O efeito Fukushima na Alemanha

Flávio Aguiar | Brasil de Fato

O acidente na usina nuclear de Fukushima, em março de 2011, provocou uma das reviravoltas mais espetaculares na normalmente lenta, segura e gradual política alemã.

Em 2010, as usinas nucleares alemãs respondiam por mais de 20% da energia elétrica consumida no país. Já houvera um plano para fechá-las, articulado quando o SPD e o Partido Verde estavam no poder. O plano de fechamento se estenderia até 2021/2022. Porém com a tomada do poder por uma coligação mais conservadora, no segundo mandato da chanceler Angela Merkel, entre seu partido, a União Democrata Cristã (CDU), a União Social Cristã (CSU)  da Baviera e o liberal FDP, o plano de congelar as usinas nucleares é que foi parar na geladeira, inclusive porque o lobby das empresas comprometidas com o setor era muioto forte, e haveria o problema  do custo das indenizações pela suspensão dos contratos. O fechamento foi protelado até 2034, talvez 2036.

O desastre de Fukushima mudou radicalmente o cenário. O movimento anti-nuclear na Alemanha sempre foi muito forte, sobretudo na antiga Alemanha Ocidental. Nos tempos da Guerra Fria as duas Alemanhas, face a face, eram as vitrinas dos lados em contenda. Se houvesse um conflito armado entre a OTAN, de um lado, e o Pacto de Varsóvia, do outro, certamente as Alemanhas seriam mais uma vez um campo privilegiado de batalha. Se o confronto descambasse para o uso de ogivas nucleares, o efeito na Alemanha seria devastador. Além disto, o passado militar da Alemanha dava combustível sem parar para movimentos pacifistas, um dos sustentáculos mais vigorosos do Partido Verde.

Depois de Fukushima os protestos contra as usinas nucleares na Alemanha cresceram enormemente. A chanceler Angela Merkel percebeu logo a gravidade da situação – não só das usinas nucleares em escala mundial – mas também a do risco que seu futuro político corria. Numa manobra digna de grandes estrategistas, ela antecipou-se aos acontecimentos. Num giro de 180 graus tornou seu partido, a CDU, o campeão da causa do fechamento das usinas, a começar atropelando a oposição que havia dentro dele.

As outras peças foram caindo como naquela teoria do dominó. A última pedra a cair foi o Bundestag, onde o Partido Verde e o SPD ficaram praticamente sem ter o que dizer. E por consenso (quase unanimidade) o Parlamento Alemão fechou questão: oito das 17 usinas foram fechadas imediatamente, e o fechamento das demais se daria mesmo até 2022. O plano é neste íterim substituir a produção das usinas basicamente por energia eólica produzida no Mar Báltico e repassada para todo o país por meio de uma rede de cabos de alta tensão em construção. Além disto, parte da energia poduzida seria utilizada para juntar água em reservatórios elevados, que pudesse ser usada para produzir energia quando houvesse queda nos ventos marítimos. Como a Alemanha é um país basicamente plano, em vários locais é necessário construir artificialmente tais reservatórios elevados.

Aqui começaram as contradições, que vêm causando discussões e polêmicas em todo o país. Primeiro, o custo do preço a ser pago pelos consumidores tende a subir – sobretudo o custo da energia de consumo doméstico. Segundo, a construção da rede de cabos e dos reservatórios provocou novos movimentos ecológicos: ninguém os quer nas proximidades de sua residência ou cidade, pelos possíveis efeitos negativos sobre a paisagem e também o meio-ambiente. Terceiro, enquanto a rede toda não fica pronta, a Alemanha passou a importar energia de países vizinhos, como França, Suíça e República Tcheca – produzida em… usinas nucleares.

Apesar disto, o plano continua de pé. Mas os seus efeitos não se limitaram ao plano energético ou ambiental. Houve efeitos no plano político. Quem mais se ressente hoje da decisão tomada pelo governo de Merkel – que teve de apoiar – é o PV. Parte da base do partido já ficara abalada com a troca feita com o SPD quando ele estava no poder: se de um lado conseguira a promessa da eliminação das usinas, do outro tivera que abonar o envio de tropas da Alemanha para o Afeganistão, como país membro da OTAN.

Com isto, por exemplo, o PV perdera parte de seu eleitorado para a Linke, partido então relativamente recém criado, e que mantivera a oposição a intervenções armadas alemãs. O roque enxadrístico feito pela chanceler veio também esvaziar a bandeira mais cara do PV: a eliminação das usinas, causa de queaté ale ele fora o maior campeão. Desde então o PV veio perdendo força, até hoje, em 2013, ter perdido a posição de terceira força no Bundestag para a Linke, ainda que por uma diferença mínima de cadeiras no Parlamento.

Tudo efeito de Fukushima.

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