Problema é o financiamento de campanhas, diz promotor

 Caio Junqueira | De Goiânia | Valor Econômico – 16/05/2012

O esquema desvendado pela operação Monte Carlo da Polícia Federal tem ligações diretas com o modelo adotado no país para financiamento de campanhas eleitorais. Cada vez mais caras, elas fazem com que os políticos busquem os recursos financeiros tanto em empresas lícitas como ilícitas, que, após as eleições, aproximam-se do grupo vitorioso para cobra o investimento.

A avaliação foi feita ao Valor pelo Ministério Público do Estado de Goiás, por meio do promotor de Justiça Bernardo Boclin Borges, um dos responsáveis pelas investigações estaduais que resultaram na operação federal que prendeu o empresário Carlos Cachoeira.

“Política se ganha com dinheiro e o político não quer saber se o dinheiro é lícito ou não. Como as campanhas estão mais caras, precisa-se de mais empresas para abastecer essas campanhas, tenham elas CNPJ ou não”, disse. Ele ainda completa: “Por isso, quando o político é eleito, ele traz consigo o bicheiro, a empreiteira, todos os financiadores para, de alguma forma, devolver o dinheiro que recebeu. A corrupção hoje existe para sustentar campanhas e manter determinados grupos no poder”.

Segundo ele, o espaço agora aberto com a desarticulação do grupo de Cachoeira já vem sendo ocupado por grupos concorrentes. “Esse espaço não vai ficar vago, e me refiro tanto às empresas com CNPJ como as sem CNPJ. Hoje desarticula um grupo e vem outro para se rearticular. Esse dinheiro precisa continuar circulando para alimentar esse sistema. O dinheiro interessa a todos. E Cachoeira tinha dinheiro para campanha eleitoral.”

Borges vai além e sugere a relação desse ponto de vista com a negociação envolvendo a Delta e J&F Participações, holding que abriga entre suas empresas o frigorífico JBS. O presidente do conselho de administração da holding é o ex-presidente do Banco Central, pemedebista Henrique Meirelles. Um dos seus acionistas é José Batista Júnior, o “Júnior da Friboi”, pré-candidato a governador de Goiás em 2014 pelo PSB. “A JBS é de um goiano que quer ser político. Meirelles é goiano com ambições políticas. Esse espaço aberto de que falo não vai ficar vago. Nem nas empresas com CNPJ nem nas empresas sem CNPJ.” Ele conta que começou a investigar Cachoeira em Valparaíso de Goiás, município situado no Entorno do Distrito Federal. O empresário centralizava muito sua operação nesta cidade para atender ao público de Brasília. “Só que a capital federal tem muitos policiais. A possibilidade de Cachoeira ter problema lá era muito grande, muito maior do que em Goiás. Então em Valparaíso ele encontrou o sistema ideal: número reduzido de policiais e ausência de poder público.”

De acordo com Borges, a estrutura de Cachoeira no Estado e, particularmente, em Valparaíso, era tão eficiente que era feita às claras. Motivo pelo qual foi preciso transferir a apuração para o Ministério Público Federal. “Normalmente quando é assim, muito aberto, é certeza de que tem participação de policiais. Então a operação não ia para a frente porque a rede de informantes deles era muito grande. Percebemos então que não dava para fazer a operação em Goiás e recorremos ao aparato federal em Brasília”. A maior parte da investigação foi feita antes de Benedito Torres, irmão do senador Demóstenes Torres, assumir o comando do Ministério Público do Estado. O senador é apontado pela PF como um dos elos políticos de Cachoeira.

A avaliação do órgão, de certa forma, vai ao encontro à do PT regional. O líder do partido na Assembleia Legislativa, Luis Cesar Bueno, disse ao Valor que a Delta “é uma grande lavanderia [de dinheiro]. “A Delta operava como uma lavanderia no Estado. Não queria apenas participar de licitação, queria contrato para lavar dinheiro do crime organizado. Eles entravam perdendo dinheiro para ganhar depois”, afirmou. Segundo ele, “o esquema de Cachoeira, quando não é a Delta, é outra empresa de outra área”. “Esse escândalo mostra como foi o financiamento da campanha do governador Marconi Perillo (PSDB)”, conclui.

O petista, porém, ressalta que o esquema não atinge prefeituras da oposição ao tucano, basicamente PT e PMDB, que também celebraram contratos com a Delta. “A bancada se reuniu com os prefeitos do nosso campo e eles estão dispostos a prestar contas. Muitos dos contratos foram inclusive aprovados pelo Ministério Público”.

Conforme o Valor mostrou, houve 22 contratos da Delta em Goiás. Quatorze deles com prefeituras do PMDB (Aparecida de Goiânia, Catalão e Goiânia) e quatro do PT (Anápolis e Goiânia). No governo do Estado, foram três contratos assinados pelo PSDB e um pelo PP. O Ministério Público estadual recomendou a suspensão de todos esses contratos. Mas apenas a Prefeitura de Goiânia, administrada por Paulo Garcia (PT), seguiu a recomendação. Em Aparecida de Goiânia, o MP chegou a pedir o afastamento do prefeito Maguito Vilela (PMDB) por avaliar que houve favorecimento para a construtora em uma licitação no município.

Em nota, a J&F afirmou que as negociações para a aquisição da Delta são privadas e de caráter empresarial, sendo descabida qualquer outra insinuação. Afirma ainda que José Batista Junior, “um dos acionistas da holding, não ocupa um cargo executivo no grupo há sete anos e, portanto, não participa das decisões estratégicas da J&F” e que, “consequentemente, não foi envolvido na negociação com a Delta, tampouco consultado”.

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