Lift your eyes – Levantem seus olhos

Por Ludmila Anders, em Berlim | Instituto Norberto Bobbio – INB

Aconteceu hoje, 19 de junho de 2013, o evento que marcou a visita do Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, a Berlim. Quatro mil pessoas estavam presentes na Pariser Platz, situada diante do Portão de Brandemburgo, para ouvir o discurso de Obama. Não foi um evento aberto: ali só estavam convidados da Embaixada dos EE. UU. em Berlim: estudantes e professores de colégios estadunideneses, cidadãos estadunideneses residentes na capital alemã, pesquisadores das áreas relacionadas a Ciências Sociais e Economia, policiais, filhos de convidados. O convite nos foi enviado via e-mail e, para acesso, era necessário uma credencial e um documento com foto (passaporte, por exemplo).

Credencial para acesso à Pariser Platz, local do discurso de Barack Obama, na tarde de hoje, em Berlim - Foto: Ludmila Anders

Credencial para acesso à Pariser Platz, local do discurso de Barack Obama, na tarde de hoje, em Berlim – Foto: Ludmila Anders

Pariser Platz com Portão de Brandemburgo e as arquibancadas montadas para o evento. - Foto: Ludmila Anders

Pariser Platz com Portão de Brandemburgo e as arquibancadas montadas para o evento. – Foto: Ludmila Anders

Às 11h da manhã começou o acesso dos convidados à Pariser Platz. O lugar não poderia ser mais simbólico: há 50 anos, John F. Kennedy, então Presidente dos EE. UU., proferiu diante do Portão de Brandemburgo e defronte ao Muro de Berlim a famosa frase: Ich bin ein Berliner! (Eu sou um berlinense!). Dez anos antes da visita do Presidente Kennedy, em 1953, ocorrera, no mesmo local, o protesto conhecido como Levante de 17 de Junho, um movimento da classe trabalhadora berlinense, que buscava contestar as inúmeras arbitrariedades e cerceamentos de liberdade a que estavam sendo submetidos. Foi, na visão de muitos estudiosos, o estopim do que viria a ocorrer em novembro de 1989: a queda do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha. Os manifestantes foram massacrados de forma violenta pelos tanques da URSS.

Fila de espera para credenciamento e acesso ao local do evento - - Foto: Ludmila Anders

Fila de espera para credenciamento e acesso ao local do evento. – Foto: Ludmila Anders

Sob o espectro desses dois acontecimentos, Barack Obama e Angela Merkel, chanceler alemã, chegaram por volta das 15:30 na Pariser Platz, ovacionados por uma multidão que balançava freneticamente pequenas bandeiras dos dois países.

Merkel, nascida no Leste e, portanto, cidadã da extinta Alemanha Oriental, iniciou seu discurso de forma lúdica, falando que providenciou uma recepção calorosa e um clima ensolarado para Obama. Lembrando o Levante de 17 de Junho, a premiê alemã chamou todos à reflexão sobre o significado da revolta daqueles indivíduos, há 60 anos atrás, e destacou: é uma reflexão acerca de algo valioso do ponto de vista moral, político e, para mim, pessoal – remetendo, assim, à sua vinculação à extinta República Democrática Alemã (RDA). Merkel então chamou à memória de todos a visita do Presidente Kennedy e aos laços de amizade e fraternidade transatlântica com os EUA: o apoio militar para a derrocada do nazismo, o compromisso na reconstrução da Alemanha pós-guerra e em salvaguardar a integridade dos cidadãos de Berlim Ocidental, qualificada por Merkel como a lembrança da liberdade no seio da RDA. Saudou os pilotos que instituíram a Ponte Aérea (Luftbrücke), que, entre junho de 1948 a maio de 1949, abasteceu com mantimentos e meios de vida a população de Berlim Ocidental, quando a URSS fechou as fronteiras terrestres, impedindo o acesso de trens do Oeste para o Leste.

Lembrou a importância da visita de Kennedy e Reagan, ainda sob o manto da Cortina de Ferro, e como os EE.UU. sempre foram parceiros e amigos da Alemanha em prol da liberdade e da democracia.

Merkel, afirmando ser Berlim unificada o coração onde a amizade entre os dois países pulsa, e referindo-se a Obama como Herr Präsident, Lieber Obama (Sr. Presidente, Caro/Querido Obama), saudou o convidado e sentenciou: a amizade entre as duas nações é essencial para a ideia de uma aliança Europa-América.

Pariser Platz, instantes antes da chegada de Barack Obama - Foto: Ludmila Anders

Pariser Platz, instantes antes da chegada de Barack Obama – Foto: Ludmila Anders

Convidado a proferir seu discurso pela chanceler, Obama chega ao microfone ovacionado pelos presentes. Debaixo de um sol escaldante, o Mr. President disse: obrigado, Angela, por ter providenciado este clima maravilhoso e tropical para me receber. E, estando entre amigos, me sinto em casa. Vou tirar o terno e ficar apenas de camisa.

E assim o fez: tirou o terno, dobrou e arregaçou as mangas de sua camisa, começando seu discurso em clima de enorme descontração.

Público na Pariser Platz para ouvir o Presidente dos EE.UU., em Berlim. - Foto: Ludmila Anders

Público na Pariser Platz para ouvir o Presidente dos EE.UU., em Berlim. – Foto: Ludmila Anders

Obama foi, como sempre, uma figura cativante e humilde. Comecou dizendo: Angela e eu somos, por nós mesmos, líderes atípicos no quadro dos líderes que pisaram aqui outrora e que comandaram nossos países antes de nós. Sim, ele se referia ao fato de Angela ser uma mulher e Obama, um negro. Disse que sua esposa e filhas preferiram conhecer Berlim e sua magnífica história a ouvir mais um de seus discursos, arrancando risos da plateia. De fato, algumas horas antes, a Sra. Obama e suas duas filhas foram vistas, através do telão instalado na Pariser Platz, circulando pelo Monumento em Homenagem aos Judeus Assassinados pelo Nazismo, situado a poucos metros do Portão de Brandemburgo. Ressaltando, a partir deste gancho, o valor histórico e cultural do local, ele afirmou ser o Portão de Brandemburgo o símbolo da história alemã: suas guerras, sua divisão, seus protestos. Mais uma vez, vinha à tona o Levante de 17 de Junho e a divisão da Alemanha. Obama disse que escolheu proferir seu discurso do outro lado do Portão: do lado que era inacessível, situado à Leste.

Foi então que Obama lembrou Kennedy e saiu do lugar comum esperado por todos. A famosa frase “Ich bin ein Berliner”. A escola estadunidense John F. Kennedy, que compareceu em peso ao evento, tinha feito uma enorme faixa com esta frase. Ao mencionar a visita de Kennedy e a frase, o público grita e ovaciona o Presidente Obama, que, em tom sério, pediu atenção: “Vocês esqueceram-se do que disse Kennedy logo após proferir esta frase? Ele disse: levantem seus olhos! E esta frase – levantem seus olhos – é, a meu entendimento, mais valiosa e importante que a afirmação ‘eu sou um berlinense’.”

Silêncio total. E veio então o discurso do Presidente dos Estados Unidos da América: um discurso sobre a liberdade e os desafios da democracia.

Afirmou claramente: nós vencemos. Mas termos vencido não significa muito, não significa que podemos nos acomodar e contemplar nossa riqueza e sucesso, nossa vitória, nossa liberdade. Ter derrubado o Muro de Berlim não significa que a história acabou. Nem tampouco que somos livres…

Ser livre não é uma missão individual. É uma missão coletiva, portanto, levantem seus olhos e parem de olhar e pensar apenas em si mesmos. Pensem nos outros oprimidos pelo mundo. Pois enquanto pensarmos somente em nós mesmos, não seremos livres, por maior que seja o progresso econômico e social em nossos países. O mundo não se divide, somos todos um. E não falo aqui da Globalienation, mas sim de algo muito mais profundo, que está na essência de cada ser que ingressa neste mundo a partir de seu nascimento com vida: eu falo do dever de todos nós de cuidarmos uns dos outros para garantir igualdade de chances para qualquer ser humano, não importa o quão distante ou diferente de nós ele seja.

Na sequência, Obama falou das guerras. Da necessidade de isso ter um fim, do peso que é, para todo o mundo, uma guerra. Disse: quero ver livre o Afeganistão e tudo que foi feito para chegar a Al-Qaeda. Chega. Prosseguiu: lutar por segurança significa o fim das armas nucleares. Enquanto houver armas nucleares, onde quer que seja – e aqui incluo os EE.UU. – não teremos paz nem segurança. Por isso, os EE.UU. e a Federação Russa iniciam um diálogo no sentido de efetivamente diminuir seu estoque bélico nuclear e exigir a paulatina, devagar, porém crescente, redução da posse de armas desta natureza até não haver nenhuma nação no mundo com armamentos nucleares.

Guatánamo: se falamos de um mundo melhor e da nossa responsabilidade sobre esse objetivo, em vista de concretizar a meta de um mundo de paz e de concórdia, eu considero, sim, por fim a Guatánamo como uma meta concreta e a ser levada a cabo.

Aos irmão gays e lésbicas, a garantia de respeito. E que nunca mais alguém seja excluído por força do simples fato de ser diferente: sexualmente, na cor, no gênero, na origem. Mulheres, precisamos garantir a elas educação. Jovens, precisamos garantir que eles tenham um futuro, que tenham chances e não sejam dragados pelo monstro do desemprego. Imigrantes, que sejam vistos como concidadãos que nos chegam para trazer seus talentos e criatividade, para enriquecer, não para usurpar coisa alguma. Que a Economia sirva a esta meta: gerar condições de uma educação e de uma qualidade de vida a todos, que lhes permitam ter chances iguais e, principalmente, que consigam afirmar seus talentos, realizar o melhor de si. Palestina: precisamos libertar os palestinos da guerra e refletir sobre sua dignidade também como cidadãos deste mundo, o nosso mundo, que antes de ser uma terra de ninguém, é o lugar, é a terra de todos.

Obama saiu aplaudido. Sorrindo, com seu terno pendurado num dos ombros, conduzindo Merkel como quem conduz a uma pessoa querida, e acenando com seu sorriso e sua mão estendida ao público. Ele trouxe uma mensagem que se alinha a um novo tempo: chega de austeridade, chega de cuidar da Economia. Ele disse: é a Economia que tem de servir e cuidar do bem-estar das pessoas, não o contrário!

São apenas palavras. E, sobre estas, pairam as perguntas sobre o escândalo da espionagem e dos limites de invasão na vida privada. Porém nunca esqueçamos de que quem as proferiu é o homem do Yes, we can! (Sim, nós podemos!). Pelo que estamos testemunhando, no mundo e no Brasil, independente dele, com ele ou sem ele, as suas palavras de ordem foram ouvidas e serão levadas a cabo. Porque nós podemos.

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Uma resposta para Lift your eyes – Levantem seus olhos

  1. fernando moreira machado disse:

    Adoro vocês e tudo que recebo do INB, arquivo para futuras consultas. Não tenho tempo de ler todos os textos, pois trabalho durante o dia e curso Direito à noite.
    Já estou esboçando meu TCC e quero direcioná-lo á cibernética, mais especificamente aos DRONES, com pesquisa voltada à constitucionalidade e aos direitos fundamentais, para a regulamentação dos mesmos.
    Gostaria de contar com a ajuda de vocês.

    Att.,

    Fernando.

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