Espanhola é despedida por conta de faltas para acompanhar o próprio despejo

Amaya Muñoz representa o drama da população espanhola frente às políticas de austeridade: sem emprego e sem casa

por Opera Mundi

“Você já tem idade suficiente para saber quais são as suas responsabilidades. Atente-se às consequências”. Foi assim que Amaya Muñoz, uma espanhola de 31 anos, soube de sua chefe que estava sendo demitida. A razão foi explicada pela seção de Recursos Humanos da empresa de marketing na qual trabalhava: havia faltado 20% das jornadas em dois meses consecutivos.

Ausências para acompanhar o próprio despejo do apartamento por não ter conseguido pagar a parcela mensal de 600 euros. Depois de acompanhar mais de 100 policiais espanhóis tirarem suas coisas à força, a jovem obteve licença médica do trabalho por questões psicológicas.

Amaya voltou ao emprego ainda em setembro e tudo seguiu normalmente até esta sexta-feira (25/10), quando obteve a inesperada notícia. Meia hora antes do final de seu turno, ela recebeu um telefonema do departamento de Recursos Humanos. “Pensei que iríamos falar sobre as horas extras que eu tinha me oferecido a fazer”, conta ela.

“Não tem sentido que me despeçam por faltas justificadas”, acrescenta. Mas a nova legislação trabalhista espanhola, aprovada no ano passado como parte do programa de austeridade contra a crise econômica, embasa a decisão da empresa. Foi a mesma reforma que amedrontou tanto a marroquina Latifa que com medo de perder seu emprego por faltas, deixou de ir ao médico e morreu, em março de 2012, de pneumonia.

Tanto Latifa quanto Amaya eram empregadas da Konecta, uma teleoperadora com cerca de 700 funcionários, em sua grande maioria mulheres, com salário médio de 900 euros mensais e extensos turnos. O grupo faturou 307 milhões de euros em 2012, segundo dados oficiais.

Drama de muitos

Vítima da crise, da precarização do trabalho, do despejo e das políticas do governo, sua história se tornou um símbolo do drama de milhares de espanhóis. A jovem sofreu os dois golpes mais duros que assolam a população: perder a casa e o emprego; não importa em que ordem. Amaya é apenas mais uma dos 6 milhões de desempregados no país e dos 420 mil que não conseguiram pagar as prestações de seus imóveis.

Em um ano de atraso da mensalidade de sua casa, Amaya acumulou uma divida de 8 mil euros.

Em sua solidariedade e para sua readmissão na empresa, foi convocado um protesto nesta terça e dezenas de internautas enviam mensagens rechaçando a Konecta nas redes sociais. O ato foi chamado também pelo Twitter da PAH (Plataforma dos Afetados pela Hipoteca, na sigla em espanhol), considerado o principal movimento social contra os despejos no país.

Na Espanha, o preço das casas aumentou de 326 euros o metro quadrado, em dezembro de 1985, para 2,9 mil em dezembro de 2007. Além do aumento vertiginoso, o desemprego no país cresceu, levando milhares de pessoas a se tornarem devedoras de bancos.

Calcula-se que cerca de 350 mil execuções hipotecárias foram concluídas desde o início da crise imobiliária no país. Atualmente, estarão em curso outras 200 mil ações que poderão levar ao despejo de famílias inteiras. Estima-se, em média, que as autoridades espanholas executam 500 despejos a cada dia.

Enquanto o número de pessoas sem moradia aumenta, cresce também o número de residências vazias pelo país. Segundo dados oficiais, existem 3,4 milhões de casas inabitadas, entre as quais cerca de 25% são edifícios construídos nos últimos dez anos em pleno boom da construção imobiliária da Espanha.

Resistências

Depois de ajudar a jovem, a PAH encaminhou seu caso para a CGT (Confederação Geral do Trabalho da Espanha). A partir do contato com o sindicato, Amaya disse que irá entrar na justiça contra sua demissão. “Quero denunciar para encorajar outras pessoas que trabalham na empresa ou em outras em situação semelhante a minha”, disse ela. “Não é justo ser despedida por este motivo, independentemente o que diga a reforma trabalhista”.

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