A volta do dracma na Grécia: uma futurologia monetária

Ao fim e ao cabo, os governos europeus perceberão que sairia mais em conta salvar a Grécia

*Texto originalmente publicado na Carta Maior.

por Pedro Rossi*

Quando o dia amanhecer sobre a acrópole, um presidente grego fará o pronunciamento surpresa, em rede nacional, para declarar de uma só vez um feriado bancário prolongado, uma moratória da dívida externa e a restituição do dracma como moeda nacional. Como não poderia deixar de ser, o discurso será carregado de nacionalismo e ressaltará um pacto social pela reerguimento da nação e pela retomada da soberania. Ele terá razão ao dizer que a situação social chegou a níveis intoleráveis e que a política de austeridade é incompatível com a solução para a crise.

Talvez também diga, com alguma razão, que a Grécia é vítima de uma construção monetária frágil e de um sistema financeiro perverso e fora de controle. Se quiser demonstrar virilidade, dirá que o berço da civilização não se curvará aos credores internacionais. Diante desse discurso, a população grega verá o dracma com um misto de esperança e desconfiança. Por um lado, a moeda nacional será o único elemento capaz de dar autonomia a um Estado monetariamente passivo e fiscalmente impotente. Por outro lado, haverá o temor de um caos monetário conduzido por instituições políticas desacreditadas.

Após o feriado bancário, o dracma voltará a denominar os contratos no país e substituirá a moeda europeia em muitos dos contratos já existentes. Dessa forma, a desvalorização da moeda grega em relação ao euro será também a desvalorização dos depósitos bancários e da dívida pública. Essa medida provocará um descasamento de moedas nos balanços de instituições com dívidas no exterior e, portanto, será necessariamente acompanhada de uma moratória da dívida externa privada. A ira dos credores internacionais terá reflexo na liquidação generalizada de ativos e na fuga maciça de capitais. Os controles sobre os fluxos de capitais serão inevitáveis.

Para evitar uma corrida bancária, o governo deve instituir uma restrição aos saques para assim evitar uma crescente falta de liquidez, ou seja, uma espécie de “corralito grego”. Nada garante, porém, que o novo dracma seja bem sucedido em sua empreitada. A moeda é uma instituição social calcada na confiança. Suas funções clássicas de meio de pagamento, unidade de conta e reserva de valor dependem de sua aceitação geral e da credibilidade das instituições responsáveis por sua gestão. Nesse sentido, o dracma terá a difícil tarefa de mostrar para a população que é uma reserva de valor confiável. Muito provavelmente o governo grego terá que gerenciar um sistema de pagamentos bi-monetário onde o euro conviverá com o dracma nas transações econômicas.

A inflação decorrente de uma excessiva desvalorização inicial do dracma pode comprometer o projeto de autonomia monetária. Porém, mas grave do que o caso inflacionário, é a falta de liquidez monetária. A insolvência do sistema bancário e a incapacidade do banco central grego em controlar a situação implicarão na paralização das atividades de produção e comércio e na consequente asfixia do circuito de gasto. Nesse caso, a Grécia poderá regredir para um estado pré-capitalista, pois, destituída de moeda, a economia entraria em um colapso generalizado.

Esse não é o único futuro possível da Grécia pós-euro. Passado o desarranjo inicial, um reestabelecimento do circuito do crédito e do gasto na moeda emitida pelo governo fará o país crescer sem as restrições impostas pelos que advogam pela austeridade. O patamar depreciado do dracma, se aliado às políticas industriais, dará competitividade a economia grega que, lentamente, deve passar a produzir internamente itens da sua pauta importadora. O turismo e os serviços marítimos vão continuar sendo a principal fonte de divisas externas, mas as receitas dessas atividades passarão a ser mais importantes em moeda doméstica. Esse cenário é a motivação para o povo grego atravessar a crise pelo caminho da ruptura e da soberania nacional.

Sem dúvidas uma saída da Grécia do Euro irá despertar uma desconfiança geral nas instituições financeiras de outros países da zona euro.

Provavelmente, o efeito contágio ocorrerá menos pelas ligações financeiras e mais pelo canal das expectativas. No mesmo dia do fatídico anúncio de feriado bancário do presidente grego, residentes de países como Itália, Espanha e Portugal acharão prudente resgatar depósitos nos bancos para guardá-los em casa. A prudência dará lugar ao pânico da corrida bancária. Essa situação terá o reforço do mercado financeiro que poderá manifestar um daqueles momentos de absoluta irracionalidade. De nada servirão os modelos que acusam desvios do equilíbrio. Como observado por Issac Newton na primavera de 1720, “sou capaz de calcular o movimento dos corpos celestes, mas não a loucura das pessoas”. Diante do “salve-se quem puder” a atitude, mas coerente dos líderes europeus será, assim como o presidente grego, decretar um feriado bancário.

Nesse ponto, a saída da Grécia do euro colocará em xeque o sistema financeiro europeu e forçará medidas políticas de grande envergadura. Dada a possibilidade de colapso do sistema, o mais provável é que se encontre uma solução política conjunta – Uniao Européia, FMI, Banco Central Europeu – para isolar a economia grega e blindar os demais países. Para que isso seja possível, será necessária uma injeção de liquidez para se reestabelecer a confiança no sistema bancário em escala nunca antes vista. Ao fim e ao cabo, os governos europeus perceberão que sairia mais em conta salvar a Grécia com injeção de capital, um plano de investimento e a reversão das políticas de austeridade. Evidentemente, esse cenário descrito – um tanto catastrofista – depende do fracasso das negociações política e principalmente da continuidade da “estratégia Merkel”, de pressionar irracionalmente por austeridade.

*Pedro Rossi é doutor em economia pela Unicamp, é pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon/Unicamp).

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