Vitória da Frente Nacional agita política francesa

Símbolo do avanço da direita populista na UE, partido de Marine Le Pen se alça, na eleição europeia, a maior força política da França. Um resultado perigoso para Hollande e com consequências para outros países-membros.

por DW

Um dia após as eleições europeias, os jornais franceses estampam manchetes em tom dramático. “Terremoto”, titulou o conservador Le Figaro com uma foto da líder do partido de extrema direita Frente Nacional (FN), Marine Le Pen. O jornal liberal de esquerda Libération foi às bancas em tom ainda mais alarmista: “Toda a França pela Frente Nacional” em negrito sobre uma foto de Le Pen com pose de vencedora.

O balanço de jornalistas e políticos é de que a França foi atingida por um terremoto político. Pela primeira vez na história do país um partido de extrema direita conseguiu conquistar em uma eleição de âmbito nacional a maioria dos votos. A FN estará representada em Bruxelas e Estrasburgo com 24 deputados, à frente dos conservadores (20) e socialistas (13).

A FN já havia tido êxito nas eleições municipais do final de março. Ao realizar uma campanha negativa, o partido capitalizou o medo dos eleitores e lançou propostas como a saída da União Europeia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan); o fim do direito ao livre-trânsito nas fronteiras europeias (Tratado de Schengen) e a anulação do acordo de livre-comércio com os EUA.

“Os franceses têm um grande medo da globalização. Existe uma tendência protecionista do eleitorado, e é exatamente isso o que a Frente Nacional oferece”, afirma o cientista político Emiliano Grossman, do instituto parisiense Sciences Po. “A Europa representa, na verdade, apenas um dos vários outros temores que os franceses podem ter.”

Partidos tradicionais ameaçados

As consequências para os partidos tradicionais são preocupantes. O Partido Socialista, do presidente François Hollande, que há dois anos ganhou as eleições presidenciais com mais da metade dos votos, obteve apenas 14% no pleito europeu. Agora, apenas alguns pontos separam os partidos tradicionais dos centristas e verdes.

“Foi um voto avassalador contra o presidente”, afirma Grossman, lembrando ainda que os problemas domésticos na França, que sofre uma alta taxa de desemprego, contribuíram para o pífio resultado nas urnas.

Porém, ainda está incerto se os “primeiros passos no longo caminho para o poder”, como costuma dizer Marine Le Pen, serão seguidos de outros avanços de seu partido. Certo é que, neste momento, a FN se estabeleceu de vez na cena política francesa, e as outras legendas terão, em breve, que se reorganizar.

O fato de o ex-presidente Nicolas Sarkozy, apenas alguns dias antes das eleições, ter se posicionado de forma crítica ao Tratado de Schengen, pode ser encarado como uma prova de como a FN mudou o discurso político no país, principalmente dos conservadores, que já vivem uma clara guerra de trincheiras entre suas alas. Já os socialistas, tradicionalmente divididos sobre questões europeias, poderiam sofrer uma ruptura iminente de sua unidade.

E Marine Le Pen previu exatamente esses pontos fracos seus adversários. “Ela é muito interessada em apresentar o partido como apto a governar. E vê a si mesma mais como uma nova alternativa conservadora para os eleitores do que como um partido de extrema direita – o que, claro, é muito complicado, já que no partido existem muitas personalidades de extrema direita, que atualmente estão mais ou menos sob controle”, afirma Grossman.

Menos votos, mais impacto

No entanto, a vitória nas urnas parece mais impressionante do que possivelmente foi. Enquanto Le Pen nas últimas eleições presidenciais, há dois anos, conseguiu reunir cerca de seis milhões de franceses, apenas 4,5 milhões de eleitores votaram nas eleições europeias na Frente Nacional.

O partido se favoreceu muito da baixa participação dos eleitores, e também terá que enfrentar um desafio considerável: a FN não possui nem lideranças qualificadas em quantidade suficiente nem possíveis futuros talentos políticos.

Com o antigo fundador do partido, Jean-Marie Le Pen, sua filha Marine e seu companheiro Louis Aliot, três membros do clã Le Pen terão assento no Parlamento. E no Legislativo comunitário, até aqui, eles foram marcados mais pela ausência. “Isso acontecerá também no futuro, pois o partido vai perceber que, mesmo com seu sucesso fenomenal, não vai mudar muito o Parlamento Europeu”, afirma Grossman.

Nem sequer ainda está assegurada a criação de uma nova coalizão. O número necessário de 25 deputados Marine Le Pen pode até obter, mas ainda não se sabe se ela conseguirá atrair para a sua bancada deputados de outros seis países da União Europeia, como manda regra.

Cautela em Berlim

Ainda que o resultado das eleições europeias eleve um pouco a tensão na política francesa, ele não deve mudar a direção do governo François Hollande. Há poucas semanas, o presidente já havia trocado seu primeiro-ministro e grande parte de seu gabinete. E o alto endividamento do Estado e seus compromissos com a UE deixam poucas alternativas para uma mudança em curto prazo.

“A melhor forma de se descrever o que está acontecendo é ‘muito barulho por nada'”, opina Grossman. Segundo ele, o governo deve prosseguir – como deixou claro o primeiro-ministro Manuel Valls na véspera da eleição europeia – com as reformas planejadas e esperar que os índices econômicos melhorem o mais rapidamente possível.

Em longo prazo, não só a política da França, mas a também a europeia, deve ser reordenada. Com os socialistas franceses com apenas 14% de representação no Parlamento Europeu, sobretudo a relação de Paris com seu maior parceiro do euro, a Alemanha, deve ser influenciada.

“A França já tem, hoje, uma posição bem fraca na Europa. Isso possivelmente levará Angela Merkel a olhar em volta em busca de parceiros. Até porque, na Europa, já há tempos não há sugestões claras por parte de Paris”, conclui o especialista.

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