Grã-Bretanha: de volta à era vitoriana?

Por Roberto Sávio | Envolverde

Um informe recente do Centro de Análises de Exclusão Social na London School of Economics prevê que, se continuar no atual ritmo de desigualdade, em 2025 a Grã-Bretanha voltará a viver a realidade social injusta que a caracterizava no final do século 19. Em outras palavras, estamos retrocedendo aos tempos da rainha Vitória!

Em 2010, a renda dos principais executivos das cem maiores empresas britânicas aumentaram 49%, enquanto o aumento salarial médio foi de 2,7%. Segundo um informe da Autoridade Bancária Europeia, em 2011 havia 2.436 banqueiros britânicos que ganhavam por ano mais de um milhão de euros (US$ 1,3 milhão), contra 162 na França e 36 na Holanda com essa renda.

A tendência mundial é a mesma. Na China há 1,3 milhão de milionários.

A Forbes, a revista dos ricos, informa alegremente que registra 1.426 multimilionários no mundo, incluídos 122 na China, com patrimônio líquido de US$ 5,4 trilhões.

Isto significa que a riqueza combinada dos multimilionários da Forbes supera o orçamento federal dos Estados Unidos para este ano, de US$ 3,8 trilhões. E se somarmos as fortunas conjuntas dos dez primeiros multimilionários teremos o resultado de US$ 451 bilhões.

Se colocássemos em um avião as 300 pessoas mais ricas do mundo, sua fortuna superaria o patrimônio combinado de três bilhões de pessoas, quase metade da humanidade.

Paul Krugman e Joseph Stigliz, ganhadores do prêmio Nobel de Economia, escreveram extensivamente sobre como as injustiças sociais freiam o desenvolvimento e fomentam crises econômicas.

Krugman documentou que as crises de 1929 e 2008 foram acompanhadas de aumento da desigualdade.

Na década de 1930 foram tomadas medidas contundentes para enfrentar a desigualdade e os interesses ocultos. No mundo atual, esta deve ser nossa principal reflexão, algo que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não fez. Não esqueçamos que nos tempos de Charles Dickens, Karl Marx denunciava a exploração infantil nas minas britânicas.

Em 1848, a Europa foi sacudida por uma série de convulsões sociais provocadas pela exploração extrema dos trabalhadores. Apesar da repressão, os sindicatos se expandiram e nasceu um movimento político progressista. Marx deu um contexto científico a esta onda crescente, e em 1917, quando triunfou a Revolução Russa, o capitalismo se sentiu ameaçado.

Para conjurar o perigo, muitos países adotaram reformas. Foram legalizados os sindicatos, integrando-os ao sistema político, a esquerda entrou nos parlamentos e houve uma série de iniciativas para dar respostas às demandas populares.

Depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o mundo se transformou rapidamente. Os valores de governança tinham uma forte carga social, que também constava das constituições nacionais: a justiça social, a igualdade, a participação, os direitos trabalhistas, os direitos humanos, a promoção da mulher, a educação para todos, etc.

Mas, façamos uma pausa: seria possível hoje em dia adotar a Declaração Universal dos Direitos Humanos? Os Estados Unidos se comprometeriam a pagar 25% do orçamento da Organização das Nações Unidas (ONU)?

Com a queda do Muro de Berlim (1989) surgiu um novo mundo. O capitalismo, e não o Ocidente, foi o ganhador. E quiseram nos fazer crer que a globalização, entendida como total liberdade para o capital e os investimentos (não para os bens e pessoas), produziria e difundiria bem-estar, segundo a teoria do derrame.

O resultado foi diferente: concentração, iniquidade e evasão de impostos. E já que tanto se publicou sobre paraísos fiscais, espero que baste recordar que eles abrigam US$ 32 trilhões.

A Associação de Bancos Americanos reconhece ter gasto US$ 800 milhões no ano passado fazendo lobby contra a lei de reforma financeira norte-americana, chamada Dodd-Frank, aprovada há mais de três anos. Mas, graças à campanha dos banqueiros, 240 das 398 regras incluídas nessa lei não entraram em vigor.

Desta forma, a verdadeira pergunta é, se em uma sociedade profundamente injusta, a democracia pode funcionar. Ou simplesmente se converte em um mecanismo formal a serviço dos que fazem parte do sistema, ignorando os excluídos? Compartilham a mesma visão do mundo os 300 multimilionários a bordo do avião com os três bilhões de pobres? E, se não é assim, sua visão do mundo conta tanto como a dos 300 multimilionários?

Sabemos que para o tipo de democracia da época vitoriana os indivíduos não eram iguais e estamos conscientes da quantidade de sangue e sacrifícios que foram necessários para alcançar o período de expansão e harmonia social do qual pudemos desfrutar até 1989. Mas, ouviu-se os Obama, as (Angela) Merkel, os (David) Cameron, questionarem sobre esta volta ao passado?

Não esqueçamos o caso de Silvio Berlusconi, o magnata italiano que criou e financiou seu próprio partido, exerceu quatro vezes o cargo de primeiro-ministro, foi declarado culpado de fraude contra o Estado e agora dele depende a estabilidade de seu país. É um expoente da democracia atual, mas, esta é um autêntica democracia? Envolverde/IPS

* Roberto Savio é fundador e presidente emérito da agência de notícias IPS (Inter Press Service) e editor do Other News.

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