Obrigado, Brasil!

O que os sul-africanos em 2010 e mesmo os alemães em 2006 não ousaram fazer, assumem agora os brasileiros. Um povo se eleva contra a FIFA. Haverá consequências, comenta C. Spiller.

[matéria publicada no semanário alemão Die Zeit, em 23.06.2013 – Tradução: Ludmyla Franca]

Com isso não contaram os senhores da Federação Internacional de Futebol (FIFA). Um milhão de pessoas na noite de quinta-feira, em 100 cidades, protestando contra os caros estádios e o gigantismo da FIFA. Sobretudo no Brasil, a terra onde há as pessoas mais fanáticas por futebol no mundo, na qual homens ficam nas ruas a fazer malabarismos com a bola e ganhando dinheiro com isso.

Os protestos se direcionam naturalmente não apenas contra a FIFA. Para as pessoas trata-se da incapacidade de seu governo, que não consegue igualar o desenvolvimento social ao econômico. Para elas trata-se da corrupção e da inflação. A isto se liga indissoluvelmente a prostração do governo brasileiro perante a FIFA e o COI, os guardiães da Copa do Mundo 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016.

As pessoas estão furiosas, pois que seu país aceita a postura do „coma ou morra“, que a FIFA e o COI tem imposto aos países que acolhem os jogos. Nos contratos de adesão das organizações multibilionárias cheias de benefícios fiscais, na exclusividade para seus patrocinadores multibilionários e nas suas exigências vergonhosas de estádios ainda maiores, hotéis e aeroportos.

Os brasileiros não se permitem mais submeter-se a isso. Ninguém deveria ter que passar fome em função do circo dos esportes. Ninguém deve servir de bastidores para imagens ensolaradas da Copa e das Olimpíadas, sem ter condições de pagar pelo transporte, pelo pão e pela educação. Já que se trata de padrão FIFA, então, por favor, também queremos este padrão para hospitais e escolas. Assim exigem os brasileiros nas ruas. E eles são os primeiros fanáticos por esportes do mundo a pronunciar isto em voz alta.

As pessoas no Rio, em São Paulo e em Belo Horizonte prestam assim ao mundo inteiro um enorme favor. Seus protestos não só atestam a maturidade democrática de um país que foi governado por generais há 30 anos atrás. Eles estabelecem aos gigantes dos esportes um sinal de limite: até este ponto, e não mais. Finalmente, eleva-se uma democracia contra a profundamente antidemocrática FIFA. O que a África do Sul em 2010 e sequer Alemanha em 2006 não se atreveram a fazer, assume agora um país emergente que está lutando por seu lugar no mundo.

Há poucos meses atrás, primeiro os cidadãos de Viena e posteriormente os cidadãos do Cantão Suíço Graubünden recusaram, num futuro próximo, a realização dos Jogos Olímpicos em suas cidades. Grande demais, caro demais, nós não precisamos. Um estudo dinamarquês do ano de 2011 mostra que os grandes eventos esportivos se deslocam das democracias europeias e estadunidense para estados autoritários, onde ninguém esculhamba. Depois da China, Rússia, Qatar. O Brasil era quase como uma exceção democrática. As consequências podem ser vistas agora.

Mas quem lê estudos dinamarqueses? As pessoas no Brasil levam essa insustentabilidade para as ruas. A FIFA e o COI vão começar a refletir diante do quadro. Em se transferindo para países regidos autoritariamente, mais cedo ou mais tarde eles perdem sua legitimidade democrática. Eles precisam incluir o anfitrião, permitir que ele participe, inclusive financeiramente. Os eventos devem ser mais modestos, mais transparentes, mais individuais.

As principais federações desportivas terão de se repensar. Isso vai ser bom para todos, incluindo para os atletas e as competições, cada vez mais marginalizados nesses megaeventos. Por isso: obrigado, Brasil!

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