Nova página da política na França: um balanço das eleições legislativas

por Camila Perruso | de Paris, para o blog do INB

No dia 17 de junho de 2012, ocasião do segundo turno das eleições legislativas, a França conheceu a nova composição da Assembleia Nacional: maioria dos partidos da esquerda parlamentar, maioria absoluta do Partido socialista. A esquerda obteve 346 eleitos contra 226 da direita parlamentar; sendo que o partido do novo presidente François Hollande conta a partir de agora com 300 vozes de uma nova “onda rosa” totalmente favorável na Assembleia. Os candidatos do partido de Sarkozy, notadamente os nomes fortes de seu governo, foram derrotados na disputa eleitoral, demonstrando um cenário de despeito aos antigos governantes.

Entretanto, esse sucesso não vem com um brilho especial, diante do recorde de abstenção neste segundo turno de eleições legislativas; somente 55,7% dos franceses foram às urnas. Em relação ao perfil dos eleitores, de acordo com uma pesquisa realizada pela Ipsos-Logica Business Consulting, o voto ao candidato de esquerda é inversamente proporcional ao nível do salário. Assim, 42% do eleitorado de esquerda tem uma renda familiar superior a 4.500 euros por mês, enquanto 59% dispõe de menos de 1.200; da mesma forma, 68% corresponde a operários e 24% a comerciantes e empresários, evidenciando o caráter popular dos partidos de esquerda.

Um elemento que salta aos olhos e constitui objeto de inquietude quanto às direções políticas em tempos de crise econômica, é o forte apoio que o partido de extrema direita, Frente Nacional, recebeu de seu eleitorado, conduzindo dois deputados à Assembleia. Desde 1997, o partido não elegia nenhuma figura política, e agora promoveu a entrada da neta de Jean-Marie Le Pen (a mais jovem deputada da Quinta República, com 22 anos) e do advogado Collard. Não se pode ignorar que Marine Le Pen perdeu para seu adversário do Partido Socialista por apenas 118 votos. Essa conjuntura abre uma brecha para a afirmação de um partido cuja ideologia funda-se em um projeto ultra-nacionalista, para não dizer xenófobo.

Nessa perspectiva, como avaliar os votos dedicados a esse projeto do Frente Nacional? E como justificar o alto nível de abstenção nessas eleições legislativas? Uma razão inegável às duas questões é a desilusão face ao sistema político como um todo, gerado pela crença de que as mudanças não levam a lugar algum ou de que as promessas não são cumpridas. Outro motivo que pode ser invocado à abstenção é o argumento da falta de possibilidades, levando os eleitores a se calarem em vez de efetuarem uma má escolha.

Adicionalmente, é possível vislumbrar um cenário em que o imaginário dos franceses ainda está ligado a um presidente providência, portanto, o que contaria é a eleição presidencial –  como se a participação nas eleições legislativas se tratasse apenas do cumprimento de uma formalidade. Essa realidade demonstra uma fraca percepção do povo francês quanto ao valor  do voto para o sistema representativo. É premente que uma consciência cidadã se mobilize e se estimule, sob o risco dos cidadãos tornarem-se meros espectadores e não mais constituírem atores da ação política, fundadora de uma realidade verdadeiramente democrática.

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Conexão Paris: Eleições 2012 | por Camila Perruso, Filosofia do Direito: Temas da filosofia de Bobbio. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s