Palestra do sociólogo Manuel Castells :: Crise na Europa

por Laura Mascaro, de São Paulo | Instituto Norberto Bobbio – INB

Na última quinta-feira, 13 de junho, o Instituto Norberto Bobbio esteve presente na palestra do sociólogo espanhol Manuel Castells, no Instituto Fernando Henrique, que tratou da Crise na Europa.

A palestra de Castells e seu diálogo com o público foram mediados pelo ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso.

Castells pretendeu tratar do que ele considerava as raízes da crise na Europa, e para tanto, iniciou sua palestra com o exemplo da Espanha, que lhe é mais próximo, apontando que a taxa de desemprego no país, como sabemos, está atualmente em 27%, simultaneamente ao encolhimento do Partido Socialista, que tende ao desaparecimento.

Ressaltou ainda, que o fundo da crise nunca é alcançado, sendo que sempre pode se esperar uma piora, sem que haja a perspectiva de melhora.

Considerou também o caso da Alemanha, que teria mantido ou retrocedido os salários reais ao longo dos últimos 10 anos, tendo maior estabilidade econômica às custas de uma política de austeridade por um longo período.

Apesar da profundidade da crise econômica europeia, chama a atenção do sociólogo a crise de legitimidade política, tendo em vista que 75% da população não acredita estar sendo democraticamente representada, à exceção dos escandinavos.

Além disso, ele considera que a crise financeira não é global, não tendo chegado ao Brasil, que experimenta apenas alguns problemas decorrentes dessa crise.

Por outro lado, Castells avalia a existência de uma profunda crise institucional na Europa, que coloca em risco a existência do Euro, uma vez que as instituições europeias foram postas em cheque. E estagnação financeira acarretaria o desaparecimento do Euro ou sua cisão em Euro Norte e Sul, que não se sustentaria.

O cenário político-institucional é composto, dentre outros elementos, pela possibilidade de realização de um referendo pelos ingleses, questionando a respeito de sua permanência na União Europeia, e de saída dos países mais afetados pela crise. Tudo isso colocaria em questão a existência de uma Europa una.

A Alemanha, caminhando no sentido contrário, segundo o sociólogo, pretenderia uma germanização da Europa, com uma estrutura quase federal, sob o controle alemão. Essa intenção seria indicada por decisões como a de intervenção e fiscalização dos ministérios do governo Grego, dentre outras.

Castells recordou as origens da crise econômica nos Estados Unidos, a partir da explosão da bolha imobiliária dos EUA em 2008, com a forte interdependência dos mercados financeiro e imobiliário, e da perda de controle de produtos financeiros criados pelas tecnologias. Esses fatores afetaram a Europa, que não teve capacidade de resposta uma vez que sua economia não é totalmente unificada e que não existe a Europa como um Estado. Segundo ele, unificar economias com níveis de produtividade e competitividade muito diferentes, bem como a moeda, sem a existência de um Banco Central forte, é loucura.

Para o sociólogo, na realidade, a unificação da Europa na UE fez parte de um projeto político idealista, que pretendia evitar a guerra a qualquer custo. No entanto, a formação desta Europa una foi política, não democrática. Por outro lado, a moeda comum teve resistência em quase todos os países da UE. Finalmente, os países que tinham menos capacidade de produção e competitividade, como a Itália e a Espanha, recorreram a empréstimos para se equipararem.

Na Espanha, apesar dos colapsos das caixas econômicas e das poupanças, as entidades financeiras privadas não tiveram problemas essenciais.

A partir do momento em que se iniciam as intervenções nos governos, tudo passou a depender da capacidade de negociação com a Alemanha. Desse modo, a conclusão do teórico é de que a crise não é financeira, nem econômica, mas sim política!

A Alemanha passa a intervir por meio do Banco Central Europeu, com a diretriz de que todos os países devem ser como a Alemanha, seguindo os princípios de sua política econômica, cujo ponto central é o corte absoluto dos gastos públicos. Contudo, a crise se agravou com a política de austeridade, que deprimiu ainda mais as economias.

A política de controle dos gastos públicos seria o reflexo de uma cultura na qual a austeridade representa a sanidade mental e econômica, que pratica o controle por ele mesmo. Dessa maneira, se propõe a alternativa única do avanço para a unificação completa da Europa, sob a Alemanha.

No entanto, Castells não pensa ser essa alternativa viável, uma vez que não existe uma identidade europeia que permita os países terem comportamentos alinhados e conjuntos, para além da propaganda. Assim, seria difícil manter um sistema institucional sem algum tipo de identidade cultural. Existiria uma separação entre o sistema político e a sociedade europeia.

A intervenção em Chipre é um exemplo dessa nova conjuntura, sendo que ou o país aceitava as imposições da Alemanha e de seus aliados, ou sofreria com uma política de destruição econômica.

A Itália, por seu turno, apresentou indícios da crise de legitimidade que ocorre em diversos países europeus, com o surgimento do movimento Cinco Estrelas, cujas propostas se baseiam em uma democracia realizada por meio da internet e na saída do Euro. Além disso, o Partido Democrático italiano, que pretendia acabar com Berlusconi, foi obrigado a pactuar com ele para garantir sua governabilidade, o que impactou fortemente na legitimidade da classe política.

Por fim, Castells acredita haver uma ruptura radical com a juventude, além do envelhecimento da população.

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Eventos. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s