação das cinco enfermeiras búlgaras e do médico palestino pela primeira dama da época, mostrando o lado “herói” do antigo presidente), a indiscrição, o despeito e por vezes o desrespeito aos outros marcaram seu mandato. Por tudo isso, Hollande declarou, desde o princípio, que será um presidente normal. Acompanhemos sua agenda e suas decisões nos próximos dias para saber de fato se essa “normalidade” do novo presidente atenderá os anseios de uma França cheia de rachaduras deixadas pela intensidade da última gestão política.

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