Ventos de mudanças passaram pelo INB

por Fabricio Costa

O Instituto Norberto Bobbio teve a oportunidade de receber uma cidadã global. Pertencer ao mundo e dividir este sentimento com a família humana tem sido a vida dessa ilustre desconhecida chamada Evelin Lindner. Proveniente de um país extinto, a Silésia, agora incorporada à Polônia, foi deslocada para a Alemanha, de onde seguiu para o mundo todo. Esse ser humano inspirador conseguiu canalizar os traumas sofridos por sua família e seu povo durante a II Guerra Mundial em algo novo e proveitoso para toda a humanidade.

O sério erro de percepção o qual Evelin procurou demonstrar reside no fato de os seres humanos contemporâneos serem treinados a pensarem de modo único, separado, exclusivista e especializado, sem prestarmos atenção ao todo. Do tempo total de existência dos seres humanos (200 mil anos), os últimos 10 mil ( 5% ) têm sido cruciais para a definição das civilizações sedentárias. Esse período tem como marco a domesticação dos animais e o início das culturas alimentares. A sedentarização implicou o início da consciência de finitude de um lado, mas por outro, não foi capaz de ampliar os laços de solidariedade entre semelhantes.

Segundo Evelin, a humilhação pode ser abordada, radicalmente, de duas formas: pelo esquecimento, ou pelo vício da vitimização, entretanto, essas formas de trabalhar a humilhação não seriam satisfatórias. O meio termo revelar-se-ia ser por meio de uma abordagem construtiva caracterizada pela articulação de diversos mecanismos, tais como: acesso aos documentos; estabelecimento de lugares de lembrança e manifestações de arte, entre outros.[1] Nesse sentido, o objetivo mínimo seria a cooperação, enquanto que o objetivo máximo seria a habilidade de “transformar” inimigos em amigos – resultado do que ela chama de “capacidade para conectar-se uns aos outros”. Essa lógica tem servido há mais de 10 mil anos para manter o ciclo hierárquico que permeia as relações humanas e institucionais na História, nos ensina Evelin. O impulso desse mecanismo social tem sido, basicamente, a humilhação. Na concepção de Lindner, a humilhação é a bomba nuclear das emoções.

Nesse ponto, para desarmar essa bomba é necessário nos remeter ao dilema da segurança. Não foi ninguém menos que os romanos a sintetizar o dilema da segurança, segundo o qual “se queres paz, prepara-te para a guerra”.  Conscientemente nas corridas armamentistas ou inconscientemente nas buscas ansiosas pela superação de metas comerciais, a lógica da segurança acaba abarcando todo espectro das relações, desde as esferas interpessoais passando pelas relações entre Estados até com o Ecossistema.

Para Evelin, as revoluções políticas acabam perpetrando o dilema da segurança, pelo fato de a humilhação ser usada como meio de resolução de conflitos por uma sociedade organizada hierarquicamente. Não há caminho para a paz. A paz é o caminho e, por isso, necessitamos de Mandelas, Gandhis, Paulo Freires que sejam capazes de influenciar pessoas ao dizerem que humildade é uma necessidade para os arrogantes e que o direito de se sentir humilhado é uma forma de possibilitar o empoderamento dos comuns.  dignidade é o caminho do meio de polos sociais tão estanques e, nesse sentido, o que a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 tem de extraordinário é o fato de afirmar que todos os seres humanos nascem livres em dignidade e em direitos.[2]

Norberto Bobbio concluiu que as fundamentações acerca dos direitos humanos não são mais tão necessárias, pois o desafio não é discutir os direitos humanos quanto à possível origem: de Deus ou dos homens. O principal desafio atual é como aplicar o que já se encontra escrito há pelos menos meio século. É no plano da efetivação dos direitos humanos que reside o maior de todos os desafios. Evelin concorda com o jurista e, nesse ponto, diz que muito se tem dito e feito pelos direitos humanos, mas ainda resta muito por se feito para a dignidade com o fito de democratizá-la. A equalização dos polos é a meta da convivência em uma única família humana.

A consciência de finitude passa a assumir um contorno realmente importante nos dias atuais, pois ela começa a abarcar a finitude de bens antes considerados inesgotáveis, como água, ar, minerais, pescados. Em contraponto, ainda resta muito por fazer na tarefa de ensinar que o manuseio sustentável do planeta pela família humana passa, necessariamente, no aprendizado não dual . Em outras palavras, o princípio da unidade na diversidade é o caminho que Lindner sugere de modo que se rompa um ciclo de humilhações, insegurança e banhos de sangue. Entre tentativas históricas fantásticas de preponderância entre dois modelos sociopolíticos, Lindner sugere um terceiro que trabalha com uma nova perspectiva:  DIGNISMO, afinal é menos difícil alterar uma perspectiva do que um modelo todo.

Dignidade e humilhação são os dois lados da mesma moeda, e para tanto, o trabalho atual e, em especial de nós brasileiros, é o de praticarmos e de ensinarmos a arte da conectividade interpessoal. O que chamou a atenção de Evelin, nesta curta estada de 15 dias por São Paulo, foi a facilidade com que os paulistas e os paulistanos têm para se comunicar em situações corriqueiras da vida, desde um taxista até mesmo um garçom.  A facilidade de conexão entre pessoas é uma característica muito positiva e foi vista como um sinal de esperança contra a indiferença. Esperança essa tão necessária para nós que travamos a luta de efetivação dos Direitos Humanos em um país tão jovem, violento e desigual como o Brasil. Oxalá possamos incorporar um pouco da sabedoria dessa pessoa que soube romper o ciclo de humilhação, de vitimização e de retaliação tão característico de nossos últimos 10.000 anos, abrindo nossos corações, como se velas fossem, a esses novos ventos, que nos levem não para uma nova terra, visto que esta é finita e está se esgotando, mas à nova lógica de convivência.


[1] O tema guarda estreita relação com as formas de atuação da Comissão da Verdade, citada por Evelin em sua apresentação.

[2]  Diante de um contexto em que há radicalidade entre vitimização e esquecimento, Evelin vem enfatizando que a defesa da dignidade tem sido posta de lado, não obstante ter havido atenção por parte do Direito Internacional dos Direitos Humanos em relação às formas de proteção e de garantia de direitos.

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