McStrike: os trabalhadores em fast-food vão à luta

Retomada dos protestos globais contra exploração das grandes redes de comida pronta marcada para esta quinta-feira, em trinta países — inclusive o Brasil 

Na AFP | Tradução Charles RosaJuntos

Funcionários de redes de fast-food reunidos em Nova York anunciaram nesta quarta-feira greves em mais de 150 cidades dos Estados Unidos e protestos em 30 países na próxima semana, no marco de uma “globalização” da campanha para reivindicar um aumento salarial.

Bandeiras do Brasil, El Salvador, França, Coreia do Sul, Dinamarca e Alemanha, entre outras, foram estendidas por cerca de 70 manifestantes vindos de todo o mundo em frente a um restaurante McDonald’s do bairro de Chelsea, em Manhattan, conforme constatou a AFP.

Reunidos pela primeira vez nesta semana pela União Internacional dos Trabalhadores da Alimentação, Agrícolas, Hotéis, Restaurantes, Tabaco e Afins (UITA), funcionários de cadeias de fast-food de cerca de três dezenas de países combinaram lançar uma greve nos Estados Unidos e protestos no resto do mundo no próximo 15 de maio.

“Trabalhadores de dezenas de países em seis continentes anunciaram que se somam ao crescente movimento para um salário melhor e direitos trabalhistas em restaurantes como McDonald’s, Burger King, Wendy’s e KFC”, ressaltaram os organizadores.

Nos Estados Unidos, os trabalhadores reivindicam um salário de 15 dólares a hora, pouco mais que o dobro do salário mínimo atual de 7,25 dólares que é pago em numerosas cadeias de fast-food.

“A gente está se juntando. É hora de mudanças”, disse à AFP Elizabeth Rene, uma jovem de 24 anos que trabalha no McDonald’s em frente ao qual foi realizada uma manifestação e que participará na próxima semana de sua terceira greve nos últimos dois anos e meio.

Perto dela, Kader Diop, um francês de 24 anos que vive nos subúrbios de Paris e é funcionário da mesma companhia, destacou a importância da reunião em Nova York, que permitiu “constatar as disparidades que existem em todas partes” e galvanizar o movimento.

Do Japão até o Brasil 

As mobilizações por esta questão começaram em Nova York no final de 2012, com mais de 200 trabalhadores do setor e seguiram em agosto e dezembro do ano passado.

“Enfrentamos os mesmos desafios, os mesmos problemas, os mesmos sofrimentos. Continuaremos até alcançar nosso objetivo”, afirmou por sua vez Massimo Fratini, coordenador da UITA, que agrupa 396 sindicatos em 126 países para um total de 12 milhões de trabalhadores.

Em 15 de maio haverá protestos do Japão (30 manifestações nos McDonald’s de 30 cidades diferentes) até o Brasil (mobilizações de cinco estados), passando por Marrocos (protestos em Casablanca e Rabat) e a Itália (greve nacional em redes de fast-food em Veneza, Roma e Milão).

Nos Estados Unidos, esperam-se greves de Oakland (California, oeste) até Raleig (Carolina do Norte, leste) e mobilizações com abandono temporário do trabalho pela primeira vez em Filadélfia (Pensilvânia, leste) e Miami (Flórida, sudeste), entre outros.

O primeiro resultado concreto da campanha se viu recentemente em Seatle (Washington, noroeste), onde o prefeito democrata Ed Murray propôs um salário mínimo de 15 dólares por hora que seria o mais elevado salário mínimo de uma grande cidade estadunidense. Até agora o mínimo no estado de Washington é de 9,32 dólares.

Em fevereiro, o presidente Barack Obama prometeu a partir de 2015 um aumento do salário mínimo ao valor de 10,10 dólares por hora para os servidores federais, uma medida que no último 30 de abril não recebeu os votos necessários para começar a ser debatida no Congresso, devido ao bloqueio de senadores republicanos.

Os empresários gastronômicos, como o grupo McDonald’s, não divulgaram a sua posição até o momento. A associação nacional de restaurantes estadunidenses foi mais longe e qualificou as mobilizações como uma operação de propaganda montada pelos sindicatos.

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C&A é condenada por manter trabalhadores em condições análogas a de escravos

Lojas de Goiânia foram processadas por uma série de problemas com a jornada de trabalho de seus funcionários

Por Revista Forum

A C&A foi condenada pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) a pagar uma indenização de R$ 100 mil por manter trabalhadores em condições análogas a de escravos. Lojas dos shoppings Goiânia, Flamboyant e Buriti, em Goiás, foram processadas por uma série de problemas com a jornada de trabalho de seus funcionários.

De acordo com os procuradores, a empresa obrigou os funcionários a trabalhar “em feriados sem autorização em convenção coletiva, não homologava rescisões no sindicato dos trabalhadores, não concedia intervalo de 15 minutos quando a duração do trabalho ultrapassava quatro horas, impedia o intervalo para repouso e alimentação em situações diversas, prorrogava a jornada de trabalho além do limite legal de duas horas diárias e não pagava horas extras no mês seguinte à prestação de serviços”.

A rede C&A enviou uma nota a respeito da condenação. “O processo em questão refere-se a uma discussão pontual sobre jornada de trabalho de seus empregados no Estado de Goiás”, defende-se. A marca ressalta seu repúdio ao trabalho escravo e afirma respeitar as relações de trabalho da legislação brasileira, mas se abstém de outros comentários.

Processo

Após a acusação, a C&A contestou que os direitos de seus trabalhadores tenham sido violados, já que o trabalho desenvolvido além da jornada seria remunerado como hora extra. A empresa ainda admitiu que a não homologação de rescisões era uma prática usual. Todavia, durante o processo, a 6ª Vara do Trabalho condenou a loja a cumprir as obrigações de homologar rescisões no sindicato, além de outras decisões.

Tanto a C&A quanto o Ministério Público do Trabalho, que apresentou a denúncia, recorreram à decisão judicial. Porém, o TRT acatou o pedido de indenização por danos morais coletivos no valor de R$ 100 mil. Foi entendido que a empresa atentava contra a dignidade humana do trabalhador desde 2009.­

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A Morte do Trabalhador | Workingman’s Death (2005)

Uma das coisas mais tristes é que a única coisa que um homem pode fazer durante oito horas, dia após dia, é trabalhar. Não se pode comer durante oito horas, nem beber oito horas, nem fazer amor oito horas… A única coisa que se pode fazer durante oito horas é trabalhar. E esse é o motivo pelo qual o homem se torna tão desgraçado e infeliz a si mesmo e os demais”, dizia o escritor norte-americano William Faulkner.

É com essa reflexão que começa “Workingman’s Death” (A Morte do Operário) -, um impressionante documentário que percorre metade do mundo para denunciar a existência de trabalhos miseráveis que, na sua face mais desumana, praticamente desapareceram dos países ricos.

O diretor do documentário, o austríaco Michael Glawogger, segue as “mulas humanas” do vulcão Kawah Ijen (Indonésia), os trabalhadores do matadouro do mercado de carne de Port Harcourt (Nigéria), os desmontadores de petroleiros de Gaddani (Paquistão), os operários metalúrgicos chineses e mineiros clandestinos ucranianos para denunciar que os trabalhos mais miseráveis não desapareceram do planeta, apenas se tornaram invisíveis para os olhos dos cidadãos dos países industrializados.

“O trabalho pode ser muitas coisas. Com frequência mal é visível. Às vezes é difícil de explicar. E, em muitos casos, impossível de retratar. Mas o duro trabalho manual é visível, explicável e retratável. É por isso que com frequência penso que é o único trabalho real”, opina Glawogger, que ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema de Gijón (Espanha) por Workingman’s Death. (Revista Forum)

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Lixo tecnológico inunda a África

Para os países mais desenvolvidos, sai muito mais barato se desfazer de seus descartados em portos remotos da África, ao invés de seguir as normas estritas de reciclagem que eles mesmos impuseram, e que ninguém quer cumprir

Por Aurora Moreno, original em La Marea. Tradução por Ítalo Piva | Revista Fórum

Para onde vão os móveis, computadores, micro-ondas ou geladeiras velhas? O que acontece com estes aparatos uma vez que os tiramos do lixo, ou inclusive os reciclamos? O caminho que percorrem não está totalmente claro, porém do que não sobra dúvida é de que existem vários lugares no mundo onde todo esse lixo tecnológico acumula há anos, tornando estes lugares mais contaminados que zonas de extração ilegais de produtos altamente contaminantes como petróleo e urânio, entre outros.

O exemplo mais claro disso é a chamada lixeira tecnológica de Agbogbloshie, em Accra (Gana), onde, segundo alguns estudos, existe contaminação de chumbo, cádmio e outros contaminantes prejudiciais à saúde em níveis 50 vezes maiores do que o permitido. Uma pesquisa de 2013 realizada pela Green Cross Switzerland e o Blacksmith Institute relatou as 10 maiores ameaças tóxicas do planeta, quer dizer, os 10 lugares mais contaminados do mundo.

Um deles é essa lixeira, que compartilha a triste honra com lugares como Chernobyl. Oficialmente, se trata de uma “área de processamento de lixo tecnológico”. Um eufemismo para definir um lugar onde vão parar milhares de toneladas de resíduos tóxicos, para, em teoria, serem “processados”. A realidade é que chegam até ali, misturados, materiais de todo tipo – geladeiras, micro-ondas e televisores – tão diversos e contaminantes que, para reciclar de maneira segura, “teria que haver um alto nível de competência e proteção entre os trabalhadores”. Algo que obviamente não acontece em Agbogbloshie. O pior é que essa zona não é apenas uma lixeira. É um assentamento informal no qual convivem indústrias, comércios e residências. Uma área onde os metais pesados que são expelidos nestes processos de queima chegam às casas e mercados.

Segundo essa mesma pesquisa, de 2013, o Gana importa cerca de 215.000 toneladas de resíduos tóxicos por ano, principalmente do Leste Europeu. Delas, aproximadamente a metade pode ser reutilizada imediatamente, ou consertada e vendida, porém o resto do material é reciclado de forma barata, ao custo de contaminar a terra que os recebe, e prejudicar a saúde daqueles que com eles trabalham. Um exemplo paradigmático é dos catadores de cobre, que queimam os fios que recebem para conseguirem os cabos de cobre no interior. Para a queima, utilizam um tipo de espuma, altamente tóxica, jogando ao ar livre todos seus contaminantes.

Fogueiras, fumaça e materiais descartados compõem o dia a dia de algumas partes da lixeira, onde trabalham sobretudo jovens sem recursos, de famílias pobres, que dependem por completo do que tiram do aterro. Pessoas que sabem que o trabalho ali é ruim, mas que não reclamam porque o que conseguem ali é melhor do que nada. O material que lá obtêm pode ser vendido rapidamente pelas ruas de Accra, assim ganhando o necessário para sobreviver. Isso é também do interesse de outros: o centro de Accra está repleto do lojas que vendem todo tipo de aparelho elétrico a preços baixos, boa parte deles de segunda mão. Este tipo de situação não acontece só no Gana, que é de fato, um dos países mais desenvolvidos do continente.

A mesma realidade afeta outros lugares como o Zimbábue, onde pouco tempo atrás foi dado o alerta sobre uma possível crise ambiental, por falta de sistemas adequados para a eliminação desse tipo de resíduo. Tudo isso apesar da existência de tratados internacionais, como a Convenção da Basilea, que restringe o movimento entre fronteiras de despejos, uma adição ao acordo firmado em Bamako (Mali), em 1993, sobre o mesmo tema. São tratados que estabelecem condições, quantidades e critérios para verificar se a “exportação” de lixo está sendo bem feita.

Porém, para os países mais desenvolvidos sai muito mais barato se desfazer de seus descartados em portos remotos da África, ao invés de seguir as normas estritas de reciclagem que eles mesmos impuseram, e que ninguém quer cumprir. Para os receptores, por sua parte, essa é uma suposta fonte de riqueza da qual vivem muitos de seus cidadãos, apesar dos riscos e problemas de saúde. Definitivamente, uma solução que convém a muitos, e que nem começou a ser regulamentada.

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Quem são as centenas de jovens sequestradas na Nigéria?

por BBC Brasil

Na noite do dia 14 de abril, homens armados – integrantes do grupo radical islâmico Boko Haram – invadiram um internato em Chibok, pequena cidade interiorana no Estado de Borno, no noroeste da Nigéria.

“Não se preocupem, não vai acontecer nada com vocês”, os invasores disseram às jovens estudantes que encontraram. Depois de se apoderar de alimentos e outros produtos encontrados no local, os homens colocaram fogo no prédio e partiram, levando-as.

Duas semanas após o sequestro, quase nada se sabe sobre o destino das mais de 200 jovens, a maioria entre 16 e 18 anos, que se preparavam para fazer seus exames finais.

Uma das hipóteses é a de que elas teriam sido levadas para Sambisa, um frondoso bosque cortado por riachos e habitado por antílopes e elefantes onde, antes da insurgência, moradores da região caçavam e pescavam.

Também há relatos de que algumas teriam sido vistas em caminhões na direção do Chade ou da República dos Camarões, onde seriam vendidas por US$ 15. Também na semana passada, surgiu a informação de que elas teriam sido forçadas a casar com sequestradores, que teriam pago US$ 12 por uma noiva.

Em um vídeo, o líder do Boko Haram, Abubakar Shekau, confirmou que as jovens seriam vendidas. “Deus me orientou a vendê-las, elas são propriedades Dele e eu vou fazer o que ele me pediu”, disse.

Há mais de uma década, os militantes do Boko Haram estão empenhados em uma campanha violenta com o objetivo de derrubar o governo e estabelecer um Estado islâmico na região. O grupo se opõe ao que qualifica de “educação ocidental” de mulheres e quer a adoção da Lei Sharia (Lei Islâmica) no país.

Não há informações sobre as medidas tomadas pelo governo para resgatá-las – o que, segundo as autoridades, se deve à necessidade de não revelar detalhes por razões de segurança – e tão pouco sobre o número exato de estudantes sequestradas.

Inicialmente, falava-se em 230. Depois, houve relatos de que 40 teriam conseguido escapar. Posteriormente, o número se elevou para 276. E a cifra mais recente, fornecida à BBC pelo chefe de polícia nigeriano Tanko Lawan, é de que 223 meninas teriam sido sequestradas.

Em desespero, nigerianos saíram às ruas no dia 1º de maio para protestar e exigir que o governo faça mais para resgatar as jovens.

Quem seriam, no entanto, essas jovens que venceram o medo e apostaram na educação, um caminho arriscado em um Estado cuja capital é o berço do grupo Boko Haram?

‘Queria fazer medicina’

“Ela gostava muito de ir à escola”, disse à BBC Ayuba Alamson, que tem duas sobrinhas, uma com 17 anos, outra com 18, e duas primas, entre as sequestradas.

“Era alegre, amorosa e ótima companhia”, disse Alamson em relação a uma das sobrinhas, cujo nome ele prefere não revelar.

“Ela queria terminar seus estudos secundários, estudar medicina e se especializar em ginecologia, para ajudar as mulheres em áreas rurais que não têm acesso aos hospitais da cidade”.

“Minha outra sobrinha”, contou, “queria trabalhar na mídia, escrever em publicações, apresentar programas de rádio e ser escritora”.

“A escola (que frequentavam) era a única escola de Estado em Chibok, por isso, o sonho de muitas das meninas era se formar, ir para a universidade e voltar para a comunidade para construir uma boa escola para seus filhos”, acrescentou.

Alamson tem ainda uma irmã que teve a sorte de escapar dos sequestradores junto com outras estudantes. mas o incidente foi tão traumático que ela ainda não consegue falar sobre o que aconteceu.

“No momento, ela está há 20 km de Chibok. Quando falo com ela, chora o tempo todo e não quer se lembrar do que aconteceu, continua pensando em suas companheiras que ainda estão no bosque. Só se lembra do momento em que foi sequestrada e de ter saltado do caminhão para escapar”.

Angústia

Deborah Sanya também conseguiu escapar. Tem 18 anos e está prestes a se formar.

Ela disse à revista The New Yorker que era meio-dia quando chegaram ao acampamento dos militantes, em um local remoto, no meio do bosque.

Os homens obrigaram suas colegas a cozinhar. Ela disse que não comeu, não tinha apetite.

Duas horas mais tarde, convenceu duas de suas amigas a tentar escapar. Elas se esconderam atrás de uns arbustos e, quando foram vistas pelos guardas, começaram a correr.

À noite, chegaram a um povoado, dormiram na casa de um estranho que as acolheu e, no dia seguinte, telefonaram para suas famílias.

“Pensei que minha vida tinha chegado ao fim”, ela disse.

Assim como a irmã de Alamson, a preocupação e angústia que Sanya sente em relação às companheiras a impede de contar mais detelhes.

No momento do ataque, só estavam na escola as estudantes que estavam fazendo os exames finais.

“As jovens em Chibok são como outras moças de 17 ou 18 anos. A maioria é filha de camponeses. As que conseguem bons resultados em seus exames sonham em prosseguir com sua educação”, disse à BBC um dos líderes anciãos da comunidade, Pogo Bitrus.

A organizadora dos protestos em resposta ao sequuestro ocorridos na capital do país, Abuja, é Naomi Mutah, oriunda de Chibok.

“Os pais dessas meninas são camponeses e estão firmemente convencidos de que suas filhas devem receber educação”, ela disse. “E esta região valoriza muito a educação ocidental”.

“Também não se faz muita distinção entre meninos e meninas nessa região, que é de maioria cristâ”, acrescentou.

“Nesse sentido, essa área é diferente de outras no país, onde as meninas não têm as mesmas oportunidades que os meninos, por conta de diferenças culturais e religiosas”.

“Esses pais trabalham durante a estação das chuvas para garantir uma boa colheita que, ao ser vendida, lhes permite pagar a escola das crianças”.

“Mas agora, todos esses sonhos foram subitamente interrompidos e sequer sabemos o que aconteceu com elas. Estão vivas? E se estão, onde estão? Queremos nossas crianças de volta.para que possam voltar para a escola”, esbravejou.

“Não podemos nos esquecer de que esta é uma geração inteira de estudantes mulheres de Chibok. Entre elas, com certeza haverá primeiras damas, médicas, advogadas e engenheiras. Mas se nada for feito para resgatá-las, todo o nosso trabalho terá sido em vão”.

O que é o Boko Haram

O grupo islâmico luta desde 2009 para derrubar o governo da Nigéria e estabelecer um estado baseado na Sharia, ou lei islâmica.

Ele promove uma visão do Islã que acredita ser proibido para os muçulmanos participar de qualquer atividade social e política ligada à sociedade ocidental.

Isso inclui votar em eleições, vestir camisetas e receber uma educação secular.

Traduzido do hausa, uma das línguas locais da Nigéria, Boko Haram significa “a educação ocidental é proibida”

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A vida na primeira favela da Alemanha

Primeira “favela” de Berlim reúne sem-tetos e ativistas contra gentrificação. Moradores rejeitam o termo favela e preferem se referir ao local como acampamento

por Deutsche Welle

Às margens do rio Spree, no bairro berlinense de Kreuzberg, um terreno baldio, mais ou menos do tamanho de um campo de futebol, chama a atenção no meio de empreendimentos imobiliários modernos e luxuosos.

Lá, entre o mato que não para de crescer, na esquina das ruas Cuvry e Schlesische, tendas e barracas se amontoam, formando aquilo que a imprensa local chamou de “a primeira favela da Alemanha”.

Os cerca de 60 moradores da “Cuvry”, como o local foi apelidado, não gostam de se referir ao local como favela. Eles preferem chamá-lo de acampamento.

A localização das barracas não parece seguir uma lógica. No entanto, imigrantes da Romênia e da Bulgária ficam numa área separada do restante dos habitantes. Os primeiros moradores chegaram em meados de 2012, depois de uma série de projetos para ocupar o terreno não ter ido para frente.

Há duas entradas e cartazes espalhados por todos os cantos avisando que fotos são proibidas. A proibição atrapalha passeios guiados especializados em grafite, já que no local estão dois dos principais murais de arte de rua de Berlim, feitos pelo grafiteiro italiano Blu.

“Quando trago meus grupos aqui, já aviso para eles guardarem as câmeras para evitar problemas com os moradores”, conta a guia turística Caro Eickhoff.

A comunidade é fechada, e os habitantes são muito reticentes na hora de dar entrevistas. A grande maioria se recusa a falar com jornalistas. Os poucos que cederam aos pedidos de entrevista pediram para não ser identificados.

“Muita gente aqui já teve más experiências com a mídia, então prefere não falar”, diz uma jovem alemã que mora na Cuvry há oito meses. Vinda do interior da Alemanha para estudar em Berlim, ela procurava o endereço de um albergue na região quando ficou sabendo do acampamento.

“Minha primeira noite aqui foi dentro daquele barraco”, diz ela, apontando para uma estrutura rudimentar de madeira que, durante o dia, abriga uma biblioteca comunitária. Agora, ela divide uma tenda com dois amigos e mantém uma horta em seu pequeno quintal, onde planta tomates, pepinos e rabanetes.

Seu principal projeto para o futuro é conseguir montar uma barraca para morar sozinha. “Se depender de mim, não saio mais daqui. Essas pessoas viraram minha família.”

Em tese, qualquer um pode morar na Cuvry. De acordo com alguns moradores, quem quiser montar uma barraca no local só precisa conversar com os futuros vizinhos para verificar se o espaço está realmente livre.

Também não há uma liderança definida, e tudo é decidido em reuniões plenárias entre os moradores – desde os responsáveis por pequenos reparos nas moradias até como separar o lixo na hora de fazer a reciclagem.

As discussões são, em sua maioria, feitas em inglês por conta da mistura de nacionalidades. Não há água encanada e os banheiros são improvisados, com buracos feitos no chão.

Drogas e violência

DW Brasil visitou o local em duas ocasiões: um domingo e uma terça-feira, sempre no período da tarde. É possível ver garrafas de bebidas alcoólicas em todos os cantos – há até um bar funcionando no local. Todas as noites, uma fogueira é acesa, e, com alguma frequência, festas são realizadas. O uso de drogas é comum.

“Passo minhas tardes sempre aqui, fumando maconha e relaxando”, conta um imigrante africano de Gâmbia que pediu para não ser identificado. Um outro morador do local, que se identificou como Philip, até mostrou o lugar preferido de alguns moradores para o consumo de drogas – uma área escondida, no meio do mato, com sofás e poltronas amontoadas.

“Moro aqui há mais ou menos um ano e é perfeito porque, além de ser de graça, também tenho amigos”, explica Philip. Segundo ele, no verão há mais moradores do que o normal – durante o rigoroso inverno alemão, o número de habitantes da Cuvry cai pela metade.

A jovem alemã que acompanhou a DW Brasil durante uma das visitas ao local disse que, apesar de o clima entre os moradores ser tranquilo na maior parte do tempo, o consumo de drogas ainda é um problema. “O que me incomoda mais são as crianças que moram aqui. Um lugar assim não é o melhor ambiente para alguém crescer.”

Gentrificação

A ocupação do terreno onde a Cuvry está instalada começou em 2012, depois de artistas, ativistas e sem-teto se mudarem para o local seguindo manifestações contra a construção de um shopping center. O projeto foi interrompido após protestos dos moradores de Kreuzberg contra a gentrificação do bairro.

O impasse, porém, continua até os dias de hoje, e os moradores da Cuvry estão constantemente sob ameaça de despejo.

Há até um abaixo-assinado na internet, no site http://www.change.org, que pede que o local seja transformado num parque. “Queremos discutir com os habitantes, com os vizinhos e com a cidade a criação de um parque semipúblico que também funcionaria como um espaço para moradia de refugiados, sem-teto, artistas e pessoas que querem viver fora do sistema ‘normal’”, afirma o texto do abaixo-assinado.
“Sabemos que há um problema de violência e alcoolismo entre alguns dos habitantes dessa área e nós apreciamos a tolerância e paciência de nossos vizinhos e esperamos poder evitar a ação policial ou o despejo dos moradores”, diz o documento.

Num vídeo da campanha pelo abaixo-assinado, postado no YouTube, um dos porta-vozes da comunidade, identificado apenas como Sascha, diz que muitos dos que moram na Cuvry estão ali para lutar contra a gentrificação de Berlim.

“Nós ocupamos este espaço para mostrar que há um estilo de vida diferente do estilo de vida pregado pelo ‘sistema’”, diz ele. “Esta é uma luta contra os investidores que querem explorar a nossa cidade.”

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Sobre Páscoa e justiceiros

Era uma vez…
Um ladrão torturado e amarrado a um poste, sob o olhar da multidão.
Até que, ao seu lado, avistou um homem que defendia o amor e o perdão.
De repente, o homem ouviu gritos em meio à multidão, que o acusava:
“Está com dó, leva pra sua casa!”
O homem se virou para o ladrão e disse:
“Em verdade te digo: Estarás comigo no paraíso”.
Antes de dar-lhe um golpe fatal o guarda bradou:
“Quem tá do lado de bandido, bandido também é”.
Os dois, juntamente com outro ladrão que estava preso ao poste (pois na época isso era moda), foram assassinados pelos guardas sob a aprovação da multidão.
Só sua mãe chorou.
FIM

Philipe Arapian

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Independências, o novo fantasma europeu

Por Conn Hallinan, do The Nation | Tradução: Antonio Martins

As famílias felizes são todas parecidas;
cada família infeliz o é à sua maneira”
Leon Tolstoi, Anna Karenina

A abertura do grande romance de amor e tragédia de Tolstoi poderia ser uma metáfora da Europa de hoje, onde “famílias infelizes” de catalães, escoceses, belgas, ucranianos e italianos consideram divorciar-se dos países de que são parte. E, em mais um caso em que a realidade imita a ficção, cada uma delas é infeliz à sua própria maneira.

Enquanto os Estados Unidos e seus aliados exasperam-se com o recente referendo na Crimeia, que separou a província da Ucrânia, os escoceses viverão uma consulta muito similar em 18 de setembro e os catalães gostariam muito de fazer o mesmo. Assim como os habitantes do Tirol do Sul e a população de língua flamenga do norte da Bélgica.

Na aparência, muitos destes movimentos de secessão sugerem que regiões ricas estão tentando “libertar-se” de outras mais pobres. Mas ainda que haja alguma verdade nisso, a fórmula é muito simplista. No norte da Bélgica, os flamengófonos, mais ricos, querem separar-se dos francófonos despreocupados do Sul, assim como os tiroleses gostariam de se separar da Itália meridional, castigada pela pobreza. Mas na Escócia, muito da luta tem a ver com a preservação do contrato social que os governos do “novo” Partido Trabalhista – agora conservador – e do Partido Conservador – de direita – desmantelaram sistematicamente. O caso da Catalunha, bem, é complicado.

As fronteiras europeias podem parecer imutáveis, mas certamente não o são. Foram deslocadas várias vezes – pela guerra, necessidades econômicas ou porque os poderosos desenharam linhas caprichosas que ignoram a história e a etnicidade. A Crimeia, conquistada por Catarina, a Grande, em 1783, foi arbitrariamente cedida à Ucrânia, em 1954. A Bélgica resultou de um congresso das potências europeias, em 1830. A Escócia, empobrecida, ligou-se à ria Inglaterra, em 1707. A Catalunha caiu diante dos exércitos espanhol e francês em 1714. E o Tirol do Sul foi um espólio da Primeira Guerra Mundial.

Em todos os casos, ruídos históricos, desenvolvimento injusto e tensões étnicas foram exacerbados por um crise econômica de longa duração. Nada como o desemprego e as políticas de “austeridade” para acender as fogueiras da secessão. Os dois movimentos separatistas mais fortes estão na Escócia e Catalunha – e são os que podem ter impacto mais profundo no resto da Europa.

As regiões são infelizes de diferentes maneiras.

Escócia

A Escócia sempre teve um partido nacionalista expressivo, embora marginal – mas foi dominada tradicionalmente pelo Partido Trabalhista britânico. Os Conservadores quase não existiam a norte do rio Tweed. Mas o “novo trabalhismo” do ex-primeiro-ministro Tony Blair adotou cortes de investimentos públicos e privatizações que marginalizaram muitos escoceses, obrigados a gastar mais com Saúde e Educação que o resto dos britânicos.

Quando o Partido Conservador ganhou as eleições, em 2010, seu orçamento de “austeridade” devastou a Educação, Saúde, os subsídios para Habitação e o Transporte. Os escoceses, irados, votaram no Partido Nacional Escocês (SNP), nas eleições de 2011 para o parlamento local. O SNP imediatamente propôs um plebiscito que indagará aos eleitores se querem revogar o Ato de União de 1707 e voltar a ser um país independente. Se a resposta for sim, o SNP propõe renacionalizar o correio e expulsar da Escócia os submarinos britânicos Trident, dotados de mísseis nucleares.

Levando em conta o petróleo do Mar do Norte, quase não há dúvidas de que uma Escócia independente seria viável. O país tem um PIB per capita mais alto que o da França e, além de petróleo, exporta bens industriais e uísque. A Escócia seria um dos 35 países com maiores receitas de exportação.

O governo britânico do Partido Conservador diz que, se a Escócia votar pela independência, não poderá mais utilizar a libra como moeda. Os escoceses dizem que se a ameaça for mantida, não assumirão mais responsabilidade por sua parcela na dívida pública britânica. Neste ponto, há um impasse.

Segundo os britânicos, e alguns tecnocratas em posições de poder na União Europeia (UE), uma Escócia independente não poderá permanecer integrada ao bloco europeu, mas isso pode ser um blefe. Primeiro, porque contrariaria precedentes históricos. Quando a Alemanha reunificou-se, em 1990, cerca de 20 milhões de habitantes do país oriental (a República Democrática Alemã) foram automaticamente reconhecidos como cidadãos da UE. Se 5,3 milhões de escoceses foram excluídos, será por ressentimento, não por política. De qualquer forma, como o Partido Conservador britânico planeja, em 2017, um referendo que poderia separar a Grã-Bretanha da União Europeia, Londres não está apostando todas as fichas numa postura de intransigência…

Se as eleições fossem hoje, os escoceses provavelmente optariam por permanecer no Reino Unido, mas as tendências estão mudando. A pesquisa mais recente indica que 40% votarão pela independência – um avanço de 3 pontos percentuais, em relação à sondagem anterior. A parcela dos eleitores contrária à independência caiu 2 pontos percentuais, e agora representa 45% do total. Há 15% de indecisos. Todos os residentes na Escócia com mais de 16 anos podem votar. Dada a formidável habilidade eleitoral de Alex Salmod, o primeiro-ministro da Escócia e líder do SNP, as perspectivas não são tranquilizadoras para o governo de Londres.

Catalunha

A Catalunha, situada no Nordeste da Espanha bem junto à fronteira com a França, foi sempre um motor da economia espanhola e uma região marcada por sensação de injustiça histórica. Conquistada pelos exércitos unidos da França e Espanha, na guerra de secessão espanhola (1701-1714), foi também derrotada na Guerra Civil espanhola, entre 1936 e 39. Em 1940, os fascistas, triunfantes, suprimiram o uso do idioma catalão, reprimiram sua cultura e executaram o presidente da região, Lluis Companys – um ato pelo qual nenhum governo de Madri desculpou-se até hoje.

Após a morte do ditador Francisco Franco, em 1975, a Espanha buscou reconstruir sua democracia, sepultando as animosidades profundas engendradas pela Guerra Civil. Mas os mortos podem não permanecer enterrados para sempre, e cresce um movimento pela independência catalã.

Em 2006, a região conquistou autonomia considerável, mas ela foi revogada pelo Supremo Tribunal espanhol em 2010, para alegria do Partido Popular (PP, conservador), no poder. A decisão serviu de combustível para o movimento pela independência da Catalunha e em 2012 partidos separatistas chegaram ao poder.

O PP, do primeiro-ministro Mariano Rajoy, é uma preocupação permanente na Catalunha, cujo parlamento é dominado por diversos partidos independentistas. O maior deles é aConvergencia i Unio (CiU), do presidente provincial, Artur Mas. Porém, a Esquerra Republicana de Catalunya (ERC) dobrou, há pouco, sua representação legislativa.

Estes partidos divergem entre si. Muitos tendem a ser centristas ou conservadores, enquanto o ERC é de esquerda e se opõe às políticas de “austeridade” do PP – algumas das quais foram adotadas também pelo CiU. O centrismo deste partido é uma das razões pelas quais sua bancada caiu de 62 deputados para 50, nas eleições de 2012, enquanto a do ERC saltou de dez para 21.

A taxa oficial de desemprego na Espanha é de 25%, mas o índice é bem mais alto entre os jovens e nas regiões do Sul – e a esquerda parece disposta a ir à luta. Mais de 100 mil pessoas marcharam em Madri, no mês passado, exigindo o fim da “austeridade”.

Dizendo apoiar-se na Constituição de 1976, Rajoy recusa-se a permitir um referendo de independência, uma intransigência que alimentou a chama do movimento separatista. Em janeiro, o parlamento catalão votou, por 87 a 43, por realizar o referendo, e as pesquisas mostram uma maioria em favor da separação. Há seis meses, um milhão e meio de catalães marcharam em Barcelona pela independência.

De olho no eleitorado de direita, o PP também radicalizou e parece disposto a provocar os catalães. Quando a Catalunha proibiu as touradas, Madri aprovou uma lei que as considera herança cultural da nação. Os bascos podem arrecadar seus próprios impostos; os catalães, não.

Como a União Europeia reagiria a uma Catalunha independente? E o governo central de Madri faria algo para impedir o passo? É difícil imaginar o envolvimento do exército espanhol, embora o partido de Rajoy tenha entre seus fundadores um ex-ministro do governo franquista e a reivalidade entre Madri e Barcelona seja evidente.

Outras linhas de ruptura

Há outras linhas de ruptura na Europa.

A Bélgica poderá se dividir? A fissura entre os flamengófonos (no norte) e os francófonos (no sul) é tão profunda que foram necessários dezoito meses para formar um governo, após a última eleição. E se a pequena Bélgica rachar, ela dará origem a dois países, ou será engolida pela França e Holanda?

Na Itália, o Partido da Liberdade do Tirol do Sul reivindica um referendo de independência e uma fusão com a Áustria, embora a minúscula província, – chamada na Itália e Alto Adige – quase não tenha do quê se queixar. Ela retém 90% dos impostos que arrecada, e sua economia conseguiu evitar o pior da crise de 2008. Mas parte da população germano-austríaca ressente-se de cada centavo transferido a Roma e há um profundo preconceito contra os italianos – que constituem 25% dos habitantes – particularmente, os do Sul. Nesse sentido, o Partido da Liberdade não é muito diferente da Lega Norte, racista e elitista, que tem como base o Vale do Po.

É instrutivo assistir a um vídeo, no YouTube, sobre como as fronteiras da Europa mudaram, de 1519 a 2006 – um período de menos de 500 anos. O que julgamos eterno é efêmero. O continente europeu está novamente à deriva, tensionado por linhas de ruptura antigas e contemporâneas. A atitude de países como Espanha e a Grã-Bretanha, e de organizações como a União Europeia diante deste processo determinará seu caráter – se civilizado ou doloroso. Mas tentar interrompê-lo causará, muito provavelmente, apenas mais dor.

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Alemanha: adeus aos imigrantes pobres

Voltada contra búlgaros, romenos e ciganos, medida baixada por Angela Merkel expulsa do país quem não encontrar emprego em no máximo seis meses

No OperaMundi

O governo alemão iniciou um processo para expulsar do país os imigrantes vindos de outros membros da União Europeia que não consigam trabalho em até seis meses, segundo anunciou nesta quarta-feira (26/03) o gabinete da chanceler Angela Merkel. A medida deve se tornar efetiva a partir de junho, com objetivo de limitar a “imigração de pobreza”.

O projeto foi criado depois que cidadãos da Romênia e da Bulgária, membros recentes da União Europeia, obtiveram permissão para circular livremente por todos os países do bloco. No ano passado, 75 mil pessoas desses países imigraram para a Alemanha e o governo espera que o número dobre neste ano.

Com vistas a esses trabalhadores, especialmente os de etnia cigana, o Executivo alemão aprovou um informe de 133 páginas estabelecendo que os imigrantes da UE terão de três a seis meses para conseguir um emprego na Alemanha. Caso esse prazo não seja cumprido, o imigrante deverá retornar ao seu país de origem.

Os ministros do Interior e do Trabalho, Thomas de Maizière e Andrea Nahles, respectivamente, apresentaram o documento para a imprensa, com o título de “Questões jurídicas e desafios no uso do sistema de segurança social por parte dos cidadãos dos Estados-membro da UE”.

“O número de imigrantes procedentes da Bulgária e da Romênia e os problemas sociais que estão parcialmente associados à imigração são manejáveis e controláveis a nível nacional, mas representam um problema em várias cidades específicas, que possuem bolsões de pobreza”, afirmou de Maizière. Segundo ele, focos de imigração como Frankfurt, Munique, Hamburgo e Hannover já estão saturados de imigrantes desempregados do leste europeu, que necessitam de ajuda social.

Apesar disso, de Maizière classificou o aumento da imigração para Alemanha, que atingiu sua taxa mais alta em duas décadas no último ano, como uma “boa notícia”. “É uma boa notícia quando os imigrantes vêm aqui para trabalhar, treinar, estudar ou contribuir com o bem-estar e o desenvolvimento da Alemanha”, afirmou.

O ministro também declarou que, apesar da preocupação com o número crescente de romenos e búlgaros no país, eles geralmente se mudam para a Alemanha para estudar ou trabalhar e têm menos probabilidade de ficar desempregados do que cidadãos de outros países da UE. Romenos e búlgaros representam 0,7% dos imigrantes que pedem ajuda social, acrescentou.

A medida proposta pelo governo de Angela Merkel, entretanto, não está sendo bem aceita por todos os setores políticos alemães. O deputado do Partido Verde Volker Beck declarou que a iniciativa “não é compatível com o direito da União”. No entanto, a norma europeia estabelece o direito de residência para os trabalhadores, mas de forma limitada, e, portanto, a proposta do governo alemão será válida contanto que respeite a livre circulação.

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Para maioria da população, mulher tem culpa em estupros

Brasileiro rejeita violência contra mulheres, mas diz que comportamento e roupas delas têm influência no número de estupros. Apenas 10% desses crimes são notificados.

por DW

Mesmo com a ampliação dos debates sobre violência contra mulheres e iniciativas como a Lei Maria da Penha, de 2006, a sociedade brasileira ainda mantém opiniões machistas e acha que o comportamento da mulher tem influência no número de estupros, segundo uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Os pesquisadores pediram que os entrevistados dissessem se concordavam ou não com frases como “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. Para a primeira, 65% dos entrevistados disseram concordar total ou parcialmente. Para a segunda, o percentual é de 58,5%.
Os dados sobre a percepção acerca da violência contra a mulher são do Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS), do Ipea, divulgado nesta quinta-feira (27/03) em Brasília.
“Esse é um resultado extremamente preocupante, que remete mais uma vez à mentalidade patriarcal que ela leva a esse tipo de percepção”, comentou o diretor de estudos e políticas sociais do Ipea, Rafael Osório. “É extremamente desanimador constatar que, depois de tanto progresso, ainda encontramos essa percepção amplamente disseminada.”

Apesar do cenário predominantemente machista, o estudo também mostrou que 90% da população concorda que homens que agridem mulheres devem ser punidos com a prisão.
Subnotificação dos estupros
Um segundo documento inédito apresentado nesta quinta-feira pelo Ipea revela que todos os anos no Brasil acontecem ao menos 527 mil casos de estupro, mas apenas 10% são registrados na polícia.
Para o diretor de estudos e políticas do Estado, das instituições e da democracia do Ipea, Daniel Cerqueira, a falta de estatísticas em âmbito nacional dificulta o processo de elaboração de políticas públicas eficientes. “As bases de dados são segmentadas, não existe um banco de dados nacional nem sincronia dessas informações”, disse.
O estudo também mostrou que, em 70% dos casos notificados, as vítimas são crianças e adolescentes e os agressores, na maior parte dos casos, são ou pais/padrastos (24,1%) ou conhecidos (32,2%) das vítimas. “Esse é um quadro de sintoma de uma doença coletiva, e é uma situação muito complexa de ser resolvida”, opinou Cerqueira.
Brigas privadas e intervenção do Estado
De acordo com a pesquisa sobre a percepção da violência contra a mulher no Brasil, 64% das pessoas concordam que a família deve ser chefiada pelo homem e 82% acham que não se deve interferir em brigas entre marido e mulher. Os dados reforçam a presença ainda forte do chamado ordenamento patriarcal, em que o homem detém o mando sobre o espaço doméstico.
A pesquisa também mostrou que o percentual de pessoas que acredita que brigas entre marido e mulher devem ser resolvidas no âmbito particular é similar (87%) ao percentual de pessoas que defendem prisão para os agressores (90%). Segundo o Ipea, os dados mostram que, quando os conflitos passam para a violência física, os entrevistados disseram concordar com intervenções externas, por exemplo do Estado.
Segundo os pesquisadores, “embora o homem ainda seja percebido como o chefe da família, seus direitos sobre a mulher não são irrestritos e excluem as formas mais abertas e extremas de violência”.
“Vemos que as pessoas estão fazendo distinção entre formas de violência que deveriam levar à intervenção do Estado na vida provada. As pessoas tendem a encarar a violência física como intolerável, mas há outros tipos de brigas que as pessoas acham que devem ser resolvidas na esfera privada”, detalha Osório.
Relações homossexuais
Perguntados se concordam com a possibilidade de casais de pessoas do mesmo sexo terem os mesmos direitos dos outros casais, 50% dos entrevistados disseram que sim. Para o Ipea, essa aceitação deve-se ao fato de se tratar de um conceito e não necessariamente uma situação prática.
Evidência disso é o percentual de 52% de pessoas que concordam com a proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo e o percentual de 59% que dizem se sentir incomodadas ao ver demonstrações públicas de afeto entre duas mulheres ou dois homens.
A pesquisa também cruzou os dados com a orientação religiosa e os resultados mostram que os evangélicos são o grupo mais intolerante à homossexualidade.

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