Eleições europeias confirmam avanço da direita

Populistas e eurocéticos capitalizam insatisfação com política interna nos países-membros, lucram com voto de protesto e crescem dentro do Parlamento da UE. Divisão entre eles, porém, dificulta capacidade de ação.

por DW

“Europa? Não, obrigado.” Os resultados parciais das eleições para o Parlamento Europeu indicam um avanço dos partidos populistas de direita ou eurocríticos, em vários dos 28 Estados-membros da União Europeia. Ou seja: cerca de 140 dos 751 assentos do Legislativo comunitário serão ocupados por deputados que, ou não concordam com a forma como a UE funciona atualmente, ou rejeitam radicalmente a instituição europeia.

O desempenho de maior destaque foi o da francesa Frente Nacional (FN), de extrema direita. O grupamento antieuropeu e xenófobo, liderado por Marine Le Pen, passará a deter 24 mandatos parlamentares, tendo alcançado cerca de 25% dos votos na França – 18 pontos percentuais a mais do que no último pleito da UE.

Com 27% (24 assentos), o eurocético UK Independence Party (Ukip) é a bancada mais forte do Reino Unido, ultrapassando o Partido Trabalhista do chefe de governo David Cameron. Na Áustria, o populista de direita Partido da Liberdade (FPÖ) ganhou mais oito pontos percentuais, conquistando 20,5% dos votos em todo o país. Os países escandinavos são igualmente responsáveis por um maior número de agremiações de direita no Parlamento em Estrasburgo.

Advertência aos governos

O cientista político alemão Tim Spier, porém, não interpreta os resultados das urnas de modo tão drástico como tem feito boa parte dos meios de comunicação europeus. O pesquisador do populismo de direita pela Universidade de Siegen não detecta uma rejeição generalizada em relação à União Europeia.

“Naturalmente, esses números deveriam nos fazer pensar, mas é preciso sempre considerar os resultados no contexto nacional. Muitos eleitores querem dar uma advertência a seus dirigentes”, explica Spier. “Os franceses estão muito insatisfeitos com o atual governo nacional. Nestas eleições, ele foi castigado pelo seu próprio eleitorado.”

O também especialista em ciências políticas Klaus Goetz expressa opinião semelhante. “As eleições europeias não são a mesma coisa que as nacionais: nelas, os eleitores tendem antes ao voto de protesto”, afirma. Além disso, lembra, é conhecida a tradição anti-Europa em países como o Reino Unido e a Dinamarca.

Alianças complicadas

Seja como for, os eurocríticos foram eleitos e vão entrar para o Parlamento Europeu. Mas, ainda assim, dificilmente se criará uma bancada unitária de direita. Tanto o britânico Ukip quanto o Partido do Povo Dinamarquês (DF) já excluíram a formação de uma grande aliança antieuropeia, por não quererem trabalhar em conjunto com a ostensivamente xenófoba Frente Nacional da França.

Spier estima que a FN buscará aproximar-se, antes, do holandês Partido para a Liberdade (PVV), de Geert Wilders, ou dos direitistas da Áustria e da Suécia. “Eles tentarão, com certeza, formar uma bancada, até mesmo pelos recursos financeiros que isso vai lhes trazer. Eles não vão deixar escapar essa vantagem.”

Ainda assim, todos os eurocéticos se encontram diante de um mesmo impasse insolúvel: eles querem defender interesses nacionalistas no âmbito de um grêmio transnacional. Numa bancada composta por partidos de diferentes países, essa é, por definição, uma tarefa impossível, diz o especialista da Universidade de Siegen. “Além disso, muitos partidos populistas apostam em figuras de liderança fortes – para elas o grande Parlamento Europeu é um ambiente difícil.”

Europa mais social

O ministro alemão do Exterior, Frank-Walter Steinmeier, confia no poder do centro político, para não deixar espaço aos partidos extremistas. Falando à imprensa alemã, o social-democrata disse esperar que as forças democráticas do novo Parlamento se unam, evitando assim que os populistas de direita ou de esquerda determinem a política europeia.

Entretanto, no momento, justamente os social-democratas e os conservadores estão divididos pela disputa entre os candidatos à presidência da Comissão Europeia, Martin Schulz e Jean-Claude Juncker.

Segundo Tim Spier, para evitar que os eleitores apoiem partidos extremistas, é preciso lhes oferecer melhores condições de vida. Pois geralmente quem vota nos grupamentos mais radicais, afirma, são aqueles que se encontram abaixo do nível de bem-estar geral no próprio país.

Os atuais resultados das urnas também confirmam que os cidadãos sentiram os efeitos sociais da crise financeira na zona do euro. Portanto, é preciso atacar as causas, prossegue o cientista político: e a solução é mais bem-estar e justiça social.

“Uma Europa mais social seguramente dificultaria a vida dos grupos de direita. Não podemos mais nos ver apenas como uma união econômica, mas também como uma união social”, afirma. No entanto, reconhece Spier, essa é uma “tarefa hercúlea”, na prática, nada fácil de levar a cabo.

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