Podemos: na Espanha, nova iniciativa de democracia digital

Por Marina Terra | Opera Mundi

Protagonismo popular. Isso é o que promete o Podemos, nova iniciativa política lançada nesta sexta-feira (17/01) na Espanha, país cuja população sofre desde a eclosão da crise com o aumento vertiginoso do desemprego e da pobreza. Intelectuais e membros de movimentos sociais disseram que se trata de um novo método participativo, pensado para “transformar a indignação em mudança política”. A principal plataforma de diálogo e construção da proposta? A internet.

“Disseram nas praças que, sim, é possível, e nós dizemos hoje que podemos”, afirmou na coletiva de imprensa de lançamento do projeto o politólogo e professor da Universidade Complutense de Madri, Pablo Iglesias. Segundo ele, não se trata de um novo partido nem de um novo produto: é uma iniciativa que propõe a participação das pessoas, sendo que o “primeiro teste” serão as eleições europeias de maio de 2014.

Ele ressaltou que o movimento não busca concretamente um assento no Parlamento Europeu, e tampouco pretende fragmentar a esquerda espanhola. “O Podemos nasce com a mão estendida a todos, mas com claros limites com relação aos direitos humanos e à luta contra os recortes sociais”, garantiu, complementando que querem a participação de movimentos sociais e “marés cidadãs”, mas sem representá-los, pois os “movimentos são irrepresentáveis”.

Desde o início da crise, diversas demonstrações de descontentamento social aconteceram na Espanha, sendo uma das principais a irrupção do movimento 15M em maio de 2011, quando o país ainda era governado pelo PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol). Com a vitória do PP (Partido Popular) nas eleições daquele ano, não foram poucos os que culparam o 15M pela derrota da social-democracia, criticando o fato de o movimento não ter construído uma candidatura e nem apoiado o PSOE frente à direita.

Próximas etapas

De acordo com Iglesias, o passo inicial é conseguir 50 mil assinaturas no site do Podemosantes de 8 de fevereiro. Em seguida, serão escolhidas as “cabeças” do movimento, que pode ser “qualquer pessoa” que se apresente. O responsável pela organização da iniciativa, o ativista social Miguel Urbán, deu mais detalhes: “a ideia é construir desde baixo o processo, onde mesclemos tanto a participação online como a participação física. Vamos abrir um sistema de intranet, uma rede social interna, para que todo mundo que se inscreva possa participar da construção do Podemos”.

Segundo ele, as próximas etapas serão o uso de uma plataforma online para construir colaborativamente o programa do Podemos e depois, a construção de comitês de apoio e assembleias. “Essa candidatura nasce com zero euros, zero apoio dos bancos, zero apoio das instituições, e quer ter 100% de apoio popular. Isso será financiado pelas pessoas. Será uma forma de medir também se esse é um instrumento útil ou não”, sublinhou Urbán, membro da Esquerda Anticapitalista Espanhola.

Portanto, explicou, “será aberto um sistema na web para que todos apoiem não só com suas assinaturas, com o tempo que pode ser dado para o Podemos ser construído, mas que também seja financiado pelas pessoas”, finalizando: “ podemos dar um passo adiante, mas as pessoas dirão se é possível. Eu acho que podemos.”

“Iniciativa atípica”

Depois, o responsável pela comunicação e estratégia política do Podemos, o analista e pesquisador Íñigo Errejón, ressaltou que o projeto não pretende “ser uma opção a mais no mercado eleitoral” e sim a tentativa de abertura de “um protagonismo popular e cidadão”. Consultor de vários governos latino-americanos, como o venezuelano, Errejón concordou que a iniciativa é atípica, “mas isso acontece pois igualmente é atípico o momento no qual vivemos”.

“Como frente a tanto descontentamento, tantos protestos, inclusive de setores que nunca tinham protestado, ainda não houve uma mudança política?”, são as perguntas que sempre escutei na América Latina, contou o pesquisador.

“É preciso ler os avanços das mobilizações sociais dos últimos anos. O cenário social e cultural, de baixo, já vem mudando. Basta escutar as conversas no bar ou no ônibus. Mas enquanto há a movimentação abaixo, o cenário político não pode permanecer sozinho. Acreditamos que ele pode e deve ser aberto”, pontuou. “Queremos mudar o tabuleiro e as regras dele para que os resultados sejam diferentes. Para que dessa vez possamos ganhar os peões.”

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