Resultados de protestos na Espanha, Turquia e EUA levam ativistas a procurar novos caminhos

por Opera Mundi

O mundo não é o mesmo depois do acampamento de ativistas no coração financeiro de Nova York, dos “indignados” da Espanha, dos protestos no mundo árabe, das revoltas urbanas na Turquia e no Brasil. A conclusão traz dúvidas e problemas, agora que os manifestantes já voltaram para casa. Em busca de respostas coletivas, dezenas de ativistas de diversos países ao redor do mundo se reuniram nesta semana em São Paulo no evento “Como construir o comum: as revoltas globais nas redes e nas ruas”.

Nas mesas e corredores, não faltaram questionamentos e polêmicas – até mesmo o seminário foi alvo de críticas por seu formato e financiamento estatal – nem relatos de quem esteve nas ruas à procura de mudanças significativas.

Opera Mundi esteve lá e procurou descobrir o que aconteceu com movimentos de destaque como o Occupy Wall Street (EUA), o 15M (Espanha) e o #DirenGezi (Turquia). Conhecidos por possuírem as mesmas insatisfações contra organizações políticas tradicionais e métodos comuns de autogestão e horizontalidade, agora, cada grupo trilha um caminho diferente, mas com a certeza de que sem as primeiras revoltas, nada disso seria possível.

EUA: Depois da ‘desintoxicação’, muitos projetos  

“O discurso político nos EUA é tóxico, apenas importam duas coisas: a não violência e as eleições. Nós viemos para mudar a ideia norte-americana de participação política”. É assim que o ativista Chepe entende o Occupy Wall Street, movimento do qual fez parte entre os meses de setembro e novembro de 2011, quando milhares de pessoas acamparam em pleno coração financeiro de Nova York contra o sistema político e econômico do país.

Apesar de jovem – como a maioria dos membros do grupo –, o ativista carrega uma larga bagagem em movimentos sociais e diz que as coisas mudaram depois da ocupação em Wall Street. Ele lembra que em fevereiro de 2011, seis meses antes do surgimento do grupo, houve uma grande mobilização no estado de Wisconsin, na qual os manifestantes não tiveram sucesso.

“O Occupy acabou por se tornar um espaço livre para fazer política, onde muitas pessoas se encontraram”, conta. “A partir deste espaço, se criaram grupos, movimentos, ativistas e projetos – que nunca teriam acontecido sem o Occupy”. Entre uma lista imensa de novos movimentos, Chepe mostra que o cenário da luta social se prolifera e intensifica nos EUA – um país que ele mesmo classifica como “pouco politizado”.

Um dos projetos que vieram do Occupy Wall Street vem ganhando destaque é o Strike Debt (“ataque à dívida”, na tradução livre para o português). Definido como um “movimento de resistência” e de “Justiça econômica e liberdade democrática”, a iniciativa procura resgatar pessoas endividadas. Lançada há pouco mais de um ano, já conseguir arrecadar mais de US$ 630 mil dólares, abolindo cerca de US$ 14 milhões em dívidas. O princípio é simples: assim como os bancos foram resgatados pelo governo dos Estados Unidos, o Occupy Wall Street quer resgatar o 99% da população.

 “O Occupy foi como uma injeção na veia de esquerda e na esquerda”, conclui Chepe.

15M: das assembleias ao partido “antipartido”

Os ativistas espanhóis Javier Toret e Raul Cedillo entendem que a situação em seu país não foi diferente: assim como o Occupy, o movimento dos indignados criou uma situação política propícia à luta social. “O mais importante é que nada do que está acontecendo agora aconteceria sem o 15M”, diz Cedillho.

O 15M faz referência ao dia 15 de maio de 2011, quando centenas de pessoas, depois de uma convocação nas redes sociais, começaram a acampar nas praças das principais cidades espanholas em um rechaço ao governo, às políticas de austeridade e, sobretudo, ao sistema político e financeiro. O movimento – um dos primeiros a pedir por “democracia real já” – não tinha demandas concretas, reunindo diferentes pautas.

“O objetivo era despertar uma catarse na sociedade, por isso a característica universal do 15M”, diz Toret. Das críticas gerais à democracia capitalista surgiram, no bojo e na esteira do movimento espanhol, grupos com objetivos mais específicos.

O ativistas que participaram do 15M fundaram um novo partido – um “antipartido”, dizem –, batizado de “X”. A organização, formada no início deste ano, se propõe a estabelecer a “verdadeira democracia” por meio de quatro mecanismos: referendos para validar decisões legislativas estruturais; elaboração de novo texto constitucional com a participação de cidadãos (o “wikigoverno”); o direito ao voto permanente; e, a transparência em todos os âmbitos da administração pública.

Turquia: momento de reflexão

Milhares de pessoas saíram às ruas em mais de 60 cidades turcas para protestar entre os meses de maio e junho deste ano. Os planos do governo de transformar o Parque Gezi, em Istambul, em um complexo com uma nova mesquita e um shopping desencadearam a onda de manifestações. A repressão da polícia, que deixou ao menos 11 mortos, apenas fez o movimento crescer.

“Existiam muitas e muitas mulheres na frente dos atos, confrontando a polícia, não se deixando calar”, lembra a ativista Begum Firat. “Estavam lá membros do movimento LGBT, estudantes, jovens urbanos, torcedores das organizadas dos três principais clubes do país”.

Para ela, o parque, assim como as passagens do transporte público no Brasil, se tornou um símbolo por meio do qual toda a raiva e insatisfação contra o governo e a forma de vida nas cidades foram canalizadas. “Foi muito semelhante ao caso brasileiro, nós também estamos discutindo a questão ao direito à cidade”, afirma. “A Turquia está passando por um processo gentrificação, desmatamento; grandes mudanças na política urbana”.

A explosão das revoltas, no entanto, foi uma grande surpresa e a forma como o movimento se organizou também, diz Begum. Agora, segundo ela, os movimentos saíram das ruas para refletir sobre tudo o que aconteceu e pensar em novos jeitos de fazer política. “Nada será o mesmo depois de Taksim: são novas barreiras e a responsabilidade é maior ainda”, desabafa. “Como vamos fazer quando as pessoas não estão mais nas ruas? Como vamos manter o movimento avançando?”, questiona.

Mesmo sem saber a resposta, a ativista atenta para a tentativa de forças políticas partidárias tentarem cooptar o movimento tendo em vista as próximas eleições em março do ano que vem. “Muitos estão se perguntando ‘quem será o nosso candidato?’, mas, isso é uma questão errada depois de tudo o que aconteceu. Nós estamos questionando o sistema da democracia liberal”, conclui.

“A única forma de nos reinventar é criar um partido antipartido, que utiliza os mecanismos eleitorais para expulsar o 1%; uma dinâmica insurrecional que clama que o velho sistema eleitoral está morto”, diz Cedillo. “A repetição nostálgica não serve para nada, temos que inovar”, acrescenta.

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