Em eleição com alta abstenção, moradores de bairros pobres do Chile não votam por falta de dinheiro

por Opera Mundi

Enquanto os candidatos presidenciais reclamam da alta abstenção – na casa dos 50% – no primeiro turno da eleição chilena, moradores de bairros mais pobres de Santiago contam moedas para tentar saber como vão chegar aos locais de votação. Como o comparecimento ao pleito não é obrigatório, muitos deixam de votar por falta de dinheiro para usar o transporte público.

Desde que o país implantou o sistema de voto voluntário, nas eleições municipais de 2012, a taxa de abstenção alcançou ou superou os 50%. Nos distritos de baixa renda, a evasão foi muito maior. Em alguns casos, mais de 60% dos inscritos deixaram de votar. Em comparação, neste ano, o comparecimento de eleitores de bairros mais ricos chegou, na média, a 75%.

A reportagem de Opera Mundi visitou três dos bairros mais vulneráveis de Santiago, conversou com moradores e líderes comunitários sobre os problemas na hora de ir votar e viu que, por mais que muitos queiram depositar seu voto neste domingo (13/12), seja para a ex-presidente Michelle Bachelet, seja para a governista Evelyn Matthei, nem todos têm condições de chegar à urna.

O preço do voto

Dono de uma pequena barraca que vende bebidas, próximo a um terminal rodoviário, Raúl Gómez Pérez é um histórico eleitor da esquerda no Chile. Aos 72 anos e com dificuldades para se locomover, disse, porém, que este ano não pretende participar das eleições, apesar de torcer pela vitória de Bachelet. “Na minha idade, não é fácil sair de casa, enfrentar o sol de mais de 30ºC que vem fazendo, para ir a uma escola onde tenho que subir três lances de escada para chegar à mesa eleitoral”.

Além dos problemas com o clima e com a estrutura do colégio eleitoral, Pérez lembrou o empecilho econômico, que também o impede de votar. O voto voluntário impôs um novo sistema de inscrição automática – antes, o eleitor escolhia se queria se inscrever ou não, e, uma vez inscrito, o voto era obrigatório – e essa reforma utilizou um sistema randômico para apontar onde vota cada eleitor. Nesse sistema, muitos eleitores terminaram sendo colocados em colégios eleitorais distantes de suas residências.

“Para ir e voltar da escola [onde vota], eu gasto 1200 pesos (equivalente a R$ 5,29), e isso para faz diferença para mim e para muita gente. Dos meus filhos, que também estão empolgados, só vão votar aqueles que têm dinheiro para fazer essa viagem”, contou o vendedor.

Esse caso ainda é um dos menos complicados, já que ele só precisa de uma locomoção para chegar ao local de votação. Alguns santiaguinos que precisam tomar dois transportes para ir e mais dois para voltar chegam a gastar até cinco mil pesos (R$ 22) para poder votar.

Para o sociólogo Axel Callis, do Instituto Impakta, o “preço do voto” é o que marca a diferença na participação observada nos bairros ricos e nos bairros pobres de Santiago. “Essa barreira econômica faz com que tenhamos que questionar se existe realmente um voto voluntário no Chile, se uma pessoa que quer votar não pode fazê-lo porque não tem dinheiro para isso. Temos um sistema que não dá igualdade de condições a todos os eleitores, e isso também afeta o resultado final das urnas”, analisa.

Por sua parte, o Servel (Serviço Eleitoral chileno) reconhece que existem problemas com o fato de que as pessoas tenham que votar em colégios distantes de suas residências. O presidente do órgão, Patricio Santa María, falou sobre as dificuldades e aproveitou para comentar a solicitação feita pelo comando de Michelle Bachelet, de transporte gratuito em todo o país no dia da eleição – o que foi negado.

“Foi um pedido feito de última hora, que não permitiu maior gestão. Mas, no futuro, poderemos aperfeiçoar mais esse sistema. Esta é apenas a segunda eleição com voto voluntário. Com o passar dos anos, nós faremos os ajustes que vamos vendo que são necessários”, reconheceu Santa María.

Trabalho de convencimento

Na favela de La Victoria, uma das mais antigas e mais representativas de Santiago, sobretudo por sua história de enfrentamentos com os militares durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), o sol de 33ºC, que não dá trégua desde o começo de novembro, parece transformar as ruas numa continuação do deserto do Atacama, no norte do país.

Sob esse clima escaldante e seco, José Medel, representante da associação de moradores, tenta conversar e convencer os vizinhos a não deixar de votar neste domingo (15/12). José caminha com calma, se aproxima de um companheiro, depois vai até um portão, onde conversa com uma dona de casa, e, assim, de parada em parada, vai recorrendo todo um setor do bairro. Sempre pergunta como está o ânimo para o dia das eleições, e aproveita para estimular as pessoas a votar.

“Conversar é fácil, mas convencer é que é o problema. Algumas [pessoas] estão inscritas em locais aonde os ônibus não chegam, precisam tomar “coletivos” [taxis com preço e itinerário fixo] ou taxis convencionais, e é um preço que nem todos estão dispostos a pagar por um voto”, explica ele.

Militante comunista, Medel é um eleitor desconfiado de Bachelet. “A maioria das pessoas aqui em La Victoria vota sempre com a esquerda, e se vão a votar o farão por Bachelet, mas esse voto pode se voltar contra ela se não se sua promessa de reformas não se cumprir”, comenta o dirigente comunitário.

Mapuches

Na comuna de Cerro Navia, também entre as mais pobres regiões da zona sudoeste de Santiago, outro dirigente de bairro trabalha todos os dias tentando evitar a abstenção em seu setor. Ele também reconhece as dificuldades econômicas que afetam a maioria dos seus vizinhos, mas acha que pode conseguir levar mais gente a votar neste segundo turno que no primeiro.

Trata-se de Bernardo Cariceo, líder da comunidade mapuche de Cerro Navia, a maior organização de indígenas da zona urbana – cerca de 32% dos mapuches da capital chilena vivem nessa comuna.

Durante o governo de Sebastián Piñera, Bernardo conseguiu que fosse construído um setor de casas populares especialmente para os mapuches, onde vivem 148 famílias. Por essa razão, o dirigente tem trabalhado pela candidatura da governista Matthei nestas eleições. “As pessoas se surpreendem por ver mapuches de direita, mas eu tenho que ser consequente. A senhora Bachelet já foi presidente e utilizou a Lei Antiterrorista contra os mapuches, e o governo de direita nos construiu isso aqui”, diz.

Bernardo diz, porém, que sua preferência atual pela candidatura de direita não representa a totalidade do mundo mapuche. “Somos mapuches das zonas urbanas, com problema diferentes daqueles que vivem nos territórios históricos, no sul do país. Lá, eles são mais desconfiados de todos, porque todos os governos foram violentos com as aldeias. Aqui, temos outros problemas e votamos de acordo com o que a autoridade nos oferece para resolvê-los”.

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