Hoch die internationale Solidarität!*

Por Ludmila Anders, de Berlim | Instituto Norberto Bobbio – INB

Manifestação em Berlim (Alemanha) em apoio aos protestos ocorridos no Brasil - 16.06.2013 Foto: Claudia Jedin

Manifestação em Berlim (Alemanha) em apoio aos protestos ocorridos no Brasil – 16.06.2013 Foto: Helo von Gal

Es geht nicht um 0.07-€! Es geht um unsere Rechte![1] Com o intuito não apenas de  tomar parte nos protestos por mudanças no Brasil, mas também de esclarecer a comunidade alemã sobre o que está em jogo por trás das manifestações de nossos compatriotas, parte da comunidade de brasileiros residente em Berlim, capital da República Federal da Alemanha, decidiu se reunir e sair às ruas em um domingo ensolarado. Com flores, crianças, bichos e cartazes escritos em alemão, inglês e português, percorremos de Kottbuser Tor até a Hermannplatz, inseridos num domingo de manifestações na capital alemã: os nossos amigos turcos protestavam nas adjacências. A polícia alemã estava lá, para nos dar suporte, proteção, ajudando a coordenar a marcha. Eu estava lá, com meus amigos e minha filha, de 2 anos e 10 meses.

Manifestação em Berlim. Foto: Helo von Gal

Manifestação em Berlim. Foto: Helo von Gal

Ninguém ali trazia bandeiras de partidos ou ideologias. Estávamos munidos de nossa vontade de apoiar os cidadãos brasileiros que estão tomando as ruas em forma de protesto. Queríamos mostrar que eles não estão sozinhos e que a democracia não possui fronteiras. Mas também sabíamos o significado político de nossa manifestação: a construção e o fortalecimento da solidariedade internacional e o nosso papel como legítimos representantes de nosso país para além de suas fronteiras. Estávamos ali para esclarecer aos alemães e a nós mesmos.

"São Paulo é hoje todo o mundo: unidos contra a repressão" - manifestante em Berlim. Foto: Claudia Jedin

“São Paulo é hoje todo o mundo: unidos contra a repressão” – manifestante em Berlim. Foto: Claudia Jedin

Não é por vinte centavos de real. São os nossos direitos, é o nosso desejo de ver, ao lado do crescimento econômico de nossa pátria, a mudança dos nossos padrões sociais e políticos: cidadania ativa, fim da repressão aos movimentos sociais, melhorias no transporte, na saúde, na educação, na moradia. Duas palavras: dignidade humana.

Manifestantes brasileiros em Berlim: solidariedade aos compatriotas. Foto: Helo von Gal

Manifestantes brasileiros em Berlim: solidariedade aos compatriotas. Foto: Helo von Gal

As raízes de nossos males talvez não sejam claras para todos nós, porém somos todos legítimos agentes políticos em prol da mudança: ao buscar a atenção da imprensa e dos governos internacionais para nosso país, acabamos por politizar-nos, por querermos entender, para podermos mudar. Os diálogos, debates, discussões, desde o que vai escrito num cartaz até as palavras de ordem proferidas durante a manifestação, passando pelos objetivos desta, nos levam a refletir sobre os nossos sentimentos e desejos ao nos engajarmos na luta. Eis o poder do exercício da cidadania, mesmo fora de casa! Os cassetetes, o gás lacrimogêneo, as balas de borracha, as prisões, as imagens da repressão nos levaram a pensar. Que estamos fazendo? Que queremos nós? Por que isso tudo está acontecendo e qual a minha parte nesse contexto de lutas?

Manifestacão em Berlim, Alemanha - 16.06.2013. Foto: Claudia Jedin

Manifestacão em Berlim, Alemanha – 16.06.2013. Foto: Claudia Jedin

Vinte centavos de real, sete centavos de euro e séculos de injustiças, de repressão, de desmemoria vieram à tona. Fomos chamados à luta pela violência institucionalizada e monopolizada por um Estado que serve a quem nos oprime. Questão de honra: a honra de ser cidadão. A repressão ao movimento nas ruas nos levou a compreender, a nos darmos conta da violência cotidiana a que somos submetidos – nós e nossos compatriotas – nas filas dos engarrafamentos, nas multidões aglomeradas em estações de metrô, nos ônibus sempre lotados. Dessa violência com que fomos perseguidos e massacrados nas ruas, a consciência aflorou, despertando para outras injustiças sociais e políticas. Acredito que nem sabemos muito bem qual é o objetivo disso tudo, pois o que vi nas ruas ontem foram pessoas querendo respostas, querendo entender, querendo dizer não a esse estado de coisas, com tantas revoltas dentro de si, que fica difícil mesmo estabelecer o que queremos. Todavia, o que queremos é a pergunta necessária que se segue ao que fizemos até aqui. Responder a isso é encontrar os objetivos de nossos protestos. Sem reivindicações, pode-se cair no silêncio diante de manobras já tão comuns em nossa história política, que se aliam a violência dos cassetetes e do gás de pimenta. Quando Getúlio Vargas quis silenciar os trabalhadores e enfraquecer os sindicatos, criou um conjunto de leis trabalhistas, presenteou a classe operária com um estatuto jurídico e regulou a atividade sindical. Toda revolta a partir dali pareceria ilegítima, afinal, nos foi dado o que queríamos. O algoz ganhou a alcunha de Pai dos Pobres, sem deixar de ser a Mãe dos Ricos.

Menino pede o fim da violência em Berlim. Foto: Claudia Jedin

Menino pede o fim da violência, em Berlim. Foto: Claudia Jedin

Com alienação e violência fomos, sucessivas vezes em nossa história, calados. Como uma criança, que chora revoltada por ter apanhado do pai, e se conforma depois com um doce que lhe é ofertado. Por isso temos de reivindicar: saber o que se quer é condição para a luta, para não sermos surrados, depois compensados com menos do que merecemos e vermos se perder no vazio nosso desejo de justiça. O protesto em Berlim gerou reflexão, inclusive quando nos pegamos comparando a atitude da polícia alemã com a atitude da Polícia Militar paulista, carioca e brasiliense. Qual o papel da polícia? Havia um cartaz ontem em Berlim: polícia para quem? Outro: polícia, vai pegar ladrão! Tira a mão do meu vinagre! Será que quando alemães protestam, a polícia é assim também? Vejamos o que acontece no Blockuppy em Frankfurt ou na tentativa de se insurgir contra o Stuttgart 21

Manifestantes em Berlim. Foto: Helo von Gal

Manifestantes em Berlim. Foto: Helo von Gal

Passeata em Berlim, 16.06.2013. Foto: Helo von Gal

Passeata em Berlim, 16.06.2013. Foto: Helo von Gal

Não sabemos as respostas, mas é importante manter a consciência pensante. Saber o que não queremos é uma forma de perguntar sobre o que queremos e de não aceitarmos menos do que merecemos como filhos de uma pátria rica. Estamos agora pensando, refletindo sobre uma série de perguntas relativas ao justo, à igualdade, à dignidade. O que vi ontem foi isso: pessoas pensando, perguntando, pedindo um basta. Cartazes cheios de perguntas, uma interrogação no meio da bandeira do Brasil. Dizem #oGIGANTEacordou. Ele estava a dormir? A luta nunca existiu? A essência da cidadania é a consciência. Com ela, nascem as perguntas. Na vida, ter perguntas vale mais do que saber as repostas, afinal, não há respostas: elas são construídas por nós. A pergunta abre o nosso horizonte e nos ensina, no exercício da dialética, que podemos tudo.

Existe amor em Berlim. Protesto pacífico contou com a participação de famílias: crianças, pessoas com necessidades especiais, bichinhos de estimação. Na foto, vemos duas gerações no protesto. Foto: Ludmila Anders

Existe amor em Berlim. Protesto pacífico contou com a participação de famílias: crianças, pessoas com necessidades especiais, bichinhos de estimação. Na foto, vemos duas gerações no protesto. Foto: Ludmila Anders

Manifestantes marcham em Berlim, Alemanha. Foto: Ludmila Anders

“Isto não é um protesto, é um processo. Ouçam ao povo”. Manifestantes marcham em Berlim, Alemanha. Foto: Ludmila Anders

Manifestação em Berlim, 16.06.2013. O cartaz desta foto pode ser baixado gratuitamente aqui: tinyurl.com/cartaz-free Foto: Ludmila Anders

Manifestação em Berlim, 16.06.2013. O cartaz desta foto pode ser baixado gratuitamente aqui: tinyurl.com/cartaz-free Foto: Ludmila Anders

Manifestantes em Berlim se insurgem quanto a reportagem da Revista alemã Spiegel, que afirmava tratar-se de um protesto por 0.07-€ Foto: Helo von Gal

Manifestantes em Berlim se insurgem por conta da reportagem da Revista alemã Spiegel, que afirmava tratar-se de um protesto por 0.07-€  Foto: Helo von Gal

Solidariedade Internacional: "São Paulo ama Istanbul." Foto: Helo von Gal

Solidariedade Internacional: “São Paulo ama Istanbul.” Foto: Helo von Gal

Alemães juntam-se aos brasileiros pelo fim da repressão. Foto: Ludmila Anders

Alemães juntam-se aos brasileiros pelo fim da repressão. Foto: Ludmila Anders

"Precisamos conversar sobre o Brasil" Foto: Helo von Gal

“Precisamos conversar sobre o Brasil” Foto: Helo von Gal

Cartaz sugere qual o papel da polícia. Foto: Claudia Jedin

Cartaz sugere qual o papel da polícia. Foto: Claudia Jedin

Forjando respostas na afirmação do desejo. foto: Claudia Jedin

Forjando respostas na afirmação do desejo. foto: Claudia Jedin

Clique aqui e aqui assista um pouco do que foi o protesto em Berlim!


*Vivas à solidariedade internacional!

[1] Não é por sete centavos de euro! São os nossos direitos!

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Uma resposta para Hoch die internationale Solidarität!*

  1. Elisabeth disse:

    Quero e torço para que toda essa agitação nao seja apenas para “agradar” uma minoria de partido politico e sim que se aproveite o momento e a energia aflorada para conseguirmos MUDAR para melhor, exigindo SEGURANÇA, SAUDE e EDUCAÇÃO para todos os brasileiros. Estamos cansados de sermos roubados, nao só pelos poderosos mas tambem pelos bandidos comuns, que hoje se rotulam em crianças com arma na mao (bandidos de 12,14 anos matando maes, pais de familia e filhos dessa patria querida). BASTA! vamos nos focar para mudanças radicais.

    Ich möchte mich für und dass alle dieser Agitation Wurzel ist nicht nur “bitte” eine Minderheit politische Partei, aber wer sich die Zeit und Energie, um auf einen Wandel zum Besseren berührt werden, erfordern Sicherheit, Gesundheit und Bildung für alle Brasilianer. Wir sind, ausgeraubt müde, nicht nur durch den starken, sondern auch durch gemeinsame Banditen, die jetzt selbst beschriften bei Kindern mit Waffe in der Hand (12,14 Jahre Banditen töten Mütter, Väter und Kinder in dieser Familie lieben Vaterlandes). GENUG! lassen Sie uns für einen radikalen Wandel in unserem Land zu konzentrieren ..

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